Minas Gerais lidera número de assassinatos de pessoas trans e travestis

Dossiê da Antra aponta que estado liderou os assassinatos de pessoas trans e travestis no país em 2025, mesmo com queda nacional dos casos

, em Uberlândia

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Minas Gerais foi o estado brasileiro com maior número de assassinatos de pessoas trans e travestis em 2025, segundo dados do dossiê anual da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra). Ao todo, oito mortes foram registradas no estado, número que coloca Minas na liderança nacional ao lado do Ceará.

pessoas trans e travestis
Minas Gerais mantém uma trajetória preocupante nos assassinatos de pessoas trans e travestis – Crédito: Tomaz Silva/Agência Brasil

O levantamento foi divulgado em um contexto simbólico: nesta quinta-feira (29/1) é celebrado o Dia Nacional da Visibilidade Trans, data que busca promover a reflexão sobre a cidadania, os direitos e a garantia da vida dessa população no Brasil.

Brasil registra 80 assassinatos em 2025, mas cenário segue grave

Em todo o país, 80 pessoas trans e travestis foram assassinadas em 2025. Segundo a Antra, houve uma queda consecutiva de 34% em relação ao ano anterior, quando foram contabilizados 122 casos em 2024. A redução é ainda mais expressiva na comparação com 2023, ano que registrou 145 assassinatos, configurando a maior queda da série histórica.

Apesar da diminuição numérica, a entidade alerta que os dados não representam avanços estruturais nem maior proteção à vida. De acordo com o relatório, a redução estatística ocorre em paralelo à subnotificação, à ausência de dados governamentais e à fragilização dos mecanismos de monitoramento.

“A redução métrica aparente não reflete avanços estruturais, proteção do direito à vida ou fortalecimento da cidadania, mas evidencia a consolidação de novos mecanismos de invisibilização da violência”, aponta o dossiê.

Minas Gerais mantém histórico crítico

Mesmo com números menores em 2025, Minas Gerais mantém uma trajetória preocupante nos assassinatos de pessoas trans e travestis. Em 2024, o estado registrou 12 mortes; em 2023, foram 11; e, em 2022, nove casos.

Na série histórica monitorada pela Antra entre 2017 e 2025, Minas Gerais soma 100 assassinatos, figurando entre os estados mais letais do país, ao lado de São Paulo, Ceará e Bahia.

Casos emblemáticos marcaram o ano em Minas

Dois assassinatos ocorridos em 2025 ganharam grande repercussão e simbolizam a violência enfrentada por pessoas trans em Minas Gerais.

Dois casos chocaram o estado e o país em 2025 – Crédito: Reprodução/Redes Sociais

Em outubro, Christina Maciel Oliveira, de 45 anos, foi assassinada na rua Padre Pedro Pinto, em Venda Nova, região Norte de Belo Horizonte. Ela caminhava pela via quando foi violentamente atacada pelo ex-namorado. O crime foi gravado por câmeras de segurança, aconteceu em local movimentado e chocou pela ausência de intervenção de testemunhas.

Pouco tempo depois, Alice Martins Alves, de 33 anos, foi espancada por funcionários de um bar no bairro Savassi, região Centro-Sul da capital, no dia 23 de outubro. Ela permaneceu internada até 9 de novembro, quando não resistiu aos ferimentos.

Em um vídeo amplamente compartilhado nas redes sociais, o pai de Alice, Edson Alves Pereira, fez um desabafo que se tornou símbolo da luta por justiça. “Será que uma transexual não tem direito de viver? Não tem direito de viver em paz?”, indagou.

Perfil das vítimas em 2025

O dossiê da Antra aponta que o perfil da violência segue praticamente inalterado. Em 2025, a maioria das vítimas de assassinatos de pessoas trans e travestis foi composta por jovens.

  • 18 a 29 anos: 54 vítimas

  • 30 a 39 anos: 28 vítimas

  • 40 a 49 anos: 14 vítimas

  • 13 a 17 anos: 2 vítimas

  • 50 a 59 anos: 2 vítimas

Segundo o relatório, uma pessoa trans jovem de até 29 anos tem, em média, 28% mais chances de ser assassinada do que pessoas trans de outras faixas etárias somadas.

O recorte racial também revela desigualdades profundas:

  • Pessoas negras: 70% das vítimas

  • Pessoas brancas: 26%

  • Pessoas indígenas: 4%

Assassinatos de pessoas trans e travestis por estado em 2025

  • Minas Gerais: 8

  • Ceará: 8

  • Bahia: 7

  • Pernambuco: 7

  • Goiás: 5

  • Maranhão: 5

  • Pará: 5

  • Paraná: 4

  • Rio Grande do Norte: 4

  • São Paulo: 4

  • Mato Grosso: 3

  • Rio de Janeiro: 3

  • Alagoas: 2

  • Distrito Federal: 2

  • Espírito Santo: 2

  • Mato Grosso do Sul: 2

  • Amazonas: 1

  • Amapá: 1

  • Rio Grande do Sul: 1

  • Santa Catarina: 1

  • Sergipe: 1

  • Acre: 0

  • Piauí: 0

  • Rondônia: 0

  • Roraima: 0

  • Tocantins: 0

Violência persiste apesar da queda numérica

Para a Antra, os dados reforçam que a redução nos assassinatos não significa menos violência, mas sim menos visibilidade, menos registros e maior silêncio institucional. A entidade aponta a ausência de políticas públicas específicas, o descrédito nas instituições e o medo como fatores que impactam diretamente a produção de dados e a proteção da população trans.

O Governo de Minas Gerais foi procurado pela reportagem para comentar os dados apresentados no relatório da Antra e informar quais ações são desenvolvidas para a proteção de pessoas trans e travestis. Até a publicação desta matéria, não houve retorno.