Por que o El Niño está cada vez mais forte? Pesquisa aponta para ação humana

Reconstrução de 1.000 anos feita com corais das Ilhas Galápagos mostra que o El Niño ficou mais forte e mais frequente com o avanço do aquecimento global no planeta

, em Uberlândia

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O El Niño que volta a se fortalecer no Oceano Pacífico não é novidade para quem estuda o clima do passado da Terra. Uma reconstrução inédita das temperaturas da superfície do mar, montada a partir de esqueletos de corais das Ilhas Galápagos, sugere que o fenômeno vem se repetindo com mais força e mais frequência à medida que o planeta esquenta por causa da atividade humana.

Estudo aponta que a intensificação do El Niño está ligada à ação do homem e ao aquecimento global
Uma reconstrução das temperaturas da superfície do Oceano Pacífico reforça a evidência de que o aquecimento causado pelo homem está intensificando os eventos El Niño – Crédito: Freepick/Reprodução

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Segundo reportagem publicada pela revista Nature, a conclusão é da paleoclimatologista Julia Cole, da Universidade de Michigan, em Ann Arbor, que utiliza corais como registro natural do clima de séculos passados. Para ela, o padrão identificado ao longo de dez séculos não parece ser fruto do acaso. O trabalho foi conduzido em parceria com outros pesquisadores e publicado no periódico científico Science, com base na análise de amostras coletadas nas águas remotas do arquipélago equatoriano.

O que os corais das Galápagos revelam sobre o El Niño

Diferente de termômetros e boias oceânicas, que só existem em número suficiente a partir do século XX, os corais crescem camada por camada e registram, mês a mês, as variações de temperatura da água ao seu redor. Isso permite que cientistas reconstruam o comportamento do Oceano Pacífico muito antes da existência de qualquer instrumento de medição moderno.

Foi justamente esse tipo de registro que Cole e sua equipe usaram para montar uma linha do tempo de mil anos, cobrindo o período anterior à Revolução Industrial até os dias atuais. A análise mostrou que, no último século, os eventos de El Niño mais fortes passaram a ocorrer com uma frequência muito maior do que em qualquer outro momento do milênio estudado.

Por que o Pacífico oriental é o coração do El Niño

O El Niño é a fase quente de um ciclo natural de oscilação de temperatura no Pacífico tropical, batizado de El Niño-Oscilação Sul, ou ENSO. Em junho deste ano, as condições típicas do fenômeno voltaram a se formar no oceano, e as previsões indicam que pode se tratar de um dos eventos mais fortes já registrados, o terceiro El Niño de grande intensidade em apenas 11 anos, algo sem precedentes conhecidos.

Esse cenário reacendeu uma discussão antiga entre cientistas sobre até que ponto o aquecimento global provocado pelo homem estaria tornando o El Niño mais forte e mais recorrente. Responder a essa pergunta nunca foi simples. Os modelos computadorizados ainda têm dificuldade para reproduzir com precisão a complexa troca de energia entre os ventos e o oceano que dá origem ao fenômeno, e os registros confiáveis de temperatura em áreas remotas do Pacífico tropical praticamente não existem antes do século passado.

Antes do estudo com os corais de Galápagos, os pesquisadores dependiam principalmente de registros do Pacífico central, que não captavam com precisão o que acontecia na porção oriental do oceano, justamente onde o El Niño se manifesta com mais força. O paleoclimatologista Julien Emile-Geay, da Universidade do Sul da Califórnia, compara a limitação a tentar avaliar os batimentos cardíacos de uma pessoa com um estetoscópio apoiado no tornozelo.

As Ilhas Galápagos ficam exatamente na região que os cientistas chamam de coração do El Niño, mas ali os corais crescem em condições extremas e são raros. A guinada na pesquisa veio em 2006, quando Cole recebeu a indicação de colônias de corais em uma área de difícil acesso do arquipélago. Nos anos seguintes, sua equipe coletou milhares de amostras que, juntas, cobrem o milênio inteiro analisado no estudo.

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Números que mostram o El Niño mais forte com o aquecimento global

Os dados extraídos dos corais mostram que a amplitude média da transição entre as fases fria e quente do ENSO no Pacífico oriental aumentou 36,5% entre 1990 e 2010, na comparação com os mil anos anteriores a 1850. Frente ao período de 1851 a 1982, o aumento foi de 16%. Segundo os pesquisadores, esse salto acompanha de perto a curva de elevação da temperatura média global ao longo do último século e é resultado direto de eventos de El Niño mais intensos e mais numerosos.

Para o cientista climático Michael McPhaden, da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, os resultados reforçam a hipótese de que o aquecimento global está alterando a amplitude das variações do ENSO. Segundo ele, o padrão encontrado nos corais é consistente tanto com as observações climáticas recentes quanto com o que os modelos de computador já vinham projetando, o que reforça a confiança dos cientistas nessa direção de pesquisa.

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O que esperar dos próximos episódios de El Niño

Boa parte dos modelos climáticos atuais projeta que a tendência de eventos de El Niño mais frequentes e mais intensos deve se manter ao longo deste século, acompanhando o aquecimento global. Isso é relevante porque, historicamente, o fenômeno costuma provocar um aumento temporário nas temperaturas médias do planeta e influenciar o clima em regiões específicas, com reflexos diretos sobre ecossistemas, agricultura e economias locais.

Ainda assim, Julia Cole faz questão de reforçar os limites do que a pesquisa permite afirmar. Segundo ela, os corais funcionam como uma espécie de máquina do tempo voltada para o passado, mas não servem para prever com exatidão o que vai acontecer daqui para frente. As interações entre oceano e atmosfera que regem o El Niño continuam complexas, e ainda existe incerteza sobre como os ciclos de temperatura do Pacífico vão se comportar ao longo deste século.

De acordo com a pesquisadora, o principal aprendizado do estudo publicado na Science está em usar esse retrato mais longo do passado climático para ajudar sociedades e governos a se prepararem melhor para os impactos de fenômenos como o El Niño, reduzindo o potencial de catástrofes associadas a ele.

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