O golpe digital que quase me pegou foi sobre dinheiro, mas existem muitos outros tipos
Fui atrás de entender melhor, e descobri que pra mulher, o golpe digital muda de forma como golpe afetivo, vaga falsa de emprego, chantagem com fotos íntimas e mais
Há algumas semanas, quase caí num golpe digital. Meu celular vibrou com uma notícia que eu esperava há anos. Ganhei uma ação de cobrança. O juiz tinha dado causa ganha, o dinheiro seria depositado pra mim, e vinha até um documento anexado, com carimbo, QR Code, assinatura, tudo parecendo oficial. E o número de WhatsApp mostrava a foto da minha advogada.
Respondi. Perguntei os próximos passos. A pessoa do outro lado foi rápida, gentil, explicou tudo com uma naturalidade que não deixava espaço para dúvida. Pediram meus dados bancários para fazer o depósito. Eu já estava com o aplicativo do banco aberto quando vi a última mensagem: “fica perto do telefone, um promotor vai te ligar daqui a pouco pra confirmar uns dados”.
Então parei.
Alguma coisa não fechava, mas eu ainda não sabia dizer o quê. Voltei pra cima na conversa, reli tudo. Foi aí que vi num ponto qualquer, a pessoa tinha soltado um “kkkkkkkk”. Bobo, pequeno, quase imperceptível. Mas não combinava com os e-mails e mensagens formais que eu recebia da minha advogada. E então veio o segundo estalo, mais frio que o primeiro: promotor não liga pra ninguém pedindo “confirmação”. Isso eu sabia.
Liguei pro número real dela. Mandei e-mail. A resposta veio rápido: era golpe, e a advogada já estava avisando toda a rede de clientes sobre o esquema circulando.
Fiquei parada segurando o celular por um tempo depois disso. Não porque eu quase caí. Porque percebi o quanto eu tinha chegado perto, e sem nenhuma inteligência artificial envolvida. Só uma foto roubada, um número novo e alguém do outro lado disposto a esperar o tempo que fosse necessário. E se bastou isso pra quase funcionar, fico pensando no que ainda está por vir, quando a voz do outro lado da linha também for falsa.

Golpe de impersonação, o mais comum de todos
Fui atrás de saber se o que aconteceu comigo é incomum, ou se é só a ponta do iceberg de um problema bem maior.
“O que mais tem chegado para nós no escritório são casos envolvendo conta bancária digital aberta sem o conhecimento do cliente; e golpes, como o do falso advogado, da falsa central e do whatsapp clonado”, conta Maria Carolina Cremasco de Paiva (OAB/MG 139.999), advogada sócia do CPPT Advogados e presidente da Comissão de Privacidade e Proteção de Dados da OAB/Uberlândia.
Golpe do falso advogado. Era exatamente esse golpe digital que tentaram me aplicar.
Quando o alvo é a mulher, o golpe digital muda de forma
Nem todo golpe contra mulher é sobre dinheiro em primeiro lugar, mas boa parte é, e costuma vir disfarçada de afeto ou de oportunidade. O golpe afetivo é um deles: o criminoso constrói confiança durante semanas, às vezes meses, antes de pedir dinheiro, presentes ou ajuda numa suposta emergência. Vagas falsas de emprego remoto miram diretamente quem busca renda extra ou flexibilidade de horário, um perfil que segue sendo majoritariamente feminino. E lojas virtuais falsas, divulgadas em anúncios patrocinados no Instagram e no WhatsApp, se aproveitam da confiança que a própria plataforma parece emprestar ao anúncio.
A outra frente, perseguição, controle e chantagem
Essa é a outra frente da violência digital contra mulheres: perseguição, controle e chantagem. “A violência contra as mulheres é uma realidade e não seria diferente no mundo digital… o uso de tecnologias digitais hoje potencializa a ocorrência e disseminação das diversas formas de violência contra a mulher”, explica Maria Carolina.
