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“Religião, política e futebol não se discutem”

Compreender não significa concordar, abrir mão dos próprios valores ou fingir que todas as ideias têm as mesmas consequências. Significa distinguir divergência de agressão e escolher como se posicionar

Amanda Amude , em Uberlândia

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O almoço de domingo vai bem até alguém perguntar em quem a tia vai votar. Antes que ela termine de responder, uma prima comenta: “Não acredito! Você ainda pensa assim?”. Em poucos minutos a conversa deixa de ser sobre propostas e passa a ser sobre quem é inteligente, decente ou capaz de enxergar a realidade.

A política toca em temas que organizam a vida coletiva: direitos, segurança, economia, educação e o futuro que desejamos. Também se liga à nossa história de vida, aos nossos valores e aos grupos com os quais nos identificamos. Por isso, uma crítica a uma posição política pode ser sentida como um ataque pessoal. A pessoa já não está apenas defendendo uma ideia, mas também está defendendo aquilo que aquela ideia representa para ela.

Quando isso acontece pensamento e emoção trabalham juntos. Uma fala que parece ameaçar nossos valores ou nosso grupo pode aumentar a necessidade de responder, justificar e proteger a própria posição. A atenção se volta para o que confirma o conflito e a escuta fica mais difícil. Isso não significa que a razão desapareça, mas que, naquele momento, ela também pode ser usada para sustentar aquilo em que já acreditamos.

Religião política e futebol
Foto: Divulgação

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É assim que a conversa cai no “8 ou 80”: “ou está comigo ou está contra mim”, “ou pensa como eu ou não tem caráter, inteligência ou bom senso”. A curiosidade sobre o posicionamento do outro dá lugar à procura por erros e frases que garantam a vitória na discussão.

Nas redes sociais esse movimento ganha velocidade e amplitude. Comentários curtos, acusações e respostas imediatas circulam com facilidade. Quando encontramos repetidamente mensagens que confirmam nossa visão, podemos começar a enxergar o outro lado apenas por meio das imagens mais extremas e a diferença parece ainda maior.

E não para por aí, a linguagem participa do que acontece entre as pessoas. Todo pensamento carrega um sentimento atrelado, que produz uma química no corpo e modula as ações. Nesse caso, chamar quem diverge de inimigo, ignorante dificulta a escuta ativa e alimenta a defesa. “Como você pode pensar assim?” costuma soar como condenação. “O que nessa questão é tão importante para você?” abre espaço para compreender antes de rebater.

Compreender não significa concordar, abrir mão dos próprios valores ou fingir que todas as ideias têm as mesmas consequências. Também não significa aceitar ofensas em nome da convivência. Significa distinguir divergência de agressão e escolher como se posicionar.

É possível dizer: “Eu penso diferente e quero conversar, mas não aceito ser ofendida”. Essa frase sustenta uma posição e estabelece um limite sem transformar automaticamente o outro em inimigo.

Conviver com quem pensa diferente exige perceber quando estamos tentando compreender e quando estamos apenas tentando vencer. Exige reconhecer a pessoa inteira, sem reduzir sua história a uma opinião e sem abandonar os próprios valores para manter a paz.

Uma reflexão nesse momento é: quando alguém pensa diferente de mim, consigo sustentar minha posição sem transformar essa pessoa em inimiga e sem abandonar a mim mesma para preservar a relação? Essa pergunta nos leva à autonomia. Autonomia não é controlar o que o outro pensa, nem evitar divergências, mas é reconhecer o que acontece em mim, compreender o que penso e sinto e escolher como agir: escutar, me posicionar, estabelecer um limite ou encerrar a conversa.

Autonomia é participar ativamente das decisões sobre a própria vida, mesmo diante daquilo que não controlamos. Em uma conversa difícil, isso significa preservar a própria voz sem perder de vista a pessoa que está diante de nós.

 

Por Amanda Amude
Psicóloga clínica e palestrante

 

*Esse é um artigo independente e não reflete, necessariamente, a opinião do Portal.

 

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