Qual o tamanho dos seus sonhos?
A professora Beloni entregou a cada uma de nós um pequeno pacote com uma frase presa e, atrás, o nome de uma das alunas

A aula terminou, mas desta vez não íamos embora. Esperaríamos pelas alunas da outra turma de bordado. A nossa se reúne aos sábados, e ali nos juntamos para aprender mais um pouco sobre cada ponto, criar novos riscos, conversar sobre a vida e tomar café com biscoito, pão de queijo e rosca — tudo o que alimenta muito mais do que o corpo.
Nesse dia, a Beloni, que tinha acabado de chegar de viagem, queria nos contar sobre o que viu em terras estrangeiras e como a arte da agulha, da linha e do tecido — ferramentas tão delicadas – é utilizada lá fora.
Do ateliê, fomos para a varanda. E ali, entre mais uma garrafa de café, bolo de chocolate, bolo de laranja, xícaras bem arrumadas e cadeiras dispostas quase em meia-lua, reuniram-se mulheres de tantas idades e de todas as histórias. A Beloni, professora de sempre — mesmo estando aposentada —, sugeriu uma dinâmica. Entregou a cada uma de nós um pequeno pacote com uma frase presa e, atrás, o nome de uma das alunas. A pergunta que vinha logo depois do laço da pequena caixa era: “Qual o tamanho dos seus sonhos?”.
Depois de cada aluna entregar o presente — que era o mesmo para praticamente todas nós: um dedal de costura —, acompanhado de palavras carinhosas e abraços demorados, fomos conversar a respeito daquela provocação.
Eu, que sempre fui tímida, respondi imediatamente:
— Há tempos não sonho.