Retrato de Flávia Reis, jornalista especializada em Gestão Estratégica de Marketing Digital e Gerenciamento de Projetos.

Flávia Reis

Toda semana, a jornalista Flávia Reis traz um olhar direto sobre temas que a maioria só comenta entre amigas: carreira, dinheiro, relacionamentos, saúde, segurança e tudo o que pesa de verdade na vida das mulheres 30+

Você quer mudar de carreira ou só está exausta? 3 perguntas para descobrir antes de chutar o balde

A vontade de largar tudo aparece nos dois casos, e o que a separa é o que sobra depois de uma boa noite de sono

, em Uberlândia

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Mudar de carreira e estar exausta dão a mesma sensação numa segunda-feira de manhã. O corpo pesa, o e-mail novo irrita, e a ideia de recomeçar do zero em outra área passa a parecer a única saída sensata.

E se você é brasileira como eu, pode ainda estar enfrentando um estresse maior devido ao período de eleição presidencial, com o noticiário, os grupos de mensagem e as conversas de família ocupando a cabeça.

Flávia Reis com as mãos na cabeça, cansada, em dúvida entre mudar de carreira ou apenas descansar
Antes de largar tudo, vale descobrir se é vontade de mudar ou só exaustão – Crédito: Ana Valente

A vontade de largar tudo tem dois donos

Essa vontade de largar tudo pode chegar vestida igual em dois casos. Quando é cansaço, some depois de um feriado prolongado, de uma semana mais leve, de uma conversa difícil que finalmente aconteceu. Ou quando é desalinhamento, volta. Volta depois das férias, volta no domingo à noite, volta até num dia em que o trabalho correu bem.

O problema é que, no meio do esgotamento, as duas coisas se misturam. E uma decisão tomada no pior momento da semana costuma responder à semana, não à carreira.

Não escrevo isso para desestimular ninguém. Tem muita gente que precisa mesmo mudar e descobre tarde. Mas tem também quem peça demissão de um trabalho de que gostava, só porque ninguém disse que o que faltava era descanso e menos volume. Três perguntas ajudam a separar uma situação da outra, e a única exigência é responder com honestidade.

A Organização Mundial da Saúde descreve o Burnout como uma síndrome ligada ao estresse crônico no trabalho que não foi bem administrado, com três marcas: esgotamento de energia, distanciamento mental ou cinismo em relação ao trabalho e queda da eficácia profissional. Só a primeira é cansaço. As outras duas falam da relação com o trabalho. Isso não é diagnóstico, e só um profissional de saúde pode avaliar.

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1) Se você descansasse de verdade, o incômodo continuaria?

Imagine duas semanas inteiras de descanso, daquelas sem celular de trabalho, sem culpa, sem lista. Agora imagine a volta. Se a primeira coisa que aparece é alívio e uma vontade razoável de retomar, o que você tinha era exaustão. Se aparece um aperto antes mesmo de abrir o computador, o cansaço talvez seja só a parte visível de outra coisa.

Pense em duas mulheres que, na mesma segunda-feira, juram que vão pedir demissão. A primeira passou a semana anterior fechando um projeto atrasado. Depois de um fim de semana de verdade, a vontade de largar tudo já está menor na terça. A segunda voltou de dez dias de férias, descansada, e mesmo assim sentiu o nó no estômago no domingo à noite. A primeira estava cansada. A segunda talvez esteja desalinhada.

Vale ser justa na resposta, porque tendemos a responder o que gostaria que fosse verdade. Ajuda lembrar da última vez em que você voltou de uma folga de verdade e do que sentiu no primeiro dia, antes de a rotina engolir tudo de novo.

2) O que pesa é a quantidade ou a natureza do que você faz?

Tem trabalho que cansa porque é demais, a sobrecarga que quase ninguém enxerga. Reunião em excesso, equipe enxuta, demanda que nunca fecha. Isso pode se resolver com limite, delegação, uma conversa franca sobre prioridade, às vezes uma troca de empresa na mesma profissão.

E tem trabalho que cansa porque já não faz sentido para você, mesmo em dia calmo. Se você faria com gosto metade do volume, o problema é a carga. Se faria com má vontade até uma carga pequena, o problema é o conteúdo.

Considere uma gerente com dez reuniões por dia que faria o mesmo trabalho com gosto se tivesse metade delas. O problema dela é a carga. Agora considere uma advogada que há anos faz o mesmo tipo de peça e já não se interessa por nenhuma, nem nos dias tranquilos. O problema dela é o conteúdo.

A diferença importa porque um caso pede ajuste de rotina e o outro pede mudança de rota.

3) Ao imaginar mudar de carreira, você sente curiosidade ou só alívio?

Esta é a pergunta mais reveladora. Pense na alternativa que você anda ensaiando, seja em outra área, um negócio próprio, um cargo diferente, e repare no que acontece na hora.

Curiosidade vem com perguntas junto. Como alguém começa nisso, quem faz isso bem, o que eu precisaria aprender. Alívio vem com fuga junto, qualquer coisa menos isso.

Quem sente curiosidade costuma agir sem perceber. Procura um curso, assiste a um vídeo de quem já fez a transição, chama uma conhecida para um café. Quem sente só alívio passa a noite imaginando não abrir mais e-mail nenhum.

Quem sente só alívio está se afastando de algo, e não indo em direção a algo, e nenhum plano novo resolve isso sozinho. Se a imagem do outro caminho te dá vontade de pesquisar, é um sinal a levar a sério. Se te dá só vontade de deitar, pode ser o cansaço falando.

Nenhuma resposta fecha a questão

Essas perguntas não entregam um veredito, entregam uma direção. Dá para responder duas de um jeito e uma de outro, e esse resultado misto também diz alguma coisa. Muitas vezes significa que existe um desalinhamento pequeno escondido sob uma exaustão grande, e a ordem certa é cuidar da exaustão primeiro para enxergar o resto. Em vez de tentar acertar o resultado, observe qual das três respostas veio mais rápido, porque a resposta imediata costuma ser a mais sincera.

Decidir com a cabeça descansada não é adiar a vida. É garantir que a decisão seja sua, e não do fim de um trimestre difícil.

E uma pergunta para fechar

Se você tivesse uma semana inteira só sua, o que continuaria te incomodando quando ela acabasse? Conta nos comentários do Instagram do @paranaibamais, ou manda este texto para aquela amiga que anda dizendo que vai largar tudo.

* Flávia Reis é jornalista, gerente de conteúdo digital do Grupo Paranaíba e fundadora da Holis Comunicação. Escreve toda semana sobre carreira, relações, saúde, dinheiro e identidade.