Agente da Infância e Juventude encontra bebê abandonada com apenas 4 dias de vida na casa de uma parteira em Barra do Bugres, larga o emprego de professor para cuidá-la, adota a menina em 1990 e hoje, 35 anos depois, revela o motivo que fez a filha dizer que ele “já era pai dela” antes mesmo de buscá-la

Aparecido Donizete da Silva conta como um chamado de trabalho em 1990 se transformou no início de uma família e por que, para ele e a filha Érica, o laço nunca dependeu de sangue

, em Uberlândia

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Um chamado de trabalho terminou virando o começo de uma família. Foi assim que Aparecido Donizete da Silva, hoje lotado na Comarca de Várzea Grande, se tornou pai pela primeira vez: em uma diligência como agente da Infância e Juventude, ele encontrou uma bebê de apenas quatro dias de nascida, abandonada pela mãe na casa de uma parteira sem condições de criá-la. Décadas depois, Érica Taiane Buzato da Silva, hoje com 36 anos, é a prova viva de que laços de sangue não são a única forma de construir uma família.

Encontro de almas: diligência abriu as portas da paternidade para agente da Infância e Juventude
“Adoção não é sobre preencher um vazio, mas sobre transbordar o amor, porque é isso que eu sinto”, disse Érica – Crédito: Reprodução/ TJMT

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Um encontro que não estava nos planos

A cena se passou em 1990, em Barra do Bugres. Ao ser designado guardião legal da criança durante o trabalho de campo, Aparecido levou a bebê para casa. Ele e a então esposa cuidaram da pequena por três meses, período em que ela recuperou a saúde debilitada pelo abandono. O empenho foi tanto que o servidor, que também dava aulas à noite, largou o emprego de professor para se dedicar integralmente aos cuidados com a menina.

No início, adotar não fazia parte dos planos de Aparecido. Mas a convivência diária mudou tudo. Depois de três meses ao lado da bebê, ele decidiu que queria tê-la como filha para sempre e entrou na fila de adoção. O processo não foi rápido: investigações precisaram localizar a mãe biológica, que teve de registrar a criança antes de perder o pátrio poder, abrindo caminho para a adoção. Aparecido resume o sentimento em poucas palavras: ela chegou como um presente de Deus.

Uma filha que sempre soube quem era seu pai

Do outro lado dessa história está Érica, que hoje mora na Europa e carrega a certeza de que o vínculo com o pai nunca dependeu de biologia. Segundo ela, tudo já estava escrito para acontecer daquela forma, porque Aparecido já era seu pai antes mesmo de ir buscá-la. Para o servidor, o mesmo sentimento se repete: o amor e o cuidado vieram antes da chegada oficial da filha à família.

Érica conta que cresceu sabendo da própria origem, sem que isso nunca abalasse a relação com os pais. Ela foi a primeira dos três filhos do casal, que depois teve também Evili e Lucas. Na fala da filha mais velha, o pai é descrito como uma pessoa maravilhosa, a quem ela é grata por ter recebido o mesmo amor e cuidado dedicado aos irmãos, sem qualquer diferença entre eles.

Valores que atravessaram gerações

Para Aparecido, educar os filhos sempre foi mais sobre exemplo do que sobre discurso. Ele afirma ter buscado transmitir honestidade, caráter e determinação através das próprias escolhas do dia a dia, para que os filhos aprendessem observando a convivência em casa. Érica reconhece esse legado e diz se espelhar no pai, a quem considera uma pessoa de caráter, esforçada e batalhadora, além de admitir semelhanças até físicas entre os dois, fruto da longa convivência.

Esse vínculo também deu à filha segurança para encarar um capítulo delicado: a busca pelas próprias origens biológicas. Segundo Érica, evitava tocar no assunto por acreditar que isso poderia magoar os pais adotivos. Quando finalmente perguntou, Aparecido a ajudou a localizar outro pai adotivo, que havia criado uma irmã biológica dela, o que permitiu o reencontro com parte da família de sangue, incluindo um irmão. A mãe biológica, porém, já havia falecido um ano antes desse reencontro.

O papel da Justiça na construção de novas famílias

Com anos de atuação como agente da Infância e Juventude, Aparecido enxerga a adoção como muito mais do que um trâmite jurídico: para ele, trata-se da construção de uma família baseada em amor e responsabilidade. Ele observa que a legislação evoluiu bastante desde que adotou Érica, tornando o processo mais estruturado, transparente e voltado ao melhor interesse de crianças e adolescentes, com preparação das famílias e acompanhamento técnico que ajudam a reduzir o tempo de acolhimento institucional.

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Distância física, proximidade de coração

Morar há oito anos na Europa não diminuiu a proximidade entre pai e filha. Érica admite que datas como o Dia dos Pais pesam mais longe de casa, mas garante que a gratidão supera qualquer distância. Aparecido, por sua vez, reconhece que a saudade aperta, mas também sente orgulho de ver a filha correndo atrás dos próprios objetivos, e conta que o diálogo constante ajuda a transformar a distância em incentivo.

Ao final, o recado do agente da Infância e Juventude serve tanto para pais biológicos quanto para pais de coração: que os primeiros valorizem o privilégio de acompanhar o crescimento dos filhos com presença e responsabilidade, e que os segundos nunca duvidem da força do amor que escolheram oferecer. Já Érica resume a própria trajetória em uma frase: adoção não é sobre preencher um vazio, mas sobre transbordar o amor que ela sente até hoje pelo pai que a escolheu.

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