Após caso em Uberlândia que inspirou projeto de lei contra bets, saiba onde buscar ajuda

Projeto busca restringir publicidade de bets; do outro lado, famílias e apostadores que enfrentam o vício contam com redes de apoio e canais de saúde gratuitos

, em Uberlândia

A dependência em jogos de azar, clinicamente chamada de ludopatia, tem feito milhares de vítimas em silêncio. Segundo o Ministério da Saúde, entre janeiro de 2018 e maio de 2025, houve um aumento de 104% no número de atendimentos pelo SUS, relacionados ao vício em jogos e apostas.

Muito mais do que estatísticas, o problema tem se agravado e atingido diversas famílias como a da professora Vânia Borges, que perdeu o filho Rafael Borges, de 22 anos, para o vício em apostas virtuais.

O caso de Uberlândia inspirou a criação de um Projeto de Lei que tramita no Congresso Nacional. A proposta tenta endurecer as regras contra a publicidade predatória de plataformas de jogos e responsabilizar influenciadores digitais que as promovem.

No entanto, enquanto a iniciativa segue o rito normal nas esferas políticas, do outro lado, o problema da vida real só aumenta e pessoas que precisam de ajuda agora correm contra o tempo. “Com relação ao meu filho, nada do que eu faça vai trazê-lo de volta. Mas eu penso nas outras pessoas. Esse não é um problema que está acontecendo só na minha casa”, destaca Vânia em conversa como o Paranaíba Mais.

Rafael Borges, jovem que inpira a criação de uma lei contra bets, ao lado da mãe e irmãs
Rafael Borges, jovem que inspira a criação de uma lei contra bets, ao lado da mãe e irmãs – Crédito: Arquivo pessoal/Reprodução

📲 Siga o canal de notícias do Paranaíba Mais no WhatsApp

Como e onde buscar ajuda?

Vânia Borges faz questão de destacar o vício em apostas como um problema que não é individual. “É um problema de saúde pública. Só quem enfrenta o vício, ou fica perto de alguém que está passando por ele, é capaz de ter uma ideia de como é o problema”, explica.

Atualmente, não existe nenhuma lei no país que proíba totalmente as apostas no Brasil. Na verdade, a atividade é legalizada e regulamentada, desde que haja autorização do Ministério da Fazenda para as empresas operarem.

Enquanto isso, atendimentos no Sistema Único de Saúde (SUS), em grupos de apoio mútuo e ferramentas de bloqueio digital tentam criar uma rede de proteção, oferecendo caminhos gratuitos para quem precisa de ajuda imediata.

Veja as principais alternativas de acolhimento e tratamento disponíveis:

1. Teleatendimento do SUS (Nacional): O Ministério da Saúde disponibiliza suporte psicológico online gratuito. Basta baixar o aplicativo Meu SUS Digital (disponível para Android e iOS), fazer o login com a conta gov.br e responder ao “Autoteste do Jogo”. Caso o sistema identifique critérios de risco ou dependência, o encaminhamento para teleconsultas com psicólogos e psiquiatras por vídeo é feito de forma automática.

Desde o lançamento da iniciativa, em março deste ano, foram registrados mais de 19,9 mil cadastros para teleatendimento em todo o país.

2. Rede Municipal de Saúde (CAPS em Uberlândia): Os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) oferecem tratamento especializado em saúde mental de forma totalmente gratuita e sem necessidade de encaminhamento prévio (demanda espontânea):

  • CAPS AD (Álcool, Drogas e Telas): Rua Cleópatra, 190 – Bairro Luizote de Freitas.
  • CAPS Central-Norte: Rua Bernardo Guimarães, 354 – Bairro Martins.
  • CAPS Oeste/Sul: Avenida Seme Simão, 1010 – Bairro Saraiva.

3. Jogadores Anônimos (em Uberlândia): Grupo de apoio mútuo focado na recuperação de jogadores compulsivos, que funciona de forma semelhante ao formato dos Alcoólicos Anônimos (AA).

  • Reuniões locais: Rua Geraldo Garcia de Almeida, 160 – Bairro São Jorge (nas dependências da Igreja Evangélica Luterana).
  • Horário: Todas as terças-feiras, às 19h30.

