“O pastel vai fechar?”: comunidade da Ponte Quinca Mariano vive drama com obra

Comerciantes e moradores afirmam que apoiam a reforma da Ponte Quinca Mariano, mas dizem que foram pegos de surpresa e temem perder a principal fonte de renda

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Desde 1995, a Oficina do Pastel, também conhecida como o “pastel da Ponte Quinca Mariano”, comércio que sustenta 12 pessoas, é um ponto tradicional para quem viaja entre Minas Gerais e Goiás. Há 32 anos, Lucélia Lima (55) e toda sua família moram ao lado da ponte, na parte de Minas Gerais, e trabalham do outro lado do rio, em Corumbaíba (GO). Noventa dias atrás, Jair Guimarães (53) investiu mais de R$ 40 mil na construção de um restaurante, que ainda não foi inaugurado, na comunidade batizada com o nome da construção. No último mês, um anúncio transformou a vida de todos que moram naquele lugar: a reforma e interdição total da estrutura que liga as duas margens do rio Paranaíba. 

Comércio da Ponte Quina Mariano
Comunidade da Ponte Quina Mariano, em Corumbaíba (GO) – Crédito: Ulisses Fernandes/Portal Paranaíba Mais

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Nesta quarta-feira (15), começou a interdição parcial da Ponte Quinca Mariano, que liga a rodovia mineira MG-413 à goiana GO-139, entre os municípios de Araguari (MG) e Corumbaíba (GO). O fechamento total da via deve iniciar no dia 1° de agosto, após adiamento da Agência Goiana de Infraestrutura e Transportes (Goinfra) em razão do período de férias. 

A notícia preocupa motoristas e viajantes, mas o impacto vai muito além do ir e vir. Ao lado da construção, existe a Comunidade da Ponte Quinca Mariano, composta majoritariamente por propriedades rurais e cerca de 10 comércios que dependem exclusivamente do trânsito local. 

Os comerciantes são claros: não são contra a reforma da estrutura, que está precária. Contudo, questionam a falta de transparência no processo que impactou diretamente suas vidas e a ausência de uma ajuda concreta do Poder Público. Todos estão na espera de contar, pelo menos, com uma balsa. Até lá, não sabem o que fazer. 

“Arrumar ela, tem que arrumar. Porque meu carro, às vezes, tá até desmontando de tanta trepidação, de tanto buraco nessa ponte. Mas, isso aí, o que é que eles fazem? Uma coisa tudo em cima da hora, sem planejamento nenhum. Não se preocuparam com as vidas que aqui vivem”, disse Lucélia ao Portal Paranaíba Mais. 

Além do Pastel da Ponte: o impacto na comunidade da Ponte Quinca Mariano

Desde 1995, Keny Gondim, de 53 anos, administra com o irmão a famosa “Oficina do Pastel”, localizada ao lado da Ponte, em Goiás, e que marca a trajetória de muitos viajantes, atendendo uma média de 700 clientes ao dia e cerca de 2.000 em época de temporada. O estabelecimento é o sustento de duas famílias, em um total de 9 pessoas, e o local de trabalho de 12 pessoas. 

pastel da Ponte Quinca Mariano
Oficina do Pastel, conhecida como “pastel da Ponte Quinca Mariano”, marca a viagem de mineiros desde 1995 – Crédito: Ulisses Fernandes/Paranaíba Mais

Entre eles, um casal que acabou de financiar uma casa. “Agora deve ter uns três meses que eles estão morando na casa. O financiamento que eles fizeram, agora que eles começaram a pagar”, disse Keny. Segundo o comerciante, apenas o anúncio já influenciou o movimento local. 

“E a gente tá sem saber o que vai fazer. Está dando pouco movimento, diminuiu bastante por causa do anúncio. Muita gente já está dando a volta. Mesmo com as férias em Minas, um momento que costuma movimentar bastante, não há movimento.  E aí a gente tá assim, sem saber o que faz”, contou Keny.

Keny reconhece que a ponte precisa ser reformada, mas questiona a falta de amparo por parte do Poder Público. “Ninguém veio aqui procurar saber como está nossa situação. Ninguém tá dando suporte pra gente aqui, pros comerciantes. Ninguém avisou nada, não veio o pessoal da Goinfra avisar como iria funcionar. Pegaram a gente de surpresa, todo mundo de surpresa”, lamenta. 

A mesma “surpresa” descrita por Keny também foi sentida por Jair Guimarães, que passou os últimos três meses reformando um imóvel para abrir um restaurante na comunidade, em um investimento que ultrapassa R$ 40 mil. O empreendedor, que é de Araguari e mudou para o local há 5 anos, já teve outros comércios e diz que investiu tudo que tem em um novo negócio. 

