Avibras: como a fabrincante brasileira de armas chegou às mãos dos irmãos Batista

Empresa de Jacareí passou por recuperação judicial e greve de mais de três anos antes de o controle ser vendido à holding dos irmãos Batista.

, em Uberlândia

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Nesta sexta-feira (21), a Avibras, fabricante de armamentos de guerra com décadas de história no interior paulista, informou ao mercado que 100% das ações de sua controladora, a Nova AVB S.A., foram vendidas para a Globe Investimentos, braço do Grupo J&F usado pelos irmãos Joesley e Wesley Batista para diversificar negócios fora da JBS. Por trás da venda existe uma história de quase colapso, seguida por uma reconstrução conduzida por credores e investidores privados.

J&F, de Wesley e Joesley Batista, compra fabricante de armas de guerra Avibras
A Avibras pediu recuperação judicial em março de 2022, devido a uma crise financeira, alegando estar com dívidas de 600 milhões de reais – Crédito: Roosevelt Cássio/Sindicato dos Metalúrgicos.

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O negócio ainda não está fechado. A própria Avibras esclareceu que a operação depende de aval do Conselho Administrativo de Defesa Econômica, o Cade, além do cumprimento de outras exigências para que a transferência de controle se concretize. A Globe já havia sido usada pelos Batista em outra aquisição relevante, a participação na siderúrgica Usiminas.

Anos de recuperação judicial pesaram sobre a Avibras

A crise que levou a Avibras a esse ponto começou a se agravar em 2022, ano em que a companhia entrou formalmente em recuperação judicial. Os problemas financeiros se refletiram diretamente na rotina da fábrica em Jacareí, que chegou a interromper a produção, enquanto os trabalhadores enfrentavam uma greve que durou mais de três anos, um dos episódios mais longos já registrados no setor industrial brasileiro.

Manter viva uma empresa nessas condições não era trivial, especialmente por se tratar de uma fornecedora ligada a projetos considerados sensíveis para as Forças Armadas. Foi esse peso estratégico que empurrou credores a buscar um caminho alternativo ao simples encerramento das operações.

Divisão de ativos deu origem à Nova AVB

A solução veio por meio de uma engenharia societária. O Fundo Brasil Crédito assumiu a liderança de um plano alternativo dentro da recuperação judicial e, a partir dele, nasceu a Nova AVB, empresa que passou a reunir o que havia de mais valioso na Avibras: o parque industrial e a tecnologia desenvolvida ao longo de anos.

Já a companhia original ficou apenas com as dívidas ainda em discussão no processo judicial. Essa separação explica por que o negócio fechado com os Batista não envolve a Avibras histórica em si, mas sim o controle da Nova AVB, hoje detentora dos ativos que interessam ao mercado.

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Dinheiro privado bancou a volta da produção

Reorganizar a estrutura societária não bastava sem capital para religar as máquinas. Essa parte veio de uma captação de R$ 300 milhões articulada pelo Fundo Brasil Crédito junto a investidores privados, entre eles Joesley Batista, que assinou contrato de participação meses antes de assumir o controle da companhia. O valor exato aportado por ele não foi revelado.

Com esse aporte, a unidade da Avibras Aeroco, em Jacareí, retomou as atividades em maio deste ano, encerrando um longo período de paralisação. A retomada teve repercussão política: em julho, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva visitou a planta e sinalizou que o governo pretendia aumentar as encomendas destinadas à empresa, como parte do esforço de fortalecer a base industrial de defesa do país.

Menos de quatro meses depois de a fábrica voltar a funcionar, a companhia já muda de controlador, o que mostra a velocidade com que o interesse de grandes grupos se voltou para o setor.

Projetos militares explicam o valor estratégico da Avibras

O interesse por trás da compra também tem explicação técnica. A empresa é responsável pelo sistema de foguetes Astros, um dos produtos mais conhecidos da indústria bélica nacional, além de conduzir o desenvolvimento do MTC-300, um míssil tático de cruzeiro. Some-se a isso contratos de interesse direto das Forças Armadas e um histórico de exportação de equipamentos militares para outros países.

Esse caráter sensível chamou a atenção do Congresso Nacional antes mesmo de a venda ser confirmada. Em agosto, a Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara dos Deputados aprovou um requerimento pedindo esclarecimentos ao Ministério da Defesa sobre o andamento da negociação e a situação da empresa.

Para a J&F, o negócio representa um passo fora do território conhecido, já que o grupo historicamente concentra suas operações em alimentos, energia, mineração e serviços financeiros. A Avibras, em nota, disse que seguirá atualizando o mercado sobre os próximos passos da operação.

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