Novo tarifaço entra em fase decisiva e CNI alerta para impacto bilionário
Primeira audiência nos EUA começa nesta segunda-feira e projeção da CNI indica que eventual nova taxação pode atingir US$ 14,9 bilhões em exportações brasileiras.
A possibilidade de aplicação de um novo tarifaço dos Estados Unidos (EUA) contra produtos brasileiros entra em uma etapa decisiva nesta segunda-feira (6), quando começam, em Washington, as audiências públicas promovidas pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR). Ao mesmo tempo em que empresas e entidades apresentarão argumentos sobre a proposta de sobretaxa de 25%, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) alerta que, caso as novas medidas avancem, cerca de 4.187 produtos brasileiros poderão ser afetados, alcançando US$ 14,9 bilhões em exportações.

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As sessões devem se estender até terça-feira (7) e reúnem pelo menos 40 empresas e organizações brasileiras e norte-americanas. Cada participante terá até cinco minutos para defender sua posição antes de responder a eventuais questionamentos dos representantes do USTR.
Entre as entidades brasileiras inscritas para participar estão a Confederação Nacional da Indústria (CNI), a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), o Conselho dos Exportadores de Café (Cecafé), a União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica), além da Embraer. O senador Flávio Bolsonaro também aparece entre os inscritos.
O governo brasileiro optou por não fazer pronunciamentos durante as audiências sobre o novo tarifaço. Segundo o Ministério das Relações Exteriores, representantes da embaixada em Washington acompanharão as discussões apenas como observadores. A avaliação é que as negociações mais relevantes continuam ocorrendo por meio das conversas técnicas e diplomáticas entre os dois países.
A investigação conduzida pelos Estados Unidos foi aberta com base na Seção 301 da legislação comercial norte-americana e analisa temas como:
- Comércio digital;
- Serviços de pagamento eletrônico;
- Tarifas preferenciais;
- Combate à corrupção;
- Propriedade intelectual;
- Acesso ao mercado de etanol;
- Desmatamento ilegal.
O governo brasileiro já contestou formalmente os argumentos apresentados pelo USTR. Em manifestação enviada às autoridades norte-americanas, o Itamaraty afirma que as práticas comerciais brasileiras não causam prejuízos aos Estados Unidos e sustenta que não há fundamento legal suficiente para justificar medidas unilaterais.
Novo tarifaço pode elevar sobretaxa para 37,5%
Enquanto as audiências acontecem, a CNI calcula os possíveis efeitos das propostas em discussão. Atualmente, milhares de produtos brasileiros já estão sujeitos a uma tarifa adicional temporária de 10%.
Além da proposta de sobretaxa de 25% direcionada ao Brasil, existe outra investigação relacionada ao trabalho forçado, que pode resultar em uma cobrança adicional de 12,5%. Caso ambas sejam aprovadas, a taxação acumulada poderá chegar a 37,5%.
Segundo a entidade, aproximadamente 4.187 produtos brasileiros seriam atingidos, representando US$ 14,9 bilhões em exportações. Desse total, 62% correspondem a bens intermediários utilizados como insumos pela indústria norte-americana.
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Brasil lidera fornecimento de diversos produtos aos EUA
O levantamento da CNI também mostra que o Brasil ocupa posição estratégica no fornecimento de diversos produtos ao mercado norte-americano. Entre os itens que poderão enfrentar sobretaxas de até 37,5%, o país é o principal fornecedor dos Estados Unidos em vários segmentos.
Conforme o infográfico divulgado pela entidade, destacam-se:
- Ferro gusa não ligado, com participação brasileira de 73,3%;
- Açúcar de cana bruto em forma sólida, com 52,9%;
- Sebo não comestível, com 37,5%;
- Álcool etílico não desnaturado, com 72,3%;
- Molduras de madeira padrão de pinho, com 59,4%;
- Tabaco curado por fumaça ou processado, com 72%;
- Peptonas e seus derivados, com 33,1%;
- Compensado de pinus, com expressivos 99,6%;
- Granito monumental ou de construção, com 48,9%;
- Estacas, paliças, postes e trilhos de madeira, com 57,8%;
- Hidróxido de alumínio, com 47,5%.
Para a CNI, a adoção de um novo tarifaço não afetaria apenas as empresas brasileiras. A entidade avalia que o aumento dos custos também teria impacto sobre consumidores, fabricantes e cadeias produtivas dos próprios Estados Unidos, devido à forte integração comercial entre os dois países.
Negociações continuam antes da decisão final
Enquanto as audiências públicas sobre o novo tarifaço avançam, Brasil e Estados Unidos mantêm negociações técnicas para tentar reduzir as divergências antes da decisão definitiva, prevista para 15 de julho.
Na última quinta-feira (2), representantes dos dois governos confirmaram uma nova rodada de reuniões técnicas e sinalizaram a realização de outro encontro ministerial antes do prazo final. Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, o diálogo foi considerado construtivo, embora ainda existam pontos que dependem de negociação para evitar a adoção das novas medidas comerciais.
Sem citar nomes, o ministro Márcio Elias Rosa criticou a atuação de brasileiros que, segundo ele, transferem divergências políticas para negociações comerciais internacionais. Na avaliação do ministro, essa postura prejudica o debate e compromete discussões que deveriam permanecer no campo econômico.
“Eles contaminam o debate político ou inserem, em uma negociação comercial, uma disputa política que não deveria existir”, afirmou.
Márcio Elias Rosa também defendeu que o Brasil mantenha o diálogo nas negociações em andamento e reafirmou o compromisso do governo federal com o multilateralismo. Segundo ele, abandonar a mesa de negociações técnicas significaria adotar a mesma lógica daqueles que defendem ações unilaterais.
“Se o Brasil deixar a mesa técnica de negociação, estará cometendo o mesmo equívoco daqueles que patrocinam o unilateralismo”, declarou.