“Eu tinha um bar, era pra cima do Pastel. Fechamos e viemos pro restaurante. Agora eu tô num ‘mundo aí’ que não tem jeito de voltar atrás. Vou ter que ficar até quando der, ver se consigo fazer um acordo com o dono do imóvel, pra ver se dá um fôlego pra mim. Sem movimento, não vai dar pra pagar as despesas. Eu investi tudo aqui, o que nós temos está aqui”.

A reportagem entrou em contato com a Goinfra, para esclarecer a maneira com que a comunicação com a comunidade foi conduzida. Até o momento, não obteve resposta.

Comércios da comunidade da Ponte Quinca Mariano – Vídeo: Ulisses Fernandes

Ambos os comerciantes afirmam que, se o tráfego parar totalmente, não haverá como sustentar o comércio. Eles apontam que o movimento por parte dos trabalhadores da obra não será suficiente para manter o sustento, nem mesmo se somar com o consumo dos moradores locais. A esperança é depositada numa eventual balsa que garanta um tráfego reduzido, mas suficiente para “segurar as pontas” até o final da reforma. 

Esta esperança, forçada pela situação, não se restringe ao comércio. Lucélia Lima vive, há 32 anos, em uma casa com 12 pessoas, na margem mineira do Rio Paranaíba. Sua tia e sua prima, que moram na mesma casa, possuem um restaurante/padaria no outro lado do rio, que abre às 5 horas da manhã. Ela, seu marido e o filho trabalham na limpeza de rua em Corumbaíba. Sem a ponte, a mulher de 53 anos não sabe como vai trabalhar. 

“A gente não tem nem clareza de como vai fazer para atravessar. Não teve anúncio de nada, nem como vai começar, nem como vai terminar. É muito sem informação nenhuma. O nosso ganha-pão vai ser prejudicado. E eu não sei nem como é que vai fazer o meu marido para ir trabalhar. Dar essa volta que eles indicam, outro trajeto, é algo pra turista. Pra quem mora aqui na ponte, é inviável”, declarou. 

Assim como os comerciantes, ela declarou: “a gente espera pelo menos, quem sabe, uma balsa pra passar os carros pequenos”.  Há 15 dias do fechamento total da ponte, moradores e comerciantes da comunidade têm sequer um plano. Todos estão na espera de alguma atitude do Poder Público. 

“O povoado vai ficar isolado. Até dia 1o, eu ainda vou continuar aberto. Mas, a partir do momento que falar que vão interditar toda a ponte, não vão colocar balsa, aí eu vou ter que fechar, sabe? Não vai ter como”, lamentou Keny. 

E a balsa?

Nesta quarta-feira (15), em entrevista à TV Paranaíba, o prefeito de Corumbaíba, Wisner Araújo (MDB), reconheceu a importância de uma balsa para a comunidade, e disse que levaria a questão ao governo estadual. “Nós sabemos da importância desse assunto da instalação dessa balsa no Rio Paranaíba, para a travessia de Minas para Goiás e vice-versa”. 

“A reforma é necessária e lutamos por ela, mas também não podemos assistir de camarote e ficar quietos à interdição total dessa ponte, que prejudicaria muito, não só o comércio de Corumbaíba, o comércio da própria Ponte Quinca Mariano. E estamos correndo atrás e solicitamos, já há mais ou menos 15 dias, o estudo para a viabilidade da instalação de uma balsa, pelo menos para amenizar o tráfego aí, que seria paralisado totalmente”, declarou. 

O prefeito afirmou que o pedido é justamente pensando no comércio dessa região. “Nós sabemos que os comerciantes, os empresários ali da Ponte Quinca Mariano, das margens da rodovia (GO-139), eles vivem praticamente das pessoas, dos turistas que passam por ali. Eu já recebi um representante dos comerciantes de Corumbaíba também, porque a GO-139 ela corta Corumbaíba, né, e numa extensão até grande, 2 km, 2,5 km. Nós sabemos que o fechamento total poderá causar um grande impacto para esses comerciantes”. 

Nesta quarta-feira (15),  o prefeito de Corumbaíba afirmou ter levado a demanda pessoalmente para o governador. “Mas ainda não temos uma posição concreta”, disse.

“O poder público está se esforçando ao máximo para amenizar essa situação”, completou.

A reportagem questionou o Governo de Goiás e a Goinfra a respeito da balsa, mas ainda não obteve resposta.