Refugiados venezuelanos em Uberlândia relatam esperança após prisão de Maduro

Comunidade acompanha os desdobramentos do conflito internacional enquanto enfrenta desafios de integração no Brasil

, em Uberlândia

-

Entre o sonho de voltar para casa e o receio de novos confrontos, a comunidade venezuelana em Uberlândia reage com forte carga emocional aos recentes ataques militares e à prisão do presidente Nicolás Maduro. Para os refugiados assistidos por ONGs locais, os acontecimentos representam não apenas um fato político, mas a possibilidade de encerrar um ciclo de fome e insegurança que transformou o Triângulo Mineiro em sua nova e provisória morada.

Refugiados venezuelanos em Uberlândia
Refugiada em Uberlândia, Helen Bernardo fala sobre fé e expectativa de retorno à Venezuela – Crédito: TV Paranaíba/Divulgação

📲 Siga o canal de notícias do Paranaíba Mais no WhatsApp

De acordo com a geógrafa Karen Guedes Albino, doutora em Geografia pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e integrante do Taare (Trabalho de Acolhimento e Apoio a Refugiados e Migrantes), os venezuelanos formam atualmente o maior grupo de refugiados em Uberlândia. São mais de mil venezuelanos residindo na cidade.

“A maioria chega em situação muito precária e precisa de assistência em praticamente tudo, trabalho, moradia, idioma e apoio emocional. O Taare atua nesses encaminhamentos e também na defesa dos direitos trabalhistas”, explicou.

Segundo ela, apesar da disposição para trabalhar, a barreira do idioma dificulta a integração social e profissional. “Sem falar português, essas pessoas acabam andando em círculos, com dificuldade de inserção na cidade”, afirmou.

Outro desafio enfrentado pelos refugiados é o acesso à moradia formal. A exigência de fiador para aluguel de imóveis dificulta a estabilidade habitacional, especialmente para quem atua no mercado informal. Há relatos, segundo organizações que atuam no acolhimento, de exploração trabalhista envolvendo migrantes em situação de vulnerabilidade.

Alívio marca reação de venezuelanos em Uberlândia

Os recentes ataques militares lançados pelos Estados Unidos contra a Venezuela e o anúncio da captura do presidente Nicolás Maduro intensificaram a atenção da comunidade venezuelana em Uberlândia.

De acordo com Karen Albino, a notícia foi recebida com esperança por muitos refugiados, já que a crise política foi um dos principais motivos que os levaram a deixar o país. “A sensação de alívio é grande, mas o cenário ainda é muito incerto. Muitos miram a possibilidade de visitar ou até retornar à Venezuela, mas sabem que a situação é complexa”, destacou.

Segundo relatos dos refugiados, enquanto pessoas ligadas ao governo conseguem manter acesso a recursos, a maior parte da população enfrenta fome, miséria e escassez de itens básicos. “Quem não tem envolvimento político sofre muito. Recebem até um ticket para comprar comida, mas quando chegam ao mercado, muitas vezes não encontram os produtos”, relatou Karen.

Relatos de quem viveu a crise de perto

Pedro Ramón Rodríguez, refugiado atendido pela ONG Refugiados Udi, afirma que a esperança voltou, mas com cautela. “Me sinto bem, graças a Deus, porque a ditadura caiu, mas ainda há muito a ser feito. A Venezuela é um país rico, mas faltam remédios, comida e os salários são muito baixos. Agora é esperar para ver o que vai acontecer”, disse.

Já Helen Bernardo, também refugiada venezuelana, diz que a notícia reacendeu o desejo de reencontro familiar. “Deus escutou nossas orações. Isso nos dá fé de que um dia podemos voltar. Por enquanto não, mas quem sabe passar um Natal, um Ano Novo, minha mãe conhecer minhas netas”, relatou.

×

Leia Mais

O venezuelano Leonel Delgado que integra a ONG Taare celebrou o acolhimento recebido no Brasil e também vislumbrou um novo horizonte para sua terra natal, “Mais de 8 milhões de venezuelanos tiveram que deixar nosso país, partindo de nossos lares com tristeza e dor. Deixamos a Venezuela com dor para buscar a liberdade que nos foi tirada. No Brasil, em seis anos, recuperei a dignidade, o respeito e vi meu esforço ser recompensado. Com a queda do antigo regime e o fim dessa revolução corrupta, sinto que meu país finalmente retoma o caminho da prosperidade e do respeito aos direitos humanos, voltando a ter o futuro brilhante que merece.”

Posicionamento institucional

Em nota, a Universidade Federal de Uberlândia (UFU) informou que acompanha com atenção os desdobramentos da situação na Venezuela no cenário internacional. Confira o comunicado na integra :

“A Universidade Federal de Uberlândia (UFU) informa que acompanha com atenção os desdobramentos recentes envolvendo a situação da Venezuela no cenário internacional. A instituição reafirma seu compromisso com o diálogo, o respeito ao direito internacional e a busca por soluções pacíficas entre as nações.

A UFU destaca ainda que permanece atenta à situação de eventuais estudantes venezuelanos vinculados à universidade, por meio de seus setores competentes, acompanhando possíveis impactos acadêmicos e institucionais.”

Cenário internacional

Após os ataques militares de grande escala contra a Venezuela, com explosões registradas em Caracas e nos estados de Miranda, Aragua e La Guaira, a fronteira entre Brasil e Venezuela foi fechada. O Exército Brasileiro informou que acompanha a situação e mantém militares posicionados na região de fronteira.