El Niño já influencia o clima de Minas? Entenda o que está por trás da preocupação

Com Minas entre os estados que mais pesquisam sobre o El Niño no país, especialistas explicam como o fenômeno pode alterar chuvas e temperaturas e quando seus efeitos devem ser percebidos

, em Uberlândia

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O aumento das pesquisas sobre o El Niño colocou Minas Gerais entre os dez estados brasileiros que mais buscaram informações sobre o fenômeno climático nas últimas semanas. O interesse ocorre em meio à confirmação do novo episódio de El Niño e à expectativa de que seus primeiros efeitos passem a ser percebidos gradualmente no Brasil durante o segundo semestre de 2026.

Reflexos do El Niño em Minas Gerais devem se intensificar gradualmente, com pico esperado para o final do ano e impacto contínuo no verão de 2027 – Créditos: Imagem criada por IA

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Segundo levantamento de buscas, Minas Gerais aparece na 8ª posição entre os estados que mais pesquisam sobre o tema, atrás apenas de Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Distrito Federal, Espírito Santo e Rio de Janeiro.

Especialistas explicam que o aumento da procura está relacionado tanto à confirmação do fenômeno quanto à sequência de eventos climáticos extremos registrados nos últimos anos, como ondas de calor, estiagens prolongadas, tempestades intensas e impactos na produção agrícola.

El Niño já foi confirmado, mas os efeitos ainda estão começando

De acordo com o meteorologista Denis Garcia, o El Niño já está oficialmente estabelecido, porém existe um intervalo entre sua formação no Oceano Pacífico e a percepção dos impactos sobre o clima brasileiro.

“Seus efeitos levam cerca de dois a três meses para começarem a ser sentidos aqui no Brasil. Como ele foi confirmado em maio, estamos justamente entrando no período em que esses efeitos começam a aparecer de forma gradual”, explica.

Segundo ele, um dos sinais já pode ser observado na Região Sul, onde as chuvas passaram a ocorrer com maior intensidade.

“Um dos primeiros efeitos do El Niño é justamente favorecer chuvas mais fortes e volumosas naquela região.”

O que muda em Minas Gerais

Embora o fenômeno costume provocar impactos diferentes em cada região do país, o principal efeito esperado para Minas Gerais é o aumento das temperaturas e uma maior irregularidade na distribuição das chuvas.

“No Sudeste, os efeitos normalmente aparecem com temperaturas mais altas e chuvas mais irregulares, mas isso não quer dizer chuvas abaixo da média. No momento, o aumento das temperaturas observado em Minas ocorre principalmente por causa da circulação atmosférica que está transportando ar quente para o Triângulo Mineiro. Pode haver influência do El Niño, mas ainda não é possível confirmar.”

A expectativa é que a atuação do fenômeno aumente gradualmente até atingir seu pico entre setembro, outubro e novembro, com reflexos mais intensos durante o verão de 2027.

Por que Minas está pesquisando tanto sobre o fenômeno?

O interesse crescente também acompanha a frequência cada vez maior de eventos extremos registrados nos últimos anos.

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Minas Gerais aparece na 8ª posição entre os estados brasileiros que mais demonstraram interesse pelo El Niño,- Crédito: Bulbe Energia/Reprodução

O levantamento mais recente sobre o período chuvoso em Minas Gerais, elaborado com dados do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) entre 2000 e 2025, mostra que:

  • as temperaturas máximas ficaram cerca de 1°C acima da média histórica entre 2014 e 2025;
  • ondas de calor tornaram-se mais frequentes;
  • chuvas intensas continuam sendo o desastre meteorológico mais comum no estado;
  • tempestades, vendavais, granizo e enxurradas seguem entre os principais eventos registrados.

Além disso, aproximadamente 13% dos municípios mineiros apresentam extrema vulnerabilidade às mudanças climáticas, principalmente nas regiões Norte de Minas e Jequitinhonha.

O que explica essa preocupação?

Minas Gerais possui um regime climático marcado por uma divisão sazonal: verões úmidos (de 1º de outubro a 31 de março) e invernos secos. O El Niño, ao modificar padrões de temperatura e circulação atmosférica, atua como um complicador nesse sistema.

Pontos de atenção nas regiões do território mineiro:

  • Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba: Regiões suscetíveis a ondas de calor intensas; períodos de chuva irregulares e déficit hídrico.
  • Leste de Minas (Vales do Rio Doce e Mucuri): Apresentam alta concentração de desastres hidrológicos; vulnerabilidade socioeconômica somada a eventos extremos.
  • Norte de Minas e Jequitinhonha: Cerca de 13% dos municípios com extrema vulnerabilidade climática, abrigando quase 1,5 milhão de pessoas.

Além da previsão do tempo, o El Niño interfere diretamente em diversos setores da economia.

Temperaturas elevadas, irregularidade das chuvas e eventos extremos podem afetar:

  • produção agrícola;
  • preço dos alimentos;
  • geração de energia;
  • abastecimento de água;
  • logística e transporte;
  • risco de incêndios florestais.

Alguns municípios ainda apresentam baixa capacidade de resposta a eventos extremos por não possuírem Plano de Contingência (PLANCON).

Por isso, especialistas avaliam que o aumento das buscas reflete não apenas curiosidade sobre o clima, mas também uma preocupação crescente da população com possíveis impactos econômicos e ambientais.

Leia Mais: O que é o Super El Niño? Entenda os impactos e por que ele pode ser histórico

O último “super” El Niño aconteceu quando?

Desde 1950, apenas cinco episódios foram classificados pela comunidade científica como muito fortes.

O mais intenso já registrado ocorreu entre 2015 e 2016, quando a temperatura do Oceano Pacífico chegou a aproximadamente 2,6°C acima da média.

Na sequência veio o episódio de 2023-2024, que atingiu cerca de 2°C acima da média, ficando próximo do limite utilizado por parte dos pesquisadores para caracterizar um “super” El Niño.

Caso as projeções internacionais se confirmem e o episódio previsto para 2026-2027 alcance intensidade semelhante, será o intervalo mais curto entre grandes eventos já observado.

A sequência histórica mostra essa redução:

  • 1972 → 1982: 10 anos;
  • 1982 → 1997: 15 anos;
  • 1997 → 2015: 18 anos;
  • 2015 → 2023: 8 anos;
  • 2023 → 2026 (projeção): apenas 3 anos.

Embora ainda não exista consenso científico de que essa redução seja uma tendência definitiva, pesquisadores observam que os modelos climáticos apontam para uma maior frequência de episódios intensos em um planeta mais aquecido.

Como a população deve se preparar?

Em um cenário de incertezas, o planejamento torna-se a primeira linha de defesa:

  • Atenção aos alertas: Acompanhe as emissões de avisos da Defesa Civil e do INMET.
  • Eficiência energética: A instabilidade climática afeta diretamente as hidrelétricas e, consequentemente, a tarifa de energia. Buscar alternativas renováveis ou reduzir o consumo em horários de pico são medidas de proteção ao orçamento.
  • Histórico local: Moradores de áreas de risco (encostas ou margens de rios) devem estar atentos às orientações das prefeituras locais antes do início do período chuvoso.

Continue acompanhando o Paranaíba Mais para conferir as atualizações da previsão do tempo, alertas meteorológicos e análises sobre os fenômenos que influenciam a região.