Quando parar de procurar? A regra dos 37% vale para namoro, emprego e qualquer escolha difícil
Do Tinder à troca de emprego, saiba como uma fórmula do século 20 ajuda a decidir sem ficar preso na dúvida
Existe uma regra matemática, a regra dos 37%, para quem já ficou horas decidindo se continua solteira, se dá mais uma chance pro boy ou girl, ou se é hora de terminar de vez. Curiosamente, um dos exemplos mais famosos de alguém que usou essa lógica, antes mesmo de ela existir, foi um astrônomo alemão tentando escolher uma esposa.
A ideia desse artigo me veio quando vi circular um vídeo da economista Olivia Carneiro, que você vê logo abaixo.
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Johannes Kepler foi o astrônomo que descobriu como os planetas se movem ao redor do Sol. Ele ficou viúvo em 1611. Logo em seguida, amigos e parentes começaram a apresentar candidatas para um novo casamento. Ao todo, Kepler conheceu 11 mulheres ao longo de cerca de dois anos, sem conseguir tomar uma decisão. Chegou a se interessar bastante pela quarta candidata, mas seguiu conhecendo outras, achando que talvez houvesse alguém melhor adiante. No fim das contas, voltou atrás e escolheu a quinta, Susanna Reuttinger, em outubro de 1613. Tiveram seis filhos e, segundo biógrafos, viveram uma união muito mais feliz do que a primeira.
Quase 350 anos depois, a matemática deu nome ao dilema de Kepler. O dilema ficou conhecido como “problema da secretária” ou “problema do casamento”, e foi popularizado em uma coluna da revista Scientific American em 1960. Era um clássico da chamada teoria da parada ótima, o estudo dedicado a entender exatamente quando devemos parar de procurar e decidir.
Em 1989, o estatístico Thomas Ferguson notou uma coincidência. Com 11 candidatas, a estratégia ideal seria observar as quatro primeiras sem se comprometer e, a partir da quinta, escolher a primeira pessoa que fosse melhor do que todas as anteriores. E Kepler cravou justamente a quinta! Quatro em onze é quase a proporção exata da regra dos 37%. A resposta para “quando parar de procurar” era mais lógica do que parecia.

Como funciona a regra dos 37%?
Pense no número aproximado de opções que você provavelmente vai conhecer em determinada fase da vida, seja um namorado, um apartamento ou um candidato a uma vaga de emprego. Separe os primeiros 37% desse grupo (algo em torno de 4 em cada 10 opções).
Não escolha ninguém nessa fase inicial. Use esse tempo apenas para explorar o terreno, entender os seus padrões e clarear o que você realmente deseja. Passado esse período de amostragem, escolha a primeira opção que se provar superior a todas as anteriores. Não fique esperando a pessoa “perfeita”, pois ela pode nunca aparecer e o risco é passar a vida procurando, como Kepler fez durante dois anos.
A regra dos 37% não garante um tiro certeiro, mas oferece cerca de 37% de probabilidade de acertar na melhor escolha possível, é o teto do que a matemática consegue assegurar nesse tipo de cenário. Trata-se de uma bússola, não de uma sentença.
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Um jeito prático de pensar nisso
Imagine que você decidiu voltar aos aplicativos de namoro. Em vez de se apegar ao primeiro match empolgante ou viver insatisfeita comparando pretendentes, a regra propõe outra abordagem. Passe um pouco mais do que o primeiro terço da sua janela de busca apenas observando, sem criar compromisso. Assim que surgir alguém melhor do que tudo o que passou por ali até então, é o momento de parar de procurar e dar uma chance de verdade. E, quando o match virar encontro, vale pesquisar antes de sair com alguém novo.
Essa lógica funciona para qualquer situação em que as opções surgem em sequência e não há como voltar atrás após um “não”. A matemática não elimina as incertezas, mas tira das nossas costas o peso de achar que precisamos conhecer o mundo inteiro antes de tomar uma atitude.
Onde a regra dos 37% não alcança
Na prática, a vida real impõe limites que as equações ignoram. A regra dos 37% parte do pressuposto de que sabemos quantas opções teremos e que quem foi descartado jamais voltará. Mas no mundo real a gente reencontra pessoas, muda de ideia ou descobre novos caminhos pelo meio do trajeto. Por isso, a fórmula vale mais como uma provocação do que como um cálculo rígido.
É evidente que o amor não se rende a fórmulas prontas. Há intuição, timing e imprevistos que nenhum algoritmo prevê. Porém, vale guardar essa lição para a próxima vez que você se pegar no looping mental do “será que existe alguém melhor?”. Talvez a pergunta mais útil não seja essa, mas sim: “o que eu já aprendi sobre o que quero a partir de quem já passou por aqui?”.
Kepler demorou cerca de dois anos para escolher. Você não precisa demorar tanto assim. Já parou para pensar em quantas “candidatas” (ou candidatos, ou opções) você já testou antes de tomar sua próxima grande decisão?
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* Flávia Reis é jornalista, gerente de conteúdo digital do Grupo Paranaíba e fundadora da Holis Comunicação. Escreve toda semana sobre carreira, relações, saúde, dinheiro e identidade.