ELEIÇÕES 2026 Segundo Turno Confira os resultados da apuração VEJA OS RESULTADOS DA APURAÇÃO
Retrato de Flávia Reis, jornalista especializada em Gestão Estratégica de Marketing Digital e Gerenciamento de Projetos.

Flávia Reis

Toda semana, a jornalista Flávia Reis traz um olhar direto sobre temas que a maioria só comenta entre amigas: carreira, dinheiro, relacionamentos, saúde, segurança e tudo o que pesa de verdade na vida das mulheres 30+

Amizade tóxica tem sinais parecidos com os do namoro tóxico, mas costuma passar batido

Quando é o namorado, as amigas apontam. Quando é uma amiga de anos, o incômodo vira frescura e a gente se cala

, em Uberlândia

-

Google News

Amizade tóxica quase nunca começa com briga. Começa com um comentário que você releva, um silêncio que você explica para si mesma, uma brincadeira sem graça que você deixa passar. Cada episódio, sozinho, cabe na palavra implicância. O problema é a soma, e é por isso que ela passa tanto tempo sem ser vista.

Os sinais de amizade tóxica lembram os do namoro

O desgaste tem cenas que se reconhecem de longe. A amiga que some quando você conta uma conquista e volta semanas depois, só para desabafar. A que corrige, com um sorriso, a roupa que você escolheu ou as pessoas com quem você sai. A que faz graça com um defeito seu diante dos outros e, se você reclama, diz que você não sabe brincar. A que responde a um limite com semanas de silêncio. E há um sinal que raramente entra nas listas: o estômago que gela quando o nome dela aparece na tela do celular.

Um namoro assim costuma ter plateia. Alguém comenta, alguém pergunta se você está bem, o grupo de amigas lê a situação em voz alta. Com uma amiga de anos, o mesmo quadro ganha outro nome, frescura, ciúme, drama. Uma explicação possível é que terminar um namoro é visto como decisão legítima, enquanto terminar uma amizade ainda soa como deslealdade com uma história comprida. Nenhum estudo que eu tenha lido compara as duas situações lado a lado, então essa comparação é observação minha. Cito um artigo a seguir, para dizer o que se sabe.

Flávia Reis olhando para tela do celular, sentada no sofá da sala
Responder, esperar ou deixar passar. Quem sente o desgaste costuma ensaiar a conversa antes de escrever – Crédito: imagem ilustrativa gerada por IA

Amizade difícil não é amizade tóxica

Nem todo atrito é sinal de alarme, e este é o ponto que mais exige cuidado. Um artigo de 2011 publicado na revista Social and Personality Psychology Compass, de Kathryn Brooks e Christine Dunkel Schetter, lembra que conflito é esperado em relações próximas, porque quanto mais duas pessoas dependem uma da outra, maior o potencial de atrito. O dano, segundo as autoras, tende a aparecer quando as interações negativas são frequentes ou não se resolvem. Uma discussão depois de uma semana ruim é normal. O que pesa é a hostilidade que se repete e nunca é conversada.

Há um tipo de vínculo que confunde mais do que os outros, o que alterna carinho e dor. É a amiga que numa semana é a pessoa mais generosa que você conhece e na seguinte te deixa pequena. O mesmo artigo cita que vínculos com muita positividade e muita negatividade ao mesmo tempo podem ser mais prejudiciais à saúde do que vínculos só negativos, com registro de aumento de pressão arterial em interações com amigos assim, ambivalentes. Contudo, as próprias autoras ressalvam que a evidência ainda precisa ser confirmada.

📲 Siga o canal de notícias do Paranaíba Mais no WhatsApp

A pergunta que separa uma da outra

Não existe teste infalível, e o que escrevo aqui é leitura minha, não critério científico. Mas existe uma pergunta que ajuda: como você se sente depois de encontrar essa pessoa, e isso se repete? Cansaço pontual depois de uma conversa pesada é a vida. Sair sistematicamente menor, mais vigiada, medindo o que conta para não virar assunto, é padrão. E o padrão importa mais do que o episódio.

Outra pista é o que acontece quando você coloca um limite. Numa amizade que está apenas difícil, o limite gera conversa, ajuste e às vezes algum desconforto, mas a relação se recompõe. Numa amizade tóxica, o limite vira ataque, silêncio de castigo ou a acusação de que você mudou.

Leia Mais!

Levar a sério não é romper

Tratar a amizade tóxica com a mesma seriedade do namoro tóxico não significa que a saída seja sempre cortar. Significa admitir que o que você sente é informação, e não frescura. A partir daí existem caminhos, como conversar, criar distância, mudar o lugar que essa pessoa ocupa na sua vida e, quando for necessário, encerrar. O que não faz sentido é sustentar anos de desgaste só porque a história é longa.

Vale ir com calma também por um motivo que os números ajudam a enxergar. No ELSI-Brasil, estudo nacional com brasileiros de 50 anos ou mais, publicado em 2023 nos Cadernos de Saúde Pública com dados coletados em 2015 e 2016, 19,7% das mulheres disseram se sentir sozinhas sempre, contra 9,2% dos homens. O estudo mede solidão, não amizade, e a faixa etária é mais velha do que a da maioria de nós, então não diz nada sobre a sua amiga. Mas lembra o que está em jogo quando uma relação acaba, e essa leitura é minha, não dos autores.

Existe alguma amizade na sua vida que você trataria de outro jeito se ela fosse um namoro? Salve este texto para reler e mande para quem anda se fazendo essa pergunta.

* Flávia Reis é jornalista, gerente de conteúdo digital do Grupo Paranaíba e fundadora da Holis Comunicação. Escreve toda semana sobre carreira, relações, saúde, dinheiro e identidade.