A carreira que fez sentido antes não precisa fazer sentido para sempre
Você não fracassou em nada. Só é possível que a carreira que fez sentido lá atrás já não seja a que faz sentido agora, e tudo bem
Saiu essa semana uma pesquisa da Robert Half dizendo que quase metade dos brasileiros pretende trocar de emprego até o fim do ano. Aí vem a parte que me chamou a atenção: dinheiro nem aparece no topo dos motivos. As pessoas estão pedindo menos peso, mais equilíbrio, um recomeço profissional que caiba dentro de uma vida inteira e não o contrário.
Fico pensando em quantas vão ouvir que estão sendo ingratas, ou impacientes, ou que “está tudo tão difícil e você aí querendo trocar de emprego”. Como se a vontade de mudar precisasse de justificativa.
Recomeçar não é apagar o passado nem fingir que a caminhada até aqui não existiu. Já vivi mais recomeços profissionais do que consigo contar numa mão só, e se aprendi algo nessa trajetória, é que dar certo uma vez não blinda ninguém de precisar recomeçar depois.
O manual que prometia demais
Outro dia vi viralizar um post prometendo o “manual de 11 passos para reconstruir a vida do zero”, sugerindo prazo fixo, planilha atualizada aos domingos e aprender uma nova habilidade em até 90 dias. Pra mim o problema não são os conselhos, é a promessa de receita mágica.
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A minha reconstrução, por exemplo, teve bem menos planilhas e muito mais tempo investido, erros, tentativas e uma porção de coisas que só fizeram sentido depois de prontas. E não foi só comigo.
Quando a hoje growth manager Lays Azevedo decidiu migrar da área de vendas para o mercado de tecnologia, também não havia mapa prévio. O movimento veio acompanhado de inseguranças e do desafio de ser mãe solo durante a transição.
“Em vários momentos achei que não daria certo. Quando você migra, vem aquela oscilação, num dia você aprende muito, no outro parece que dá tudo errado. O que me fez continuar foi a vontade de aprender e a clareza de onde eu queria chegar”, relata Lays.

Recomeçar não precisa de crise
Toda vez que eu contava que estava mudando de rota, alguém perguntava o que tinha dado errado. Quase ninguém perguntava o que eu queria. É como se a dor fosse o único gatilho legítimo para a mudança.
Na psicologia, o desejo constante de mudar costuma sinalizar incongruência entre o que vivemos e o que valorizamos, e não um defeito a ser corrigido. Recomecei porque queria mais, ou queria diferente. E isso, por si só, é motivo suficiente.
O jogo não é igual para todo mundo
Às vezes, recomeçar é mais difícil quando o ecossistema é desigual. Mulheres relatam sistematicamente mais discriminação por idade no mercado de trabalho. Para completar, dados do IBGE indicam que a taxa de desemprego feminino (6,4%) supera a masculina (4,6%). Não é sensação, é dado.
Nem a área de tecnologia, vendida como ambiente meritocrático e moderno, escapa dessa dinâmica. Metade das mulheres que entra no setor desiste antes dos 35 anos. Lays sentiu esse peso ao enfrentar o viés de autoridade de um mercado técnico e jovem. A virada veio quando percebeu que sua bagagem de 12 anos em vendas não era atraso, mas seu grande diferencial para dialogar com programadores e gerar resultados. É recomeço profissional no seu formato mais puro.
E também não existe um único destino certo pro recomeço profissional
A fotógrafa Jisa Dantas recomeçou de um jeito diferente do de Lays, sem trocar uma carreira pela outra. Escolheu Geografia ainda jovem, numa época de pouca liberdade de escolha, e encontrou um mercado difícil para quem se formava na área. Os concursos públicos vieram como resposta às necessidades concretas de salário e estabilidade.
Foi nas horas vagas, dentro dessa estabilidade, que a fotografia entrou. Uma câmera emprestada, muito estudo sozinha e, depois, um curso profissionalizante mudaram sua trajetória.
“A Geografia me ensinou a olhar o mundo em suas paisagens, territórios e relações. A fotografia me ensinou que nenhum olhar é neutro”, diz Jisa.
Hoje ela concilia o cargo público com a fotografia profissional. Nenhuma das duas coisas anula a outra. Foi um jeito de recomeçar que não abandona o que sustenta para abrir espaço pro que também importa.

Nenhuma bagagem se perde
O caminho de Lays, e o da Jisa, não seguiu manual pronto, assim como o meu também não. Passei um tempo mergulhada em comunidades de tecnologia dando mentoria para outras mulheres e tocando minha própria empresa. Foi essa vivência que me permitiu voltar ao jornalismo numa função de gestão que nem existia quando me formei.
Não existe forma única ou manual perfeito para o recomeço profissional. A única certeza após tantas transições é que nenhum aprendizado se perde pelo caminho e a bagagem acumulada só espera a próxima curva para ser usada de um jeito novo.
E você, já sentiu que a carreira que escolheu lá atrás precisa de um novo rumo, ou já passou por uma transição do seu jeito? Deixe seu relato nos comentários no Instagram do @paranaibamais e compartilhe com quem também busca coragem pro próximo passo! 🙂