Os números do DataSenado atestam essa fala. Na pesquisa de 2025, com mais de 21 mil brasileiras ouvidas, 10% relataram ter sofrido algum tipo de violência digital no último ano, entre mensagens ameaçadoras recorrentes, invasão de contas e perfis falsos criados em seu nome. Em números absolutos, a estimativa passa de 8,8 milhões de mulheres brasileiras atingidas em doze meses.
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Outro golpe que chama atenção é chantagem com fotos ou vídeos íntimos. Em maio deste ano foi publicado o Decreto nº 12.976, trazendo diretrizes para a proteção de mulheres na internet e obrigações para as plataformas diante de conteúdos que configurem crimes contra as mulheres no ambiente digital.
O que a lei já protege, e o que ainda não
Golpes ou deepfakes com vídeo, áudio ou imagem manipulados por inteligência artificial para parecer reais, não são novidade, eles só ganharam alcance maior com a internet. “A legislação nem sempre consegue acompanhar essas mudanças em tempo real”, pondera Maria Carolina.
O estelionato já é crime previsto no Código Penal há décadas, e o Código Civil garante proteção à privacidade e ao direito de imagem. Em 2018 veio a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), tentando dar algum controle sobre como os dados circulam.
Mais recente ainda, a Lei nº 15.123/2025 alterou o artigo 147-B do Código Penal para prever que a pena por violência psicológica contra a mulher aumenta pela metade quando o crime usa inteligência artificial ou qualquer recurso que altere imagem ou som da vítima.
O que falta, segundo a advogada Maria Carolina, é maior: “O que ainda não temos é uma lei geral para a inteligência artificial… não temos uma lei brasileira regulando o uso e os limites da IA, como já acontece na Europa.”

Se você for vítima de um golpe digital
Documentar tudo vem antes de qualquer reação por impulso: print da tela, arquivo salvo, data e hora, boletim de ocorrência. Além de denunciar pelo canal da própria plataforma onde o conteúdo circulou. Só depois procurar um advogado para avaliar o caso e indicar o próximo passo. Em situações de violência contra mulher no ambiente digital, o Ligue 180 também está disponível, o mesmo canal que já mencionei quando escrevi sobre controle coercitivo.
Antes que qualquer golpe digital chegue até você, algumas travas simples ajudam bastante: ativar a autenticação em dois fatores, de preferência por aplicativo autenticador em vez de SMS, usar senhas diferentes para e-mail, banco, redes sociais e WhatsApp, e desconfiar sempre que alguém tentar apressar uma decisão financeira, seja um Pix, um pedido de dados ou uma “confirmação” urgente. Vale conferir o destinatário de qualquer Pix antes de confirmar, e pesquisar CNPJ, endereço e reputação de qualquer loja nova antes de comprar.
O erro mais comum, segundo Maria Carolina, é tentar resolver tudo sozinha, de forma impulsiva. “Na hora que acontece, o medo costuma dominar a pessoa, ela age por impulso e acaba esquecendo de tomar providências importantes”, como notificar a plataforma antes de guardar as provas. Depois que o conteúdo sai do ar, fica mais difícil provar o que aconteceu.
“Todos nós estamos sujeitos a este tipo de golpe. Os golpistas agem de forma massiva e a corda normalmente se rompe do lado mais frágil”, resume Maria Carolina.
A recomendação dela é direta: manter as configurações de privacidade no máximo, cuidado com a exposição nas redes, e evitar compartilhar dados pessoais sem necessidade, principalmente com inteligência artificial.
Eu não caí porque parei a tempo de reler a conversa. Da próxima vez, talvez nem essa brecha exista.
Você já quase caiu num golpe parecido, ou conhece alguém que caiu? Às vezes um alerta simples é o que falta pra alguém não cair. Comenta no Instagram do @paranaibamais e vamos trocar experiências!
* Flávia Reis é jornalista, gerente de conteúdo digital do Grupo Paranaíba e fundadora da Holis Comunicação. Escreve toda semana sobre carreira, relações, saúde, dinheiro e identidade.