Entenda por que PGR quer anular investigação sobre Moraes e Vorcaro
Manifestação do procurador-geral questiona a validade do relatório baseado no celular de Daniel Vorcaro e aponta que a diligência direcionada a Moraes feriu o devido processo legal
A Procuradoria-Geral da República (PGR), por meio do procurador-geral da República, Paulo Gonet, pediu pela anulação da investigação que aponta uma relação entre Alexandre de Moraes, ministro do STF, e Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. O relatório da investigação, que veio a público nesta terça-feira (1º), apontava que o banqueiro buscava ajuda com Moraes para obter informações privilegiadas e tentar influenciar o trabalho da polícia. Paulo Gonet argumenta que a investigação não possui sustentação legal, pois o aprofundamento da apuração só poderia ocorrer após autorização do plenário da Corte.

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Na manifestação encaminhada ao STF, Paulo Gonet afirmou que o relator do caso, ministro André Mendonça, teria promovido uma investigação ilegal contra Alexandre de Moraes ao determinar o aprofundamento das apurações relacionadas ao caso Master, incluindo a análise das conversas entre o ministro e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
A manifestação foi apresentada por meio de petição no processo relatado por Mendonça. Na avaliação de Gonet, a decisão que resultou na elaboração do relatório teria ultrapassado os limites da atuação judicial durante a fase investigativa, levando, na prática, à apuração de informações envolvendo um integrante do próprio STF.
Na avaliação do procurador-geral, uma eventual investigação envolvendo Alexandre de Moraes deveria ser encaminhada ao presidente do STF, Edson Fachin, que teria a responsabilidade de levar o caso ao plenário da Corte. Para Gonet, a apuração não deveria ter sido direcionada diretamente à Polícia Federal.
“A ordem dada à autoridade policial para investigar pessoas específicas, sem pedido do Ministério Público e sem iniciativa da autoridade policial, é nula, por exceder os limites de competência do magistrado na fase pré-processual”, afirmou Gonet.
As referências aos nomes de Alexandre de Moraes e Paulo Gonet foram identificadas pela Polícia Federal durante a análise do celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, investigado na Operação Compliance Zero, que apura suspeitas de fraudes financeiras envolvendo o Banco Master.
O sigilo do relatório da investigação foi retirado nesta terça-feira (1º), por determinação de André Mendonça. Na decisão, o ministro afirmou que as informações reunidas pela Polícia Federal sobre uma suposta rede de influência de Daniel Vorcaro e os contatos mantidos pelo ex-banqueiro com autoridades deveriam ser analisadas pelo plenário do STF. Segundo Mendonça, a avaliação deve ocorrer em sessão presencial e pública da Corte.
No que se apoia a manifestação da PGR?
O procurador-geral considera que houve duas irregularidades: a determinação para que a PF aprofundasse a investigação sobre integrantes de uma suposta rede de influência sem provocação do Ministério Público ou da própria polícia e, posteriormente, a análise direcionada a Moraes.
A manifestação questiona ainda o próprio relatório produzido a partir do celular de Daniel Vorcaro, que reúne mensagens, contatos e outros registros relacionados ao ex-banqueiro. Entre os dados analisados estão comunicações com autoridades e informações sobre contratos entre o Banco Master e o escritório de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro.
Durante a perícia, a Polícia Federal também encontrou comunicações de Daniel Vorcaro com autoridades, entre elas o próprio Paulo Gonet, no material relacionado à suposta rede de influência investigada.
A PF esclareceu, porém, que os dados foram examinados exclusivamente a partir do conteúdo já apreendido e que não houve diligências específicas voltadas a ministros do STF ou integrantes do Ministério Público. O relatório também ressalva que as conclusões são preliminares e podem ser revistas ou ampliadas conforme o andamento das investigações.
Com base nesses argumentos, Gonet pediu a anulação da ordem de investigação e dos resultados obtidos a partir dela, além do encerramento da Petição 16.662. O pedido agora será analisado por André Mendonça, relator do caso.
“Sendo nula a ordem e o seu resultado, cabe ao relator reconhecê-lo e extinguir a Petição”, concluiu o procurador-geral.
O conteúdo das mensagens entre Vorcaro e Moraes
Entre as mensagens recuperadas pela Polícia Federal (PF), há uma conversa em que Vorcaro afirma a um contato atribuído a Moraes que estava “tentando antecipar os investigadores”. O diálogo teria ocorrido em 17 de novembro de 2025.
Os arquivos analisados pela PF também mostram a preocupação do ex-banqueiro com investigações envolvendo o Banco Master, conduzidas pelo Banco Central, pela própria PF e pelo Ministério Público.
Em uma mensagem de 30 de outubro de 2025, Vorcaro afirma que “G e os diretores estão na pressão máxima”. Em seguida, solicita uma atuação junto ao diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e ao então procurador-geral da República, Paulo Gonet.
Segundo o relatório da PF, Vorcaro escreveu: “É importante reforçar com Andrei e Paulo pra não deixar ninguém de baixo fazer uma sacanagem”.
Segundo os investigadores, o número atribuído a Andrei Rodrigues não aparece na lista de contatos de Vorcaro. O nome do diretor-geral da PF, no entanto, foi mencionado em uma conversa entre o ex-banqueiro e o ex-deputado Fábio Faria, realizada em abril de 2024.
Outras mensagens indicam que o ex-banqueiro buscava informações sobre possíveis medidas contra o Banco Master e questionava se haveria maneiras de impedir ou atrasar eventuais ações das autoridades.
Entre os registros periciados estão mensagens como: “Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?”, “E o Galípolo quem está pressionando isso pra fazer intervenção?”, “Mas pedido deferido por parte deles? Algo que dê para bloquear?” e “E com Andrei dá pra segurar?”.
Em outro trecho recuperado pela perícia, Vorcaro também afirma ser grato à vida de Moraes. “Estamos juntos sempre. Você sabe que tenho gratidão da minha vida a você. Toda minha família, funcionários, parceiros, amigos que dependem de nós têm uma dívida de vida contigo e com sua família. Muito obrigado por tudo.”
A perícia também encontrou mensagens trocadas entre os dois em 17 de novembro de 2025, horas antes da primeira prisão de Vorcaro no âmbito das investigações sobre o Banco Master. Naquele dia, o empresário foi detido no Aeroporto Internacional de Guarulhos, pouco antes de embarcar em um avião particular com destino ao exterior.
Nas conversas, Vorcaro afirma que jornalistas investigavam operações envolvendo o Banco Regional de Brasília (BRB). Segundo a PF, o então banqueiro relatou ter feito “uma correria aqui pra tentar salvar” a situação e avaliou que a movimentação poderia “inibir” o avanço das apurações. Em outro momento do diálogo, Vorcaro questiona se deveria permanecer fora do Brasil na segunda-feira seguinte.
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