Plano contra o El Niño prevê R$ 1,3 bi; veja prioridades no Triângulo Mineiro
Plano de R$ 1,3 bilhão e tornado no Rio Grande do Sul reacendem o alerta para os efeitos do El Niño no país
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Nesta semana, dois acontecimentos recolocaram o El Niño no centro do debate público. Na terça-feira (28), um tornado atingiu municípios do Rio Grande do Sul, deixando feridos e provocando destruição. Já nesta quarta-feira (29), o governo federal anunciou um plano nacional para reduzir os impactos do fenômeno climático, com investimento de R$ 1,335 bilhão. Especialistas avaliam que Minas Gerais também poderá sofrer efeitos significativos e apontam quais áreas exigem maior preparação.
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No fim da tarde de terça-feira (28), um tornado atingiu os municípios de Giruá, Sete de Setembro e Senador Salgado Filho, no noroeste do Rio Grande do Sul. O fenômeno provocou destelhamentos, danos estruturais e deixou ao menos quatro pessoas feridas.
Segundo o climatologista Denis Garcia, o tornado teve influência indireta do El Niño, que favorece a formação de tempo severo ao intensificar o transporte de ar quente e úmido sobre a região, criando condições propícias para tempestades intensas.
TORNADO EM GIRUÁ-RS 🌪️
Registros impressionantes feitos por moradores nesta terça-feira (28/07). É um dos melhores registros de tornados no Brasil 🇧🇷 pic.twitter.com/5JlQfBpjeI— Sigma Meteorologia (@SMeteorologia) July 29, 2026
O geógrafo especialista em clima William Borges explica que o El Niño não provoca tornados diretamente, mas altera a circulação atmosférica em grande escala, favorecendo condições para a ocorrência desses fenômenos, especialmente na Região Sul.
“O El Niño pode ter contribuído para criar um cenário climático mais favorável à instabilidade, mas a formação do tornado dependeu das condições meteorológicas locais daquele momento.”
Plano do governo federal
Nesta quarta-feira (29), o governo federal anunciou um plano nacional para reduzir os impactos do El Niño. O investimento previsto é de R$ 1,335 bilhão, destinado a ações de segurança alimentar, saúde, monitoramento hidrológico, fiscalização ambiental e combate aos incêndios florestais.
Segundo o Executivo, a iniciativa representa uma preparação antecipada para os possíveis impactos do fenômeno.
O plano foi elaborado com base em estudos do Cemaden, Inmet, ANA, SGB, Defesa Civil Nacional e Inpe.
Entre as prioridades estão o mapeamento das áreas mais vulneráveis, além da definição de estratégias de prevenção, preparação e resposta em conjunto com estados e municípios.
Do total previsto, R$ 998 milhões serão destinados a ações de abastecimento de alimentos, segurança alimentar, assistência à saúde e monitoramento hidrológico.
Na área ambiental, o combate aos incêndios florestais será reforçado por meio da Medida Provisória nº 1.367/2026, publicada em 12 de junho, que autorizou crédito extraordinário para ampliar a atuação do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima.
O plano também prevê R$ 25 milhões para o monitoramento dos níveis dos rios, R$ 65 milhões para a distribuição de 350 mil cestas de alimentos destinadas a povos e comunidades tradicionais, pescadores artesanais e agricultores familiares, além de R$ 13 milhões para o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), beneficiando cerca de 21,6 mil agricultores da Região Norte.
Apesar disso, William Borges destaca investimentos estruturais que deveriam ser permanentes, independentemente da ocorrência do El Niño:
- ampliação da rede de radares Doppler, estações meteorológicas automáticas, satélites e modelos de previsão;
- integração entre meteorologia, Defesa Civil, prefeituras, meios de comunicação e telefonia celular para emissão de alertas;
- investimentos em drenagem urbana, contenção de encostas, limpeza de córregos e obras contra enchentes;
- fortalecimento da segurança hídrica e energética;
- ampliação do seguro rural, crédito emergencial e assistência técnica à agricultura;
- preparação da rede de saúde para enfrentar ondas de calor, fumaça, enchentes e doenças respiratórias.
Segundo o geógrafo, o tornado registrado no Rio Grande do Sul demonstrou a necessidade de modernizar o sistema de monitoramento meteorológico.
“O radar utilizado estava distante, e seu feixe mais baixo passava a vários quilômetros de altura sobre a área atingida, dificultando a identificação da rotação próxima ao solo. Isso reforça a necessidade de ampliar a cobertura de radares meteorológicos no Brasil.”
Impactos no Triângulo Mineiro
Segundo William Borges, o El Niño já influencia o clima brasileiro, principalmente as temperaturas. No Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba, porém, os efeitos devem se intensificar entre agosto e setembro, atingindo o pico durante a primavera, especialmente entre outubro e dezembro de 2026.
Até setembro, as principais preocupações são:
- temperaturas acima da média;
- ondas de calor antecipadas;
- baixa umidade do ar;
- vegetação mais seca;
- aumento dos incêndios e da fumaça;
- redução da umidade do solo e dos níveis de córregos e reservatórios.
“Na primavera, o maior risco não é necessariamente uma falta completa de chuva, mas uma estação chuvosa irregular. As primeiras chuvas podem atrasar, ocorrer de forma mal distribuída ou ser interrompidas por veranicos. Ao mesmo tempo, quando houver combinação de calor e umidade, poderão ocorrer tempestades intensas, com raios, granizo, vendavais e chuva forte em curto período. Para o Sudeste, a previsão da quantidade total de chuva possui mais incerteza do que para o Sul, pois também depende das condições do Oceano Atlântico e de sistemas atmosféricos regionais.”
No dia a dia da região, o fenômeno poderá provocar:
- maior desconforto térmico;
- piora da qualidade do ar;
- aumento do consumo de água e energia;
- maior risco de queimadas;
- prejuízos à agricultura e ao abastecimento;
- alta no preço de alguns alimentos;
- interrupções no fornecimento de energia;
- alagamentos e enxurradas durante tempestades intensas.
Para reduzir esses impactos, William Borges defende investimentos em:
- ampliação da rede de estações meteorológicas, radares e sistemas municipais de alerta;
- fortalecimento das brigadas de combate aos incêndios no Cerrado;
- preservação de nascentes e monitoramento de reservatórios;
- melhorias na drenagem urbana;
- apoio aos produtores rurais por meio de seguro, irrigação eficiente e informações agrometeorológicas;
- preparação da rede hospitalar para enfrentar ondas de calor, baixa umidade e aumento das doenças respiratórias.
“O mais importante é que esses investimentos sejam estruturais e contínuos, e não apenas liberados depois que o desastre já ocorreu.”
O que é o El Niño?
De acordo com o Cemaden, o El Niño é um fenômeno atmosférico-oceânico associado ao aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Tropical, principalmente nas regiões central e leste, próximas à linha do Equador e ao Peru. Esse aquecimento altera a circulação da atmosfera e modifica os padrões de chuva e temperatura em diversas partes do planeta.
No mês passado, o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) informou que os indicadores observados no Oceano Pacífico apontam para um cenário cada vez mais favorável ao desenvolvimento de um novo episódio do fenômeno, que poderá influenciar o clima em todo o país e aumentar o risco de eventos extremos.
Pesquisadores internacionais também acompanham esse cenário. Modelos climáticos indicam elevada probabilidade de desenvolvimento do fenômeno nos próximos meses, embora ainda exista incerteza quanto à intensidade final.
Segundo William Borges, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) estima 97% de probabilidade de o El Niño permanecer ativo até o início de 2027 e 81% de chance de atingir intensidade muito forte entre outubro e dezembro de 2026.
Ele ressalta que, quanto mais intenso o fenômeno, maiores são as chances de ocorrência de seus efeitos característicos, embora isso não signifique que todos os locais serão atingidos nem que todos os eventos extremos sejam consequência direta do El Niño.
Até o fim do ano, os principais riscos são:
- Sul: chuvas frequentes, enchentes, deslizamentos e tempestades severas;
- Centro do Brasil: calor acima da média, baixa umidade, atraso ou irregularidade das chuvas e incêndios;
- Norte e parte do Nordeste: estiagem, redução do nível dos rios e dificuldades no abastecimento;
- Sudeste: ondas de calor e maior irregularidade na distribuição das chuvas.
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