“Tive que ir para a guerra para vencer o vício”, diz brasileiro que perdeu R$ 340 mil
Empresário afirma que tentou controlar a ludopatia (compulsão em jogar) de diversas formas, mas só conseguiu abandonar as apostas após se alistar no Exército da Ucrânia, onde sobreviveu a bombardeios e hoje diz estar "curado"
Após perder cerca de R$ 340 mil em apostas on-line e afundar em dívidas, o empresário Thiago Morais da Silva Moita, de 35 anos, tomou uma decisão extrema: alistou-se no Exército da Ucrânia por acreditar que só assim conseguiria vencer a ludopatia (compulsão incontrolável em jogar). Ao Paranaíba Mais ele contou que hoje, após sobreviver a bombardeios e meses no front, ele afirma que não aposta mais e diz estar curado do vício.
“Eu tive que vir para uma guerra para conseguir sair do vício.”
A frase resume a transformação vivida pelo brasileiro, que até o início de 2024 dividia a rotina entre uma empresa de eletrônicos e o trabalho como motorista de aplicativo em Iguape (SP). Em poucos meses, porém, as apostas consumiram seu patrimônio, provocaram dívidas e o levaram a buscar uma saída que, segundo ele, jamais imaginou.
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Thiago afirma que tentou interromper o ciclo de diversas formas. Entregou o controle das contas bancárias à família, fez autoexclusão das plataformas de apostas, pesquisou sobre ludopatia e chegou a ficar sem trabalhar para evitar ter dinheiro nas mãos. Nada funcionou.
A saída encontrada foi radical: alistar-se na Legião Internacional de Defesa da Ucrânia, onde acredita ter conseguido vencer um vício que, segundo ele, era mais forte do que qualquer droga.
“Eu estava me destruindo. Se eu tivesse ficado no Brasil, ia continuar trabalhando, ganhando dinheiro e apostando. Eu acredito que nunca conseguiria sair desse vício”, relatou.
O começo de uma dependência que saiu do controle
Thiago conta que fez a primeira aposta em fevereiro de 2024. Como acontece com muitos jogadores compulsivos, começou ganhando dinheiro. Pouco tempo depois, vieram as perdas.
A situação atingiu o limite no dia em que perdeu R$ 75 mil durante uma madrugada. “Minha viagem acabou ali. Comecei a estourar cartões de crédito, pegar minhas reservas no banco e fazer empréstimos tentando recuperar o dinheiro. Eu não conseguia aceitar perder”, disse.
Ao pesquisar sobre o comportamento compulsivo, descobriu que apresentava sinais claros de ludopatia, transtorno reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e caracterizado pelo vício em jogos de azar.
Mesmo entendendo que estava doente, ele diz que não conseguia parar. “Eu sabia que estava doente, mas continuava jogando. Essa doença prende a mente”, contou.
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“É pior do que crack”
Para Thiago, a dependência em apostas é subestimada pela sociedade. “Esse vício é pior do que crack, pior do que qualquer outro tipo de droga. Ele destrói famílias, destrói a cabeça da pessoa”, afirma.
Segundo ele, a doença mudou completamente sua rotina. Mesmo trabalhando como empresário do ramo de eletrônicos e também como motorista de aplicativo em Iguape (SP), todo o dinheiro que ganhava acabava sendo destinado às plataformas de apostas.
Seu pai chegou a assumir o controle da vida financeira do filho. “Ele me emprestava o cartão dele para comprar algumas coisas. Eu tentei ficar sem trabalhar, entreguei minhas contas, fiz de tudo para sair do vício. Mas eu sempre voltava.”
A frase do pai que nunca saiu da cabeça
Quando decidiu ir para a guerra, Thiago ouviu uma frase que diz nunca ter esquecido. “Meu pai falou: ‘Você já apostou tudo. Agora vai apostar a sua vida?'”, relatou.
O pai tentou convencê-lo a desistir. Ofereceu ajuda financeira. Pediu que permanecesse no Brasil. Nada mudou a decisão.
“Ele insistiu muito para que eu não viesse. Hoje, praticamente não fala mais comigo. Acho que foi a forma que encontrou para lidar com tudo isso.”

A guerra como tratamento
Em março deste ano, Thiago embarcou rumo à Ucrânia. Saiu do aeroporto de Viracopos, passou por Portugal, Holanda, seguiu até a Polônia e, de ônibus, entrou em território ucraniano.
