“Sonho virou pesadelo”, diz uma das irmãs uberabenses vítimas de tráfico humano
Duas irmãs de Uberaba estão entre 23 brasileiros vítimas de tráfico humano e aguardam ajuda para deixar Madagascar
Duas irmãs de Uberaba foram vítimas de tráfico humano e estão presas em Madagascar, aguardando ajuda para voltar ao Brasil junto com outras 21 vítimas brasileiras. As irmãs foram atraídas para o exterior com a promessa de emprego e uma nova vida, mas acabaram sendo presas em um complexo, com outras vítimas, utilizado para dar golpes financeiros ao redor do mundo. As brasileiras chegaram a ser presas pela polícia local, mas denunciam o envolvimento das autoridades com o esquema criminoso. “Colocamos todos os nossos sonhos nas malas e viemos”, relatou uma das uberabenses à TV Paranaíba.
— Depoimento da mãe das uberabenses à TV Paranaíba
“Desde janeiro deste ano, a minha vida financeira deu uma travada. Sendo mãe eu já não sabia o que fazer para sustentar a minha família. Em março desse ano, veio uma proposta de trabalho no exterior. Como a proposta veio de uma pessoa conhecida, eu e minha irmã não tivemos medo e, em abril, embarcamos sentido à Tailândia, em busca de uma vida melhor”, relatou uma das uberabenses à TV Paranaíba.
A mulher relata que, ao chegar na Tailândia, ela e a irmã (24), descobriram que estavam sendo levadas ao Camboja. Ao chegar no país do sudeste asiático, a mineira relata ter se dado conta de que se tratava de tráfico humano, e não a promessa de trabalho. “Ao nos deparar com aquela situação vimos o nosso sonho se transformar num pesadelo, começamos a fazer o que a máfia chinesa queria. Quando nos recusamos a fazer, éramos punidas com agressões e falta de alimentação e água”.
Após uma operação policial no Camboja, a mineira relata que o grupo foi transferido para Madagascar, local que, segundo os relatos, os criminosos têm mais liberdade em fazer o que fazem. Depois disso, elas contam que três pessoas que conseguiram fugir do esquema fizeram denúncias, que resultaram em uma operação policial onde elas estavam sendo encarceradas.
“O local foi invadido por policiais, que não queriam nos ajudar. Fomos presas para ser atendidas pela máfia, novamente. Ficamos 5 dias presos em um lugar horrível e comendo comida estragada. Quando a polícia conseguiu negociar com a máfia e, no momento em que estávamos sendo trocadas, todos os brasileiros conseguiram fugir e fomos para um aeroporto. Ficamos 4 dias no aeroporto sem ajuda da embaixada e do Itamaraty. Sem ajuda do governo brasileiro”, contou.
Todos os 23 brasileiros se esconderam em Madagascar, esperando por ajuda. Seis deles já compraram passagem, mas muitos não possuem condições financeiras para voltar, como as uberabenses. “Nossos familiares estão correndo atrás de vaquinhas on-line para nos levar de volta, porém está extremamente difícil conseguir os valores. Alguns brasileiros já conseguiram comprar as passagens, mas outros não conseguem”.
A vaquinha para ajudar as uberabenses a voltarem para casa é esta aqui.
Tráfico Humano para a aplicação de golpes
De acordo com Cintia Meireles, representante no Brasil da The Exodus Road, hoje existem vários complexos de golpes espalhados pelo mundo. “São prédios onde podem comportar até seis mil pessoas, que residem e trabalham aplicando todos os tipos de golpes que existem. Golpes do amor, golpes do investimento, golpes da falsa Delegacia de Polícia Federal, etc”.
“Quando esses brasileiros são levados para trabalhar, recebem uma proposta que inclui uma passagem aérea, moradia, trabalho, tudo incluído. E quando eles chegam lá, eles se deparam com uma situação onde são retirados os seus passaportes. E eles têm que praticar golpes cibernéticos durante essas jornadas de trabalho”, concluiu.
Segundo a especialista, no caso deste grupo de brasileiros, acabaram trabalhando por servidão por dívida e ameaças pela máfia chinesa, sendo reféns obrigados a praticar crimes cibernéticos.
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Resposta do Governo Brasileiro sobre as uberabenses em Madagascar
Questionado a respeito de quais medidas estão sendo tomadas, o Governo Federal, via Itamaraty, respondeu que foi informado da existência deste grupo no dia 21 de agosto. Em nota, informou que “desde o primeiro momento, a embaixada brasileira em Maputo está prestando a assistência consular devida aos nacionais, com quem está em contato”.
Em paralelo a isso, o Itamaraty afirma estar “em contato com as autoridades locais, com o objetivo de esclarecer a situação pessoal e processual dos brasileiros e assegurar o cumprimento e o respeito aos direitos brasileiros”.
O Governo afirma que uma missão da embaixada em Maputo será enviada a Madagascar para a prestação de assistência in loco aos brasileiros que ainda estão presos. Além disso, reforçou o alerta contra este tipo de golpe, que acontece a partir de ofertas de trabalho no exterior.
Em nota, o órgão também informou que a repatriação constitui medida de caráter excepcional, “não configurando direito adquirido”. Sua concessão está condicionada ao cumprimento de uma série de critérios e requisitos”. Algo que, segundo eles, “tais medidas visam a preservar a capacidade do Estado Brasileiro de custear as diversas demandas de natureza consular dos mais de 5 milhões de brasileiros residentes no exterior”.
Já o Governo de Minas Gerais, por meio da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social (Sedese) e da Secretaria-Geral do Estado de Minas Gerais, informou estar ciente do caso em Madagascar e “busca articulação junto aos órgãos competentes, como o Ministério das Relações Exteriores, estando à disposição para contribuir, dentro de suas limitações legais, com o apoio necessário aos mineiros envolvidos, especialmente na articulação da rede de proteção e no apoio técnico aos municípios de origem dos cidadãos, de acordo com as necessidades identificadas”.
A TV Paranaíba entrou em contato com o Governo e Ministério de Relações Exteriores de Madagascar, e não obteve resposta tanto a respeito do auxílio prestado para os brasileiros, quanto para as acusações de corrupção da polícia local. Também foi pedido um posicionamento da Polícia Federal, mas não obteve respostas.
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