Quando o trabalho deixou de caber no horário de trabalho?
A tecnologia ampliou a flexibilidade, mas também tornou menos claros os limites entre jornada, disponibilidade e descanso
O expediente terminou. Você fecha o computador, pega o celular e encontra uma mensagem sobre o trabalho. Não parece urgente. Também não parece demorada. É só uma pergunta. Você responde.
Pouco depois chega outra. Alguém aproveita que o assunto começou e envia um áudio. Surge uma dúvida no grupo. Quando percebe, você voltou ao trabalho sem ter voltado oficialmente ao trabalho.
Essa cena se tornou tão comum que muitas vezes nem é percebida como uma extensão da jornada.

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A tecnologia facilitou uma parte importante da nossa vida profissional. Podemos resolver problemas à distância, trabalhar de lugares diferentes, acessar informações rapidamente e conversar com pessoas que não estão fisicamente conosco. O problema não está na tecnologia.
Está na fronteira que deixamos de discutir.
Durante muito tempo, sair do local de trabalho também significava criar uma separação física entre o expediente e a vida pessoal. Hoje, o trabalho pode nos acompanhar no bolso.
E-mail, WhatsApp, Teams e outras ferramentas não conhecem horário comercial. Pessoas e organizações, sim.
Há uma diferença importante entre poder ser localizado e precisar estar disponível.
Uma mensagem enviada às 21 horas pode parecer inofensiva para quem envia. Para quem recebe, porém, pode produzir uma dúvida bastante concreta: esperam que eu responda agora?
Nem sempre essa expectativa é expressa. Em muitos ambientes, ela vai sendo construída pelo comportamento. Um responde rapidamente. Outro percebe. O gestor também responde. Aos poucos, estar disponível começa a ser associado a comprometimento.
É assim que uma facilidade tecnológica pode se transformar em uma regra informal de trabalho.
A própria legislação brasileira já precisou acompanhar parte dessa mudança. Na regulamentação do teletrabalho, a CLT prevê que empregado e empregador podem estabelecer os horários e os meios de comunicação que serão utilizados, desde que respeitados os repousos legais. A existência dessa previsão mostra que a forma como nos comunicamos passou a fazer parte da discussão sobre a organização do trabalho.
Só que essa não é apenas uma questão jurídica.
É também uma questão de gestão.
Ao longo de mais de 25 anos trabalhando com gestão de pessoas, acompanhei muitas práticas organizacionais que não nasceram de uma decisão formal. Elas simplesmente foram se instalando no cotidiano.
Ninguém precisa escrever uma política dizendo que todos devem responder mensagens à noite para que as pessoas entendam que isso é esperado. Basta observar quem recebe reconhecimento por estar sempre disponível, como a liderança se comporta e o que acontece quando alguém responde apenas no dia seguinte.
O comportamento da liderança tem um peso especial nisso. Quando um gestor envia uma mensagem fora do horário, pode pensar: “a pessoa responde amanhã”. Quem recebe não necessariamente conhece essa intenção.
Existe hierarquia naquela mensagem.
Isso não significa que empresas devam proibir qualquer comunicação depois de determinado horário. Há negócios com turnos diferentes, operações contínuas, equipes distribuídas e situações que realmente exigem contato fora do expediente.
O problema começa quando ninguém mais consegue distinguir a exceção da rotina.
Essa fronteira precisa ser construída de forma consciente. O que realmente é urgente? Quem precisa ser acionado? Em quais situações? Qual canal deve ser utilizado? Uma mensagem enviada fora do expediente exige resposta imediata ou pode aguardar o próximo período de trabalho?
Não são perguntas sofisticadas. Ainda assim, poucas organizações deixam essas respostas suficientemente claras.
Também não adianta orientar as pessoas a não responderem fora do horário se o comportamento cotidiano premia exatamente quem permanece acessível. A cultura de uma empresa não se forma apenas pelas regras que ela escreve. Também se forma pelo comportamento que se repete, pelo que é reconhecido e pelo que, aos poucos, passa a ser esperado.
Flexibilidade foi uma conquista importante das transformações recentes do trabalho. Ela ajudou a questionar a ideia de que produtividade depende necessariamente de presença física e horário rígido. Mas flexibilidade não deveria significar ausência de limites.
A discussão sobre o futuro do trabalho costuma olhar para inteligência artificial, automação, novos modelos de carreira e profissões que ainda serão criadas. Há uma transformação muito mais silenciosa acontecendo ao mesmo tempo: estamos redefinindo quando o trabalho começa e quando ele termina.
A tecnologia tornou possível trabalhar de praticamente qualquer lugar.
Isso não deveria significar trabalhar a qualquer hora.
Por Shirley Borges
Psicóloga, pedagoga, executiva de RH e professora universitária, com mais de 25 anos de experiência em gestão de pessoas e desenvolvimento humano.
*Esse é um artigo independente e não reflete, necessariamente, a opinião do Portal.
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