A ideia, segundo ele, nunca foi ganhar dinheiro. “O salário é bom, mas eu trabalhava no Brasil e ganhava praticamente a mesma coisa. Eu vim porque precisava ocupar minha mente.”
A rotina militar passou a preencher praticamente todo o dia. Foram 45 dias de treinamento, com jornadas de 12 horas diárias, além das missões em diferentes regiões do país.
“Eu precisava ocupar meu tempo. Aqui eu treino, estudo, trabalho e praticamente não pego no celular.” Hoje, ele afirma que não sente mais vontade de apostar.
“Tenho dinheiro na conta e não coloco mais um centavo em bet. Estou curado. Vesti a camisa contra as apostas.”
“O dinheiro não compensa”
Apesar do salário, que atualmente gira em torno de R$ 23 mil por mês e pode ultrapassar R$ 40 mil para militares na linha de frente, Thiago afirma que o risco não vale a pena. “Dinheiro nenhum compensa. Já vi muita gente morrer aqui. Hoje minha vida vale muito mais.”
Segundo ele, a percepção sobre dinheiro mudou completamente. “Antes eu achava que dinheiro resolvia tudo. Hoje eu só quero voltar vivo para casa.”
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O dia em que escapou da morte
Poucos dias depois de chegar à Ucrânia, Thiago viveu uma experiência que considera inesquecível. A casa onde estava hospedado foi atingida por um bombardeio.
Naquele momento, ele conversava com colegas que cortavam o cabelo na cozinha. “Escutei a primeira explosão. Quando olhei para cima, vi uma bomba vindo do outro lado da rua. Gritei ‘bomba’ e saí correndo.”
Ele conseguiu se esconder atrás de uma árvore enquanto outras explosões atingiam o local. “O dia virou noite. Subiu destroço para todo lado.” Dois colegas ficaram gravemente feridos. Um deles permanece hospitalizado. “Depois que o bombardeio parou, voltei para ajudar no resgate.”
A perda de um amigo brasileiro
Durante outra missão, Thiago perdeu um dos amigos mais próximos na guerra. O brasileiro, conhecido como Lisboa, morreu durante um bombardeio.
“Ele aparecia em quase todos os meus vídeos. Foi uma perda muito difícil.” Segundo Thiago, a morte do colega reforçou ainda mais a certeza de que dinheiro nenhum justifica permanecer no conflito.
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Longe do filho, mas perto por vídeo
Pai de um menino de 4 anos, Thiago conversa diariamente com a família por chamadas de vídeo. Ele diz que a maior saudade é do filho. “Quero dar um abraço nele e na minha mãe. São as pessoas mais importantes da minha vida.”
As férias estão previstas para ocorrer entre novembro e dezembro. Nesse período, ele pretende voltar ao Brasil, embora ainda não saiba se retornará à Ucrânia para cumprir o restante do contrato militar. “Hoje, se pudesse, iria embora agora. Mas minha cabeça ainda pode mudar até lá.”
“Agora vou lutar contra as bets”
Se antes a guerra era uma tentativa desesperada de salvar a própria vida, Thiago afirma que, quando voltar ao Brasil, pretende transformar a experiência em uma causa.
“Eu vou lutar contra os jogos de azar. Tudo o que eu puder fazer para impedir que outras pessoas passem pelo que eu passei, eu vou fazer.”
Ele afirma que o combate ao vício exige mais do que força de vontade. Para quem enfrenta o mesmo problema, recomenda buscar informação sobre ludopatia, fazer a autoexclusão das plataformas, entregar o controle financeiro a familiares e limitar o acesso ao dinheiro.
“Quando a pessoa entende como funciona a doença, consegue conduzir melhor o tratamento. Sozinho é muito difícil.”
Hoje, depois de sobreviver a bombardeios e conviver diariamente com o risco de morrer, Thiago diz que sua maior vitória aconteceu longe do campo de batalha. “Eu fui para a guerra para lutar contra mim mesmo. E essa luta, graças a Deus, eu consegui vencer.”
Se você ou alguém próximo enfrenta dificuldades para controlar as apostas on-line, é possível solicitar a autoexclusão das plataformas autorizadas pelo governo federal por meio do sistema oficial “Autoexclusão dos sites de apostas”. A ferramenta permite bloquear voluntariamente o acesso aos sites de apostas legalizados no Brasil.
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