Dia da Visibilidade Trans: vozes que resistem e lutam por cidadania

A partir da experiência de uma jornalista trans, reportagem discute os desafios da visibilidade além das datas simbólicas

, em Uberlândia

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Celebrado nacionalmente em 29 de janeiro, o Dia da Visibilidade Trans vai além de uma data simbólica e chama atenção para histórias de resistência, afirmação de identidade e luta por cidadania. A data convida à reflexão sobre respeito, acesso à saúde, educação e inclusão no mercado de trabalho, temas que ainda atravessam a vida de pessoas trans no Brasil.

Para dar rosto e voz a essa realidade nesta data emblemática, o Paranaíba Mais ouviu a jornalista Alíka Hortênsia, mulher trans que compartilha sua vivência pessoal e profissional. Ela revela como a visibilidade ainda caminha lado a lado com desafios cotidianos, muitos deles silenciosos, mas profundamente marcantes.

Dia da Visibilidade Trans
Alíka Hortênsia tem 26 anos é natural de São Paulo – Crédito: Arquivo pessoal/Reprodução

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Uma transição que nasce do cuidado consigo mesma

Alíka explica que sua transição não aconteceu a partir de um marco isolado, mas de um processo interno de reconhecimento. Durante a pandemia, ficou claro que a forma como vivia já não lhe fazia bem, o que impulsionou sua transição social de maneira consciente e necessária.

“Mais do que uma escolha, foi um entendimento profundo de quem eu sempre fui”, relata, ao destacar que a transição também é um caminho de autocuidado e sobrevivência emocional.

Respeito ainda esbarra em falhas do sistema

Natural de São Paulo, a jovem jornalista encontrou em Uberlândia (MG), a partir de 2020, mais do que o caminho acadêmico ao ingressar no curso de Jornalismo da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Foi nesse novo território, entre descobertas pessoais e formação profissional, que ela passou a viver de forma mais plena quem sempre foi, dando início ao seu processo de transição.

No cotidiano, Alíka relata que situações constrangedoras ainda são frequentes, sobretudo no atendimento em serviços públicos de saúde, como hospitais e unidades de saúde. Mesmo com o nome já retificado, falhas em sistemas internos acabam expondo pessoas trans a constrangimentos públicos, forçando explicações desnecessárias sobre sua identidade.

Além disso, ela ressalta que, enquanto mulher, enfrenta desafios comuns a muitas mulheres cis, como assédio, insegurança e medo, especialmente em espaços públicos e no transporte coletivo, reflexo de uma sociedade ainda marcada por estruturas machistas e patriarcais.

Privilégio individual não apaga desigualdades coletivas

Alíka-Hortênsia
Alíka Hortênsia afirma que sua trajetória não representa a realidade da maioria das mulheres trans e se reconhece como uma exceção dentro desse contexto – Crédito: Arquivo pessoal/Reprodução

Ao falar sobre direitos, Alíka faz questão de reconhecer que ocupa um lugar de privilégio dentro da realidade trans. Ela conseguiu acesso à saúde, apoio familiar, acolhimento no ambiente de trabalho e a retificação de nome por meio do Mutirão da Defensoria Pública.

No entanto, ela faz um alerta importante: sua experiência não representa a maioria. Estudos indicam que cerca de 2% da população adulta brasileira se identifica como transgênero ou não-binária, o que corresponderia a aproximadamente 3 milhões de pessoas no país, número que sinaliza a dimensão dessa população e a necessidade de políticas públicas que vão além do simbólico de uma data alusiva.

“Eu sou a exceção”, pontua Alíka, reforçando que muitas pessoas trans ainda enfrentam barreiras severas para acessar direitos básicos, seja na saúde, na educação ou no mercado de trabalho, desafios que continuam invisibilizados na maior parte da sociedade.

Saúde trans: avanços, ameaças e a importância do Craist

Um dos pontos centrais da entrevista é o acesso à saúde. Alíka avalia que o sistema, de forma geral, ainda não está preparado para acolher pessoas trans, citando a falta de capacitação de profissionais em atendimentos ginecológicos e urológicos, por exemplo.

Por outro lado, ela destaca o papel fundamental do Centro de Referência Atenção Integral à Saúde Transpacífica (Craist), ambulatório de referência no atendimento à população trans no Triângulo Mineiro, onde realiza acompanhamento do tratamento hormonal. O local, que existe desde 2007, recebe pacientes de diversas cidades e até de outros estados, evidenciando sua importância regional.

Apesar disso, o serviço enfrenta ameaças constantes por conta de cortes de verbas, o que motivou o surgimento do movimento “Defenda o Craist”, que busca preservar o espaço como um ambiente seguro e essencial para a saúde trans em Uberlândia.

Educação e trabalho: inclusão que ainda precisa avançar

No mercado de trabalho, Alíka relembra situações constrangedoras vividas no início da transição, quando processos seletivos não previam o uso do nome social, obrigando explicações constantes durante entrevistas. Após a retificação do nome, esses episódios diminuíram, mas ela defende a ampliação de programas públicos permanentes, como os mutirões de retificação, para evitar exclusão e preconceito.

Alíka Hortênsia concluiu a retificação do nome em 2024 – Crédito: Arquivo pessoal/Reprodução

Para ela, mais investimentos em saúde e políticas de inclusão são fundamentais para garantir dignidade e autonomia às pessoas trans desde a juventude.

O dia da visibilidade trans é todo dia!

No Dia Nacional da Visibilidade Trans, Alíka lembra que pessoas trans existem todos os dias do ano. Elas amam, trabalham, estudam, pagam contas, constroem relações e enfrentam desafios como qualquer outra pessoa, mas também vivem sob uma realidade de violência e risco que muitas vezes passa despercebida.

Dados recentes mostram que o Brasil segue no topo do ranking mundial de assassinatos de pessoas trans e travestis, posição que ocupa há quase duas décadas. Em 2025, foram registrados 80 assassinatos desse tipo no país, segundo o Dossiê da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), mesmo com redução em relação ao ano anterior, o número ainda evidencia um cenário de violência persistente e transfobia letal.

Essa realidade é um lembrete brutal de que a luta por cidadania, respeito e proteção de direitos ultrapassa as datas no calendário. Reconhecer a existência, as histórias e os riscos vividos por pessoas trans todos os dias é um passo essencial, não apenas para marcar uma data, mas para transformar realidades, combater a intolerância e construir uma sociedade que realmente garanta vida, dignidade e igualdade para todos.

Enquanto a sociedade discute visibilidade, pessoas trans ainda lutam, todos os dias, pelo direito mais básico de todos: viver.