Maternidade por adoção: os desafios da preparação legal e a construção do afeto diário

O quarto e último episódio da série "Modo Mãe Ativado" aborda a construção diária do afeto, os caminhos da parentalidade escolhida e o suporte necessário para a transição familiar

, em Uberlândia

A maternidade é uma das experiências mais profundas da existência humana. Em Uberlândia, esse tema ganha novos contornos no quarto e último episódio da série Modo Mãe Ativado, idealizada pelo Veiling Holambra e exibida pela TV Paranaíba. Afastando-se dos manuais românticos, as entrevistadas desmistificam a ideia de que o amor materno é instantâneo ou puramente instintivo, revelando que a relação entre mãe e filho é um processo de cultivo diário, composto por afetos, medos e descobertas.

Crédito: Divulgação/TV Paranaíba

A apresentadora Mônica Cunha recebeu Sara Vargas, presidente da organização não governamental (ONG) Pontes de Amor, e a servidora pública Raquel Guimarães. Juntas, debateram os trâmites legais, o período de espera e a desmistificação dos preconceitos que cercam a adoção legal no Brasil.

Assista o quarto episódio da série Modo Mãe Ativado aqui:

O amor como construção psíquica 

A trajetória de Raquel com a filha, Larissa, começou em dezembro de 2010 por meio de um projeto de acolhimento temporário para as festas de fim de ano. À época, Larissa tinha 6 anos. O impacto do convívio de apenas três dias transformou a dinâmica do casal. Raquel relembra com emoção o momento em que foram levá-la de volta à instituição após o Natal: “Meu marido com ela no colo, ele não conseguiu entrar lá dentro para entregá-la ali mesmo. Ele falou: ‘Ela vai ser nossa filha’. E eu como trabalho no fórum, conhecedora dos ditames jurídicos, falei para ele: ‘Amor, você não pode falar assim para ela’.”

O processo judicial e a habilitação do casal estenderam-se até 2012, quando a menina, então com 8 anos, passou a integrar legalmente a família. Para Raquel, a conexão foi imediata e espiritual: “Foi um encontro que a gente não escolheu. Nós nos habilitamos, mas nos habilitamos especificamente para ela… Não acredito que exista acaso. Acho que existem situações que o homem lá de cima já deixa tudo escrito.”

Hoje, aos 22 anos, Larissa já viveu mais da metade de sua vida com os pais adotivos. Raquel reforça a solidez desse vínculo construído no dia a dia: “Larissa chegou com quase 9 anos de idade, mas eu sempre tive a certeza de que se perguntar quem é a sua mãe, ela vai me apontar como mãe dela.”

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A preparação jurídica, o suporte emocional e o papel do acolhimento

A preparação jurídica e o suporte emocional são pilares fundamentais nessa transição. A ONG Pontes de Amor, em parceria com a Vara da Infância e da Juventude, oferece cursos preparatórios obrigatórios, além de acompanhamento psicológico, psicopedagógico e social antes e após a chegada dos filhos.

Sara Vargas explica que o processo da adoção mexe com feridas profundas, tanto dos pretendentes quanto dos filhos que chegam: “As pessoas quando chegam, algumas já chegam porque já tiveram seus filhos e têm o desejo de adotar, mas muitas chegam porque tiveram dificuldades para gerar… Então são pessoas que muitas vezes já chegam com muitas dores, com muitos preconceitos, com medo desses preconceitos. E eu creio que esse acolhimento é fundamental, porque a informação vai realmente quebrando esses mitos.”

Além disso, Sara aponta que as crianças e os adolescentes assistidos chegam com históricos de abandono ou violência, o que exige das novas famílias uma compreensão madura para lidar com as marcas do passado: “Ninguém vem para a adoção porque viveu um mundo de mil maravilhas. Eles sofreram dores, situações de abandono, de negligência, de violências. E isso deixa marcas na vida da criança que impactam nas relações. É muito importante que as famílias adotivas sejam preparadas e acompanhadas, porque senão elas podem interpretar de forma equivocada o comportamento da criança (…) como algo de rejeição, e não é. Muitas vezes são os medos, os receios, as marcas desses traumas.”

Desafiando os preconceitos e o racismo velado

Raquel, que é negra, e seu marido, que é branco, formaram uma família multirracial com Larissa, que tem a pele branca. Sara Vargas aponta que a sociedade ainda despeja comentários invasivos e preconceituosos sobre essas famílias: “É comum ouvirem: ‘Qual desses filhos é o seu mesmo?’ ou ‘Você tem certeza? Cuidado, você vai trazer problemas dos outros para dentro da sua casa’.”

Diante disso, Sara defende que as famílias não devem carregar fardos sociais: “As famílias adotivas não precisam ter o peso de provar para a sociedade que a adoção dá certo. Adoção é família. E família tem hora que dá certo, tem hora que é meio atrapalhada, mas a gente vai tentando se arrumar.”

Raquel destaca que a base da criação recebida de seus pais a permitiu enfrentar as barreiras com naturalidade e altivez: “Acho que vem muito da educação que eu tive com os meus pais, que são negros, sempre de encarar de frente, fazer a sua parte, independente do que o outro pense. Mas é lógico que há um racismo muitas vezes velado, que machuca, que às vezes nos deixa desconfortáveis, mas a gente precisa pensar que a gente é muito além disso.”

Todo filho precisa ser adotado

O acolhimento e o acesso à informação são as principais ferramentas para desconstruir os tabus sociais. Acompanhando a visão de que a parentalidade é um exercício diário de dedicação, o episódio reforça que o amor vai muito além da consanguinidade.

Raquel encerrou sua participação citando uma das premissas mais bonitas defendidas pela Pontes de Amor:

“Independente do filho ser biológico ou por adoção, todo filho precisa ser adotado. Toda criança precisa ser adotada ali no seu coração, porque a gente sabe que existem filhos biológicos que são órfãos de pai e de mãe vivos. Então, quando a gente os adota e fortalece isso, não há preconceito que vá destruir essa relação.”