Como perder um navio em Buenos Aires
O táxi era 35 dólares, eu iria dar 50, mas ele não tinha troco pra minha única nota de 100 dólares. Não possuia pix nem conta em banco

O escritor paraibano Ariano Suassuna, em um vídeo divertido, explica que tudo o que é bom de passar, é ruim de contar. Por exemplo, se você for contar para um amigo como a vida está boa neste ano: no dia primeiro de janeiro, foi tudo bem; no dia 2, foi ótimo; no dia 3, foi bom também. O amigo só consegue escutar até o dia 4. Por outro lado, ele completa que tudo o que é ruim de passar, é bom de contar. Por isso, vou contar uma coisa ruim, que aconteceu na minha recente viagem em um navio de cruzeiro.
Tudo começou quando, com um grande grupo que iria comemorar a bordo o aniversário de uma amiga, embarcamos em Santos no navio Costa Diadema, para um cruzeiro de sete dias. Seguimos para Itajaí, Montevidéu e Buenos Aires, onde os passageiros podiam descer e retornar em determinados horários. Cada passageiro possuía um cartão magnético com vários dados. Sem ele, a gente não era ninguém. Mesmo com ele, a gente era insignificante, pois havia 4.250 passageiros a bordo e 1.253 tripulantes. Era cada um por si e Deus por todos. Quando chegávamos em algum porto, a multidão ia descendo dos vários conveses do navio (tinha 15 conveses acima do mar, três abaixo e 1.862 cabines de passageiros, imaginem!). Parecia uma boiada quando a porteira abria. Todos passavam por funcionários na porta de saída, que registravam o cartão pra saber quem tinha deixado o navio.
Dentro desse contexto (de você desaparecer e nem fazer diferença), descemos em Itajaí e Montevidéu e o passeio foi muito bom. Então, como diria Ariano Suassuna, é ruim de contar. O drama aconteceu em Buenos Aires. Eu comprei uma excursão organizada pelo navio. O ônibus da excursão saiu às 9h e retornou às 14h30. Visitamos a praça da Casa Rosada, o bairro Caminito e a Calle Florida. O horário de regresso ao navio era até às 18h30, então resolvi ficar com outros grupos para conhecer diferentes locais. Assim, perguntei à guia da excursão, que falava português, qual o nome do porto para o qual eu deveria retornar. Ela disse, com todas as letras: “Benito Martinez Terminal Fluvial” e anotei no meu caderninho. Fomos um grupo maior para o lindo bairro Palermo. Depois, nos dispersamos e fiquei com o neto Yuri, de 16 anos e a neta Yara, de 14, quando então fomos visitar o Jardim Botânico, um lugar de paz e beleza, com árvores frondosas. Antes de irmos para lá, os netos almoçaram chorizo, frango com batatas e duas limonadas, por $59.840,00 pesos argentinos (um real vale 200 pesos e um dólar, 1.100 pesos). Ou seja, dois pratos simples por R$300,00, tudo está caríssimo na Argentina.
Bem, continuando, vi que o meu celular estava quase descarregado (mas estava 100% quando deixei o navio) e às 16h45 comecei a procurar Uber para regressar ao porto. Colocava o nome informado pela guia e não aparecia aquele porto. Não havia tempo para confirmar com ninguém, 2% de bateria. Chamei mesmo assim, confiando que o motorista saberia onde era aquele porto tão importante, no qual desembarcavam centenas de pessoas diariamente. Mostrei o nome do porto escrito no caderninho, o meu cartão do cruzeiro, expliquei tudo. Ele disse: “Sé dónde es, sé dónde es” e lá fomos nós.
Tentei carregar meu celular para confirmar com alguém o endereço, usando o cabo do Uber, mas estava quebrado. Yara dormindo o sono dos justos. Yuri grudado no celular, mesmo sem internet, sem saber se estava na Terra ou em Marte. E olha que ele tinha ido a pé do navio para o bairro Palermo, com o meu filho. Mesmo depois de quarenta e cinco minutos no carro, ele não desconfiou que o caminho estava errado! Eu falei várias vezes para o motorista: – “Por favor, el camino está equivocado, está muy lejos, vamos a perder el crucero”. Mas ele não se importava, não parava e chegamos em outra cidade, em Tigre. Insisti que não era aquele porto, pedi para ele aguardar eu confirmar e voltarmos com ele. Disse que não iria voltar, que morava em Tigre e nos abandonou por lá, às 17h50. Saí pedindo informações pelo porto e cada minuto era importante. Seria uma hora de lancha até o navio. Ou então pegar o próximo trem. Não havia táxi por lá. Não tinha bateria no celular pra chamar Uber. Iria ficar em um país estranho com dois menores, sem passaportes (eles ficam retidos no navio), com uma nota de cem dólares e o cartão do banco na bolsa.
Como Deus é grande, encontrei uma lojinha que ajudava turistas. Relatei meu drama, bebi uma água, encontraram o nome correto do porto, chamaram um táxi e avisaram que não chegaríamos a tempo. O motorista, um senhor velhinho e desdentado, saiu a toda velocidade, e não trombamos e nem morremos pelo caminho (a esta altura, os netos estavam bem despertos). Carreguei o celular no táxi e avisei os dois filhos que era quase certo que perderíamos o navio. Conseguiram que fosse colocado um último ônibus, do porto ao navio, às 18h40, mas tínhamos que chegar até este horário. Chegamos às 18h37, aleluia! Graças ao velhinho, que deveria ser piloto de corrida. O táxi era 35 dólares, eu iria dar 50, mas ele não tinha troco pra minha única nota de 100 dólares. Não possuia pix nem conta em banco. Eu não tinha pesos. O navio quase saindo. Entreguei a nota de 100, saímos correndo e ele ficou olhando com um sorriso incrédulo.
Enfim, valeu a experiência e ficou a receita para perder um cruzeiro: 1-não saber o nome do porto; 2-celular descarregado; 3-netos adolescentes no mundo da Lua; 4-motorista de Uber sem ética e sem educação.
Passado o susto, registrei uma reclamação pelo fato da guia do próprio navio não saber o nome do porto. E por não existir nenhuma orientação do que fazer no caso de perder o navio. Como pedido de desculpas, ofereceram para nós quatro da cabine um jantar delicioso, com lagosta, carneiro, pato e salmão. E com um cozinheiro filipino que preparava os alimentos na nossa frente, cantando em inglês e fazendo acrobacias com facas e ovos.
No próximo texto, contarei como é singrar os mares olhando o pôr e o nascer do sol. Que o Ariano Suassuna me perdoe, mas tentarei prender a atenção dos leitores até o final, mesmo contando coisas boas.
Por Ana Maria Coelho Carvalho
Bióloga e professora aposentada
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