4. Plataforma de Autoexclusão (Ministério da Fazenda): Desenvolvida pela Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA-MF), a ferramenta permite que qualquer cidadão bloqueie voluntariamente o seu próprio CPF de todas as casas de apostas regularizadas do país por um período mínimo de um mês. O cadastro federal já conta com mais de 570 mil CPFs bloqueados.

5. Apoio Emocional (CVV): Para momentos de crise aguda, desespero ou pensamentos de autoextermínio, o Centro de Valorização da Vida (CVV) atende sob total sigilo e de forma gratuita. Ligue 188 (disponível 24h) ou acesse o chat em cvv.org.br.

A história de Rafael Borges, que inspirou lei contra bets

Para quem via de fora, Rafael Borges era um exemplo de determinação. Aos 22 anos, o jovem morava com a mãe em Uberlândia, acordava muito cedo todos os dias e trabalhava em um lava-jato de veículos. Descrito pela mãe como muito organizado com suas finanças pessoais, ele costumava juntar dinheiro e planejava abrir um negócio próprio.

rafael borges
Rafael é descrito pela mãe como um jovem trabalhador e querido por todos ao seu redor – Crédito: Arquivo pessoal/Reprodução

A mudança silenciosa começou em agosto de 2023. A mãe de Rafael passou a notar que, mesmo após a exaustiva rotina de trabalho físico diário, o filho passava as noites inteiras em claro no celular ou na frente do computador. Ao ser questionado, o jovem desconversava ou tentava tranquilizar a família dizendo que “estava ganhando muito dinheiro” com jogos na internet.

“Só que eu nunca vi ele sacar nenhum valor”, relata a mãe. “Ele falava que ganhava, mas não sacava. Acho que ele acabava jogando tudo aquilo que já tinha ganhado. E o dinheiro que ele juntava, ele parou, não comprou mais nada”.

A partir dali, Vânia percebeu que Rafael passou por uma mudança de comportamento. O dinheiro acumulado desapareceu, Rafael deixou de comprar roupas e calçados, isolou-se dos amigos de infância e começou a apresentar episódios de agressividade. O desespero para recuperar o dinheiro perdido o levou a vender seus bens de uso pessoal e sua própria motocicleta.

MAIS! Governo barra apostas em bets para 2,8 mi de beneficiários do Bolsa Família e BPC; entenda a medida

Busca por justiça

Vânia conta que durante um tempo, Rafael teria parado de jogar, apór perder o celular. Foram cerca de dois meses sem o aparelho. No entanto, após comprar um novo telefone e restabelecer o acesso às redes sociais, ele foi novamente bombardeado por propagandas agressivas e vídeos de influenciadores digitais simulando lucros irreais.

Na madrugada de 23 de janeiro de 2024, minutos antes de tirar a própria vida, Rafael enviou um áudio a um amigo desabafando sobre o que estava passando. “Ele falava que não estava tendo mais dinheiro para sair e se sentia constrangido com isso. Que tudo o que ele ganhava, ele jogava. Ele falou para o amigo que tinha vontade de deixar o vício, mas que não estava conseguindo”, relata Vânia.

A dor da perda fez com que Vânia buscasse por mais respostas do que teria feito a vida do filho virar de cabeça para baixo em questão de 5 meses. Olhando os acessos de Rafael, ela localizou históricos de e-mails repletos de propagandas de plataformas de apostas, reuniu comprovantes de transferências bancárias e gravou em um CD o áudio do desabafo do filho.

Munida dessas provas, ela acionou a Polícia Civil e o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), cobrando investigações contra as empresas e os influenciadores por instigação ao suicídio.

Apesar de seus esforços, a Justiça determinou o arquivamento do caso por considerar que se tratou de um ato voluntário de autoextermínio, sem indícios penais de induzimento direto. “Eles sabem o produto que estão vendendo. Muitos simulam ganhos fáceis que são uma verdadeira farsa. É uma droga. E por isso eu comparo esses influenciadores a traficantes”, destaca.

Hoje, ela apoia a aprovação da “Lei Rafael” na esperança de que o nome de seu filho ajude a proteger outros jovens e famílias que convivem com o mesmo problema.