Retrato de Flávia Reis, jornalista especializada em Gestão Estratégica de Marketing Digital e Gerenciamento de Projetos.

Flávia Reis

Toda semana, a jornalista Flávia Reis traz um olhar direto sobre temas que a maioria só comenta entre amigas: carreira, dinheiro, relacionamentos, saúde, segurança e tudo o que pesa de verdade na vida das mulheres 30+

Especialista em Gestão Estratégica de Marketing Digital e Gerenciamento de Projetos. Com mais de 16 anos de experiência, é Gerente de Conteúdo Digital no Grupo Paranaíba

Luto pós-separação é real, mesmo quando a decisão foi sua

Quando a perda não tem caixão, a sociedade manda seguir em frente. Mas entender o luto desautorizado é o primeiro passo para parar de pedir desculpas pela própria dor

, em Uberlândia

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A morte de um pet, um aborto espontâneo, a demissão daquele emprego que definia sua identidade ou o fim de uma amizade de décadas. E, com enorme frequência, o término de um relacionamento, especialmente quando a decisão foi sua. Todas essas dores carregam algo em comum: parecem não receber permissão social para existir. E o luto pós-separação talvez seja a mais frequente, e a menos aceita, de todas.

Na psicologia, esse fenômeno é chamado de luto desautorizado (ou luto não reconhecido). O termo foi descrito em 1989 pelo psicólogo americano Kenneth Doka para explicar a perda que não é abertamente reconhecida, socialmente validada nem publicamente chorada. 

“Pelo menos ninguém morreu.”

Essa frase deveria ser banida do vocabulário de quem tenta consolar alguém em processo de separação.

Porque quando um relacionamento termina, mesmo quando foi você quem tomou a decisão, mesmo quando era a única atitude correta a ser tomada, algo morre.

Morrem os projetos construídos a dois. Morrem versões de você que só existiam dentro daquela dinâmica. Morre a família que você planejou. O domingo tranquilo que você imaginava aos 60 anos e a velhice desenhada ao lado de alguém se transformam em fumaça.

E para esse tipo de morte não existe velório, atestado ou licença formal. A CLT, por exemplo, dá dois dias de folga pela morte de um cônjuge. Pelo fim de um casamento, nenhum.

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O prazo de validade que os outros impõem

Sem caixão ou ritual, a mensagem implícita que você recebe do mundo é “siga em frente”.

Existe até um prazo de validade invisível, imposto pelos outros, de três meses. Seis, se as pessoas ao seu redor forem muito generosas. Passado esse período, a empatia dá lugar à cobrança: “Você ainda está nisso?”

Como se a dor fosse teimosia ou falta de força de vontade.

Flávia Reis, colunista do Paranaíba Mais, em texto sobre luto pós separação
Não existe velório, atestado ou licença para o fim de um casamento. O luto pós-separação existe mesmo assim – Crédito: Giovanna Ramos

O luto pós-separação não é só sobre a pessoa

O que poucos contam sobre o luto pós-separação, seja depois de um divórcio ou do fim de um relacionamento sem papel passado, é que ele raramente é apenas sobre a pessoa que foi embora, ou de quem você se despediu. Ele está muito mais ligado a tudo o que existia ao redor dela: a rotina compartilhada e os hábitos a dois; o “a gente” que virava sujeito de quase todas as suas frases; e aquela versão sua que só nascia ali, com suas qualidades e sombras, e que agora não tem mais onde habitar.

Uma vida inteira planejada no futuro do indicativo vira, da noite para o dia, um verbo no futuro do pretérito. Vamos, faremos, teremos. Iríamos, faríamos, teríamos.

Isso é perda. Tem peso, tem nome e precisa ser vivida.

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Parar de pedir desculpas pela dor

A virada de chave que precisei fazer não foi tentar acelerar o processo, tampouco me convencer de que estava bem antes de realmente estar. Foi um movimento menor, porém muito mais difícil, o de parar de pedir desculpas pela minha dor. E, muitas vezes, parar de pedir desculpas a mim mesma.

Entender que sentir o luto não significa que tomei a decisão errada. Significa apenas que o que eu vivi foi real. Que investi afeto de verdade e que aquilo importou.

A gente não chora pelo que não teve valor.

Se você está atravessando uma separação agora, se saiu de uma recentemente ou se já se passaram anos e ainda sente um peso que julga não dever mais sentir, grave isto: o luto pós-separação não tem prazo de validade impresso.

Ela leva o tempo que precisa levar. E não precisa do aval de ninguém para ser legítima. Você não precisa estar bem antes de estar bem.

Na próxima semana, vou abordar outra perda silenciosa que o fim de um relacionamento cobra e que raramente ganha espaço para ser chorada. Um spoiler: ela tem pelos e quatro patas.

Salva esse texto. Pode ser que você precise dele algum dia, ou que já precise agora.

Flávia Reis é jornalista, gerente de conteúdo digital do Grupo Paranaíba e fundadora da Holis Comunicação. Escreve toda semana sobre carreira, relações, saúde, dinheiro e identidade.