Fugindo da fome, da violência e das guerras: como Uberlândia acolhe refugiados e imigrantes
Entre desafios de adaptação e novas oportunidades, milhares de pessoas que fugiram de crises humanitárias encontraram na cidade mineira a chance de reconstruir a própria história
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Enquanto guerras, crises econômicas e perseguições forçam milhões de pessoas a deixarem seus países, Uberlândia se tornou destino para quem busca uma nova chance de recomeçar. Hoje, cerca de 6 mil imigrantes e refugiados de 123 nacionalidades vivem no município, transformando a cidade em um dos principais polos de acolhimento de migrantes em Minas Gerais.
A comunidade venezuelana é a mais numerosa, seguida por haitianos e pessoas vindas de países como Cuba, Irã, Iraque e Síria.
No Dia Mundial do Refugiado, celebrado neste sábado (20), histórias de superação ajudam a dimensionar uma realidade que muitas vezes permanece invisível: a luta diária de milhares de pessoas para reconstruir a vida longe de casa.
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Fome, perseguição e crise forçam migração
Segundo a coordenadora da ONG Refugiados UDI, Kelly Pereira, grande parte dos migrantes chega ao Brasil fugindo de situações extremas.
“São pessoas que deixaram seus países por causa da fome, da violência, da perseguição política ou de crises econômicas severas. Muitas chegam sem recursos, sem falar português e sem uma rede de apoio”, afirma.
A ONG atua no acolhimento de famílias estrangeiras oferecendo suporte para regularização documental, moradia, inserção no mercado de trabalho, doação de roupas e alimentos, além de aulas de português.
As atividades linguísticas ocorrem aos sábados, no bairro Tibery, com apoio da Cátedra Sérgio Vieira de Mello, da Universidade Federal de Uberlândia (UFU).
UFU criou política para facilitar acesso de refugiados ao Ensino Superior
Pouca gente sabe, mas a UFU possui uma política específica para acolhimento de refugiados, imigrantes em situação de vulnerabilidade, apátridas e beneficiários de visto humanitário. Por meio da Resolução Consun nº 36, a universidade reserva vagas e simplifica processos para ingresso acadêmico, além de facilitar a revalidação de diplomas obtidos no exterior.
A iniciativa integra a Cátedra Sérgio Vieira de Mello (CSVM), programa criado pela Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) e presente em 55 universidades brasileiras.
Coordenadora da Cátedra na UFU, a professora Marriele Maia explica que o objetivo vai além do acesso à educação.
“A gente trabalha promovendo políticas públicas de acolhimento para refugiados e imigrantes internacionais em situação de vulnerabilidade. Temos ações ligadas à documentação, saúde, combate à violência contra a mulher migrante, ensino de português, pesquisas e apoio à integração local”, afirma.

Invisíveis nas estatísticas
Apesar do crescimento da população migrante, ainda não existe um retrato preciso sobre quantos refugiados vivem em Uberlândia.
Segundo Marriele Maia, uma das dificuldades está na própria metodologia dos registros oficiais. Muitos refugiados solicitam documentação em aeroportos, portos ou regiões de fronteira e depois se mudam para outras cidades. Com isso, acabam não aparecendo nas estatísticas locais.
“Hoje trabalhamos com estimativas. Isso mostra a necessidade de políticas públicas específicas para conhecer melhor quem são essas pessoas e quais são suas necessidades”, explica.
Dados do Sistema de Registro Nacional Migratório (Sismigra), da Polícia Federal, apontam que Uberlândia registrou 809 novos imigrantes internacionais em 2025, contra 637 em 2024.
No acumulado histórico, estima-se que Uberlândia abriga cerca de 6.000 mil refugiados de 123 diferentes etnias. Os maiores grupos registrados são os venezuelanos, com 1.620 registros, e os haitianos, com 1.356.
A ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados) informou em seu Relatório de Tendências Globais que, das 117,8 milhões de pessoas em deslocamento forçado no mundo, 70% vivem em exílio por anos e muitas se encontram abaixo da linha da pobreza; Brasil registrou 11% de aumento em pedidos de asilo. Segundo a agência, o país recebeu cerca de 2 milhões de migrantes, dentre os quais mais de 156 mil são formalmente reconhecidos como refugiados.
Refugiado e imigrante não são a mesma coisa
Embora os termos sejam frequentemente usados como sinônimos, refugiados e imigrantes possuem situações jurídicas e humanitárias diferentes.
O refugiado é uma pessoa que foi forçada a deixar seu país porque sua vida, liberdade ou segurança estão ameaçadas. Isso pode ocorrer por perseguições políticas, religiosas ou étnicas, conflitos armados, violência generalizada ou graves violações de direitos humanos. Nesses casos, a proteção internacional é garantida por acordos internacionais e pela legislação brasileira, que impedem o retorno da pessoa ao local onde corre risco.
Já o imigrante é quem decide se mudar para outro país de forma voluntária, geralmente em busca de trabalho, estudo, melhores condições de vida ou reunificação familiar. Diferentemente do refugiado, ele não deixou seu país por uma ameaça direta à sua sobrevivência e pode retornar quando desejar.
Na prática, ambos enfrentam desafios semelhantes durante o processo de integração, como acesso à moradia, emprego, educação e serviços públicos. Por isso, organizações de acolhimento e pesquisadores defendem políticas específicas para garantir direitos e facilitar a inclusão dessas populações nas cidades que os recebem.
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Quando o acolhimento esbarra na falta de preparo
Especialistas alertam que o maior desafio não é apenas receber migrantes e refugiados, mas garantir sua integração efetiva à sociedade.
Pesquisas desenvolvidas na Universidade Federal de Uberlândia (UFU) mostram que a população migrante ainda enfrenta obstáculos no acesso a direitos básicos, como educação, saúde e serviços públicos.
Um dos estudos, conduzido por Luara Dias dos Santos, analisou a inserção de crianças indígenas venezuelanas da etnia Warao na rede pública de ensino de Uberlândia. A pesquisa, intitulada “O acolhimento local de crianças indígenas refugiadas no Brasil: um estudo de caso sobre a inserção de indígenas Warao no sistema de educação básica da cidade de Uberlândia-MG”, aponta desafios relacionados às diferenças culturais, à adaptação escolar e à falta de preparo das instituições para atender estudantes indígenas em contexto de refúgio.
Outro trabalho, produzido por Joana D’arc Moreira, investigou a realidade de mulheres refugiadas e migrantes beneficiárias de visto humanitário. No estudo “O acolhimento local de mulheres refugiadas e imigrantes internacionais beneficiárias de visto de acolhimento humanitário na cidade de Uberlândia-MG: um estudo de caso sobre o acesso a serviços públicos”, a autora identificou dificuldades de acesso a políticas públicas e vulnerabilidades agravadas por questões de gênero.
Já a pesquisadora Catarine dos Santos West analisou o papel das universidades públicas na inclusão dessa população. Em “A importância das políticas afirmativas para o ingresso de refugiados nas universidades públicas: mapeamento das normativas de ingresso nas instituições de ensino superior”, o estudo destaca como ações afirmativas e programas de permanência podem reduzir barreiras enfrentadas por refugiados no acesso ao ensino superior.
Segundo a coordenadora da Cátedra Sérgio Vieira de Mello da UFU, Marriele Maia, muitas violações de direitos não acontecem por discriminação deliberada, mas pela falta de preparo dos serviços públicos para lidar com uma população cada vez mais diversa.
“Às vezes a escola não sabe como acolher uma criança indígena migrante. Em outros casos, profissionais da saúde enfrentam dificuldades para atender mulheres que não falam português ou possuem referências culturais diferentes. O desconhecimento acaba gerando barreiras e violações de direitos”, afirma.
Projeto para criar política municipal não avançou
Em 2023, foi protocolado na Câmara Municipal o Projeto de Lei nº 1.858, que previa a criação da Política Municipal para a População Migrante, Refugiada, Apátrida e Retornada. A proposta buscava ampliar o acesso aos serviços públicos, combater a xenofobia, fortalecer ações de integração e especializar o atendimento para pessoas em situação de vulnerabilidade.
Apesar da mobilização de organizações sociais, pesquisadores e representantes da comunidade migrante, o projeto não foi aprovado.

A história de quem recomeçou do zero
A trajetória do venezuelano Josué Zurita ajuda a entender os desafios enfrentados por quem deixa tudo para trás.
Antes de chegar ao Brasil, ele morou durante quase oito anos no Peru, onde recebeu um diagnóstico devastador: câncer em estágio avançado. “Os médicos disseram que eu tinha apenas um mês de vida. Minha família chegou a procurar uma urna para mim”, relembra.
Josué sobreviveu, mas ao retornar para a Venezuela encontrou um cenário ainda mais difícil. “O alimento distribuído pelo governo chegava estragado. Meus filhos ficaram doentes. Eu ganhava 50 dólares por semana e um frango custava 15 dólares. Cheguei a dizer para minha esposa que, se ficássemos ali, morreríamos de fome”, disse.
Com apenas 200 dólares no bolso, decidiu migrar para o Brasil. Passou por Curitiba antes de chegar a Uberlândia, onde encontrou trabalho na construção civil. “A coisa mais difícil foi passar dois meses dormindo no chão. Mas depois comecei a trabalhar e consegui reconstruir minha vida. Hoje consigo cuidar da minha família.”

Acolher é mais do que abrir as portas
Mais do que oferecer abrigo, especialistas defendem que o desafio está em garantir acesso à educação, saúde, emprego e direitos básicos.
Para a Cátedra Sérgio Vieira de Mello, o fortalecimento de políticas públicas locais é fundamental para que migrantes e refugiados deixem de ser invisíveis e consigam reconstruir suas trajetórias com dignidade.
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