Puxa-se a pena, vem a galinha: Vorcaro e a República em frangalhos
O que começou com um áudio envolvendo Daniel Vorcaro e Flávio Bolsonaro, transformou-se em uma sucessão de revelações que agora alcança STF, PGR, Polícia Federal, Congresso e o mundo político
Algumas expressões populares conseguem explicar, com poucas palavras, situações que seriam difíceis de traduzir. “Puxa-se a pena, vem a galinha” é uma delas. No caso Daniel Vorcaro, a frase parece ter adquirido uma assustadora precisão.
Primeiro veio uma pena. Depois outra. E outra. Quando se percebeu, já não se tratava apenas de um banqueiro investigado por suspeitas de fraudes bilionárias envolvendo o Banco Master. O conteúdo extraído de seus celulares passou a revelar uma rede de relações que alcança personagens dos mais diferentes espaços de poder da República.
Neste ano, a história começou a ganhar dimensão nacional em maio, quando veio a público um áudio no qual o então pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro negociava com Vorcaro um aporte para o filme Dark Horse, sobre a trajetória de Jair Bolsonaro. A gravação registrou uma negociação que chegou a R$ 134 milhões, destinada à produção cinematográfica.
Naquele momento, poderia parecer apenas mais um capítulo de uma controvérsia política, mas a cada nova extração de mensagens, o caso foi deixando de ser financeiro para se transformar em um problema de relações entre dinheiro, influência e poder público. E é aí que a galinha começa a aparecer.
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As penas da galinha
O caso Dark Horse foi talvez a primeira grande janela aberta para o público sobre a proximidade de Vorcaro com figuras políticas. Flávio Bolsonaro (PL) foi gravado pedindo recursos para financiar a produção do filme. O senador confirmou posteriormente que havia conversado com Vorcaro, mas passou a enfrentar questionamentos sobre a prestação de contas dos recursos relacionados à produção. Em agosto, chegou a dizer que o assunto era “página virada”, enquanto permaneciam questionamentos sobre os valores e a documentação da operação.
A produtora, por sua vez, afirmou que declarou à Justiça todos os repasses recebidos, inclusive um aporte de US$ 1,6 milhão feito por Vorcaro em setembro de 2025.
O que ninguém poderia prever naquele momento era que o celular do banqueiro guardava uma quantidade muito maior de conexões. Se o caso já era politicamente desconfortável, as revelações envolvendo o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, mudaram a dimensão da crise.
Relatório da Polícia Federal, baseado em mensagens encontradas nos aparelhos de Vorcaro, aponta para contatos entre o banqueiro e o ministro e registra pedidos feitos por Vorcaro para que fossem acionados o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e o procurador-geral da República, Paulo Gonet.

Segundo o relatório, Vorcaro procurava ajuda para retardar ou impedir medidas que poderiam atingir o Banco Master e, às vésperas de sua prisão, chegou a perguntar ao interlocutor se deveria deixar o país. As mensagens também apontam para pelo menos seis encontros entre Vorcaro e Moraes, embora nem todos tenham confirmação independente nos documentos.
Há ainda um contrato de aproximadamente R$ 131 milhões entre o Banco Master e o escritório da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro. A PF identificou metadados indicando que um arquivo contratual foi editado por um usuário identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”.
E existe uma ironia institucional difícil de ignorar. O ministro André Mendonça, que hoje relata o caso Master no Supremo e levantou o sigilo das informações expondo o colega Alexandre de Moraes, também apareceu no material relacionado a Vorcaro.
Mendonça admitiu ter recebido o banqueiro uma única vez, em março de 2025, por iniciativa do próprio empresário, e afirmou que se limitou a ouvi-lo. O encontro ocorreu na sede de um instituto ligado ao ministro. Reportagens posteriores revelaram que a instituição recebeu milhões de reais em contratos públicos e que a reunião com Vorcaro não constava da agenda oficial. Mendonça anunciou seu desligamento da entidade após as revelações.
Gonet, Andrei e Nikolas aparecem no caminho
As mensagens reveladas pela PF também mencionam o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues.
Em determinada conversa, Vorcaro pede que “Andrei e Paulo” sejam acionados para tentar evitar ou postergar medidas que poderiam atingir o Banco Master. Não há, até aqui, indicação de que os dois tenham efetivamente atendido aos pedidos feitos pelo banqueiro.
Gonet, por sua vez, reagiu questionando a validade do relatório produzido a partir da investigação e alegando que André Mendonça não teria competência para determinar a apuração envolvendo outro ministro do Supremo.
E o círculo se fecha de uma maneira desconfortável: o investigador, o investigado, o órgão acusador e as autoridades mencionadas passam a aparecer no mesmo universo.
Nesta quinta-feira (03), mais uma pena foi puxada. Áudios atribuídos ao deputado federal Nikolas Ferreira (PL) revelaram uma conversa com Vorcaro na qual o parlamentar pede ajuda para solucionar uma questão envolvendo um ativo minerário relacionado a seu ex-assessor e advogado, Thiago Rodrigues de Faria.
Em outro trecho, Nikolas diz que gostaria de ter mais proximidade com Vorcaro e o trata pelo apelido “Dani” e depois encerra chamando o banqueiro de “lindão”. Nikolas afirma que nunca recebeu dinheiro de Vorcaro e sustenta que apenas tentou intermediar uma demanda.
O banqueiro que transitava entre mundos
Vorcaro aparece relacionado a políticos de diferentes grupos, ministros do Supremo, membros do Ministério Público, integrantes da Polícia Federal, dirigentes de instituições financeiras, empresários e organizadores de eventos jurídicos.
A investigação também já alcançou o próprio sistema financeiro, com operações envolvendo empresas como Trustee e Banvox, liquidadas pelo Banco Central e investigadas por possíveis conexões com operações do Master.
Em outra frente, a Polícia Federal chegou a investigar uma suposta estrutura de comunicação e influência ligada ao banqueiro, com suspeitas de contratação de influenciadores e jornalistas para atacar a credibilidade de instituições públicas e concorrentes.
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Banqueiros, empresários, políticos, ministros, advogados e autoridades públicas naturalmente se encontram. Relações institucionais e pessoais fazem parte da vida democrática.
O problema começa quando a proximidade entre poder econômico e poder público passa a levantar dúvidas sobre acesso privilegiado, interferência, conflito de interesses ou eventual utilização da estrutura estatal em benefício privado.
O caso Vorcaro produz uma pergunta muito maior do que a eventual responsabilidade individual de cada personagem citado: Como um empresário investigado por um dos maiores escândalos financeiros recentes conseguiu construir uma rede de acesso que atravessava tantos compartimentos do Estado brasileiro?
Essa é a pergunta que o Congresso, o Judiciário, o Ministério Público, a Polícia Federal e os órgãos de controle deveriam estar interessados em responder.