“Peguei meu passaporte e saí”, conta estudante mineira após terremoto na Colômbia

Estudante de Geografia da UFMG, Elisa Exmalte, de 21 anos, estava em intercâmbio em Bogotá quando o tremor foi sentido na capital; epicentro ficou em San José del Palmar, no oeste do país

, em Uberlândia

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O que parecia ser apenas uma tontura fez Elisa Exmalte, de 21 anos, pular da cama e correr para fora de casa em Bogotá, na Colômbia. A estudante mineira estava dormindo quando um terremoto de magnitude 7,4 começou a sacudir o quarto, na manhã desta segunda-feira (10).

“Eu acordei na metade do tremor. Quando eu levantei da cama, eu abaixei porque eu não estava conseguindo ficar em pé por conta do movimento. Era um movimento muito forte”, contou.

O barulho do vidro do box e o movimento da cama fizeram Elisa perceber que não estava tonta. Ela estava vivendo um terremoto. O tremor começou pouco depois das 7h30, durou entre 90 segundos e dois minutos e também foi sentido na capital colombiana, a cerca de 300 quilômetros do epicentro.

A estudante, que cursa Geografia na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e está em intercâmbio na Universidade do Rosário, precisou decidir em poucos segundos se buscaria abrigo dentro do imóvel ou tentaria escapar para a rua.

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terremoto na Colômbia - estudante mineira
Por alguns segundos, Elisa ficou sem saber o que fazer. Antes de viajar, ela já estudava a atividade sísmica da região – Créditos: Reprodução/Redes Sociais

Entre a mesa e a rua

Por alguns segundos, Elisa ficou sem saber o que fazer. Antes de viajar, ela já estudava a atividade sísmica da região e sabia que poderia procurar abrigo sob um móvel resistente ou deixar o imóvel, caso houvesse condições seguras. Ela chegou a se abaixar para entrar debaixo de uma mesa. Mas ouviu outras pessoas tentando sair da casa.

“O corredor estava livre, as pessoas estavam conseguindo andar. Então, eu fiquei um pouco mais tranquila em tentar sair”, relatou.

Elisa pegou apenas o que considerava essencial antes de deixar o imóvel. “Eu peguei meu telefone, peguei meu passaporte e a chave da casa e eu saí correndo para o lado de fora para poder encontrar com o resto do pessoal.”

Na rua, encontrou dezenas de pessoas. Apesar do susto, a situação em Bogotá era diferente do que ela descobriria mais tarde. “A rua inteira estava cheia de gente, mas as pessoas não pareciam estar tão desesperadas. Não teve nada, nenhuma destruição, nenhuma vítima aqui em Bogotá”, contou.

O susto em Bogotá escondia uma tragédia maior

Depois que o tremor passou, Elisa voltou para casa e começou a acompanhar as informações divulgadas pelas autoridades colombianas. As primeiras informações sobre a magnitude ainda divergiam. Ela encontrou registros de 6,6, enquanto outras fontes já apontavam 7,4.

Com a atualização dos dados, também ficou mais clara a dimensão dos impactos. O epicentro foi registrado em San José del Palmar, no departamento de Chocó, no oeste da Colômbia. Casas foram danificadas e prédios desabaram em áreas atingidas pelo tremor.

Na capital, os impactos foram menores. “Eu não vi nada, porque aqui em Bogotá não teve nada. Não teve nenhum prédio que desabou, no máximo alguma rachadura, alguma coisa assim, mas nada muito grave”, explicou.

A diferença entre o que ela havia acabado de sentir e o que ocorria em outras partes do país começou a assustá-la. “Depois começaram a chegar as informações das cidades ali, Manizales, Cali, que foram cidades que foram muito atingidas”, disse.

“Foi o mesmo episódio que eu vivi”

O terremoto matou 294 pessoas, segundo a Unidade Nacional para a Gestão do Risco de Desastres (UNGRD). O órgão também contabiliza 320 desaparecidos, 3.935 feridos, 14.493 casas destruídas e 81.506 danificadas.

Para Elisa, a dimensão dos números mudou a forma como ela enxergava o que havia acabado de acontecer. “Foi batendo um pouco de um desespero, de parar para pensar que o mesmo episódio que eu vivi aqui foi um episódio que causou tanta destruição no oeste do país”, destacou.

Enquanto ela estava em uma rua de Bogotá, tentando entender o que havia acontecido, equipes de resgate procuravam sobreviventes nos escombros em outras regiões. “É muito assustador parar para pensar que foi o mesmo evento que eu vivi e que eu estou bem e que na minha região absolutamente nada aconteceu, além de tremer, enquanto tem cidades completamente destruídas.”

Um terremoto de magnitude 7,4 atingiu a Colômbia nesta segunda-feira (10), provocou desabamentos e deixou pelo menos 20 mortos
Um terremoto de magnitude 7,4 atingiu a Colômbia nesta segunda-feira (10), provocou desabamentos e deixou pelo menos 100 mortes – Crédito: Reprodução/X

Ela estudava terremotos — até sentir um

A experiência ganhou outro significado porque Elisa cursa Geografia na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e está em intercâmbio na Universidade do Rosário, em Bogotá.

Há cerca de três anos, ela acompanha informações sobre terremotos, pesquisa os impactos dos tremores e busca entender como esses fenômenos acontecem.

Antes de viajar para a Colômbia, inclusive, pesquisou sobre a atividade sísmica da região. “Foi uma experiência muito diferente saber que eu estava pesquisando por um terremoto que eu vivi”, relembrou.

Depois do tremor, ela também buscou entender o fenômeno que havia acabado de sentir. A movimentação está relacionada à dinâmica tectônica da região, marcada pela interação entre a placa Sul-Americana e a placa de Nazca.

Mas nenhuma pesquisa havia preparado Elisa para a sensação de estar dentro de um terremoto. “É uma coisa muito forte e é uma coisa indescritível. Eu não sei descrever direito o que é essa sensação”, avaliou

Ela encontrou uma comparação cotidiana para tentar explicar o movimento. “Parece que você está num ônibus que está num morro, fazendo controle de embreagem, não consegue acertar direito e fica nessa coisa de você ficar indo para frente e para trás”, explicou.

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“Minha mãe me manda mensagem até agora”

Assim que conseguiu chegar a um local seguro, uma das primeiras preocupações de Elisa foi avisar a família em Minas Gerais. Ela contou que estava bem e que não havia percebido danos na região onde estava.

A mãe, porém, continuou acompanhando as atualizações. “A minha mãe, em específico, ela me manda mensagem até agora, assim, a cada meia hora ela me manda mensagem perguntando se eu estou bem, se aconteceu mais alguma coisa”, observou.

Uma madrinha chegou a dizer que, caso Elisa não se sentisse segura, poderia voltar para Belo Horizonte. Mas a estudante decidiu permanecer em Bogotá. “Eu garanti para eles que aqui eu estou segura.”

O que mais a tranquilizou foi a reação das pessoas depois do tremor. Assim que a terra parou de balançar, moradores voltaram para dentro das casas. “Algumas pessoas foram para a cozinha para fazer um café, como se nada tivesse acontecido.”

“A força da Terra”

Mesmo a centenas de quilômetros do epicentro, Elisa ficou impressionada com a intensidade do tremor. “Para mim, a coisa principal é saber da força da Terra. O epicentro foi a mais de 200 quilômetros daqui e a força que eu senti aqui foi algo muito grande”, esclareceu.

O tremor também foi sentido em outros países da região e, segundo relatos divulgados após o terremoto, chegou a ser percebido a milhares de quilômetros de distância.

Para a estudante, sentir a terra se movimentar mudou a maneira como ela enxerga um fenômeno que, até então, conhecia principalmente pelos livros, pesquisas e notícias. “É uma coisa muito surreal e realmente parar para pensar que a Terra tem essa força.”

Agora, entre as pesquisas da faculdade e o intercâmbio em Bogotá, Elisa carrega também uma experiência que antes conhecia apenas pela teoria: acordar no meio de um terremoto, olhar para o quarto tremendo e ter poucos segundos para decidir o que fazer.

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