Retrato de Flávia Reis, jornalista especializada em Gestão Estratégica de Marketing Digital e Gerenciamento de Projetos.

Flávia Reis

Toda semana, a jornalista Flávia Reis traz um olhar direto sobre temas que a maioria só comenta entre amigas: carreira, dinheiro, relacionamentos, saúde, segurança e tudo o que pesa de verdade na vida das mulheres 30+

Puxar a capivara do crush não é neurose, é autoproteção

O hábito informal de dar um "google" no nome do boy que está saindo evoluiu, e o mercado de segurança pessoal feminina mudou as regras do jogo

, em Uberlândia

Google News

Pesquisar antes de um encontro deixou de ser exagero e virou hábito comum entre quem volta a namorar. Não é difícil entender por quê. É praticamente impossível abrir o feed de notícias e não esbarrar num caso de violência contra a mulher. Feminicídio, agressão física, agressão psicológica, violência patrimonial, e isso sem contar quem só descobriu tarde demais que estava com alguém tóxico. As matérias sobre isso são diárias.

O Brasil registrou 1.568 feminicídios em 2025, o maior número da série histórica, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Diante disso, pesquisar o nome de alguém antes de um encontro deixou de ser exagero e virou hábito comum entre quem “está na pista”.

Contar isso pra alguém há alguns anos provavelmente renderia um “você está sendo paranoica”. Hoje, cada vez menos.

Flávia Reis olhando tela do celular
Cada vez mais mulheres pesquisam antes de aceitar um encontro, e ferramentas como Jusbrasil e Plinq entraram nesse hábito – Crédito: Ana Valente

Por que pesquisar antes de um encontro não é exagero

Não é difícil entender por que tem sido tão importante adotar comportamentos que possam reduzir os riscos de se envolver com pessoas “problemáticas” e até criminosos. A violência contra a mulher não é exceção, é rotina, e pesquisar antes não nasce de desconfiança gratuita. Nasce de um risco real que as notícias confirmam todo dia.

Eu, inclusive, já pesquisei mais de um pretendente no Jusbrasil antes de aceitar um segundo encontro. Comecei a fazer isso depois de uns encontros com uns tipos que eu chamaria de “curva de rio” (mas essa é uma história para outra coluna).

As ferramentas que existem para isso

Não é a primeira vez que a coluna passa por esse assunto: já falei aqui sobre golpe digital, e o raciocínio por trás é o mesmo, informação é proteção. O Jusbrasil já era conhecido nesse uso informal, mas hoje existe todo um mercado nascendo especificamente para isso. O Plinq organiza dados públicos de tribunais e já passa de 63 mil pessoas cadastradas, gerando um relatório de risco simples de ler. Eu mesma já usei as duas ferramentas depois de sair com alguém que eu ainda não conhecia direito.

Tem opções parecidas surgindo Brasil afora. O Checking, criado em Goiânia depois que uma amiga do fundador passou por um trauma, separa o que é processo já confirmado do que é apenas denúncia em andamento. E quem prefere um caminho mais tradicional pode usar o Escavador, outro agregador de processos judiciais, como alternativa ao Jusbrasil.

Vale reforçar um ponto importante! Consultar esse tipo de informação não é crime nem invasão de privacidade. Processo judicial não sigiloso é dado público e existe para ser consultado. A certidão de antecedentes da Polícia Federal cumpre a mesma função de graça para quem preferir o caminho oficial. Vale lembrar que processos em segredo de justiça, comuns em crimes contra a dignidade sexual, não aparecem detalhados nessas buscas, então nem tudo vai aparecer.

Leia Mais!

Diferente é rastrear localização em tempo real, entrar em conversas privadas ou vasculhar a vida de alguém sem motivo algum. Uma coisa é cuidado, outra é vigilância. E vale um alerta: nem toda ferramenta pensada para isso merece confiança cega. Nos Estados Unidos, o aplicativo Tea viralizou com essa mesma proposta de segurança entre mulheres e, pouco depois, vazou fotos e mensagens privadas de milhares de usuárias. Antes de entregar seus dados a qualquer plataforma nova, vale checar se ela é séria.

E se for sair com alguém que você mal conhece…

Não existe fórmula que blinde ninguém por completo, mas dá para reduzir o risco com passos. Pedir o nome completo antes de um encontro, mesmo que pareça estranho no início da conversa, já é um deles.

Contar para uma amiga onde vai estar, com quem e até que horas é outro. Preferir lugares públicos nos primeiros encontros, antes de convidar alguém para casa, ajuda bastante.

Vale também olhar as redes sociais com atenção: perfil muito novo, poucos amigos em comum de verdade ou fotos sem nenhum histórico são sinais de alerta. E se alguma foto parecer boa demais pra ser verdade, uma busca reversa de imagem no Google resolve rápido se ela foi roubada de outra pessoa.

Sempre que possível, vale fazer essa consulta simples de antecedentes antes de avançar de verdade. Nem sempre vai aparecer alguma coisa, mas quando aparece, muda tudo.

Você já pesquisou alguém antes de um encontro? Conta no Instagram do @paranaibamais.

Precisa de ajuda ou quer denunciar? Em casos de violência contra a mulher ou emergência, ligue para a Central de Atendimento à Mulher (180) ou Polícia Militar (190). O atendimento é gratuito e funciona 24 horas.