Noelia Castillo morre por eutanásia após vencer pai na justiça

Após cerca de 600 dias de disputa judicial, espanhola de 25 anos, paraplégica, obteve o direito à morte assistida; "só quero paz", declarou em sua última entrevista

, em Uberlândia

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A jovem espanhola Noelia Castillo Ramos, de 25 anos, morreu na noite desta quinta-feira (26) em uma unidade médica em Sant Pere de Ribes, Barcelona, após uma batalha judicial de quase dois anos pelo direito à eutanásia. Paraplégica e vítima de dores crônicas após uma tentativa de suicídio decorrente de uma agressão sexual, a jovem enfrentou a oposição do pai para exercer o direito de morte assistida.

Noelia Castillo
Noelia Castillo, de 25 anos, durante entrevista à emissora antes do procedimento de eutanásia – Crédito: Antena 3/Reprodução

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A trajetória de Noelia foi atravessada por uma sequência de eventos traumáticos. Em tratamento psiquiátrico desde a adolescência, ela enfrentava um histórico de sofrimento emocional que se agravou após sofrer violência sexual.

Em outubro de 2022, tentou suicídio ao se lançar de um prédio. A queda causou uma lesão severa na medula, resultando em paraplegia. Desde então, passou a depender de cadeira de rodas e a conviver diariamente com dores físicas persistentes e de alta intensidade.

Embate jurídico entre Noelia Castillo e o pai

Diante de um quadro de “sofrimento mental e físico sem possibilidade de alívio”, Noelia recorreu à Lei da Eutanásia da Espanha. O processo tornou-se uma guerra nos tribunais. Seu pai, apoiado pela organização cristã Christian Lawyers, alegava que a condição psiquiátrica da filha a impedia de tomar uma decisão lúcida. No entanto, perícias médicas independentes confirmaram que ela estava “capaz e consciente”.

Após 601 dias de avaliações médicas e contestações, o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos rejeitou o último recurso da família, confirmando que Noelia atendia a todos os critérios legais, era maior de idade, estava consciente e sofria de uma condição incurável.

Declarações antes da morte

Dias antes do procedimento, Noelia concedeu uma entrevista à emissora Antena 3, onde reafirmou sua convicção. Para ela, a manutenção de sua vida era uma forma de prolongar uma tortura. “Só quero partir em paz e parar de sofrer”, disse ela. “É só isso… não posso fazer mais nada. Não quero sair, não quero comer, não quero fazer nada.”

Sobre a resistência da família, Noelia foi categórica ao afirmar que sua autonomia deveria prevalecer. “A felicidade de um pai ou de uma mãe não deve estar acima da felicidade de uma filha. […] Consegui e vamos ver se, finalmente, posso descansar, pois já não aguento mais. Não aguento mais essa família, não aguento mais essa dor e não aguento mais tudo que está me atormentando.”

A jovem ainda descreveu um profundo sentimento de isolamento social e falta de perspectiva diante do mundo atual. “Sempre me senti sozinha, nunca me senti compreendida, nunca tiveram empatia comigo. Não gosto do rumo que o mundo e a sociedade estão tomando; prefiro desaparecer”, declarou.

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O que diz a lei de eutanásia na Espanha

A legislação espanhola sobre eutanásia está em vigor desde 2021 e estabelece critérios rigorosos para autorização. Segundo a norma:

  • O paciente deve ser maior de idade;
  • Precisa apresentar uma condição grave e incurável ou crônica incapacitante;
  • Deve estar “capaz e consciente” no momento da decisão;
  • É necessário passar por avaliações médicas independentes;
  • O pedido deve ser feito formalmente mais de uma vez.

O processo inclui análise por um comitê regional de especialistas antes da aprovação final.

Dados do Ministério da Saúde da Espanha indicam que 1.123 pessoas realizaram morte assistida entre junho de 2021 e o fim de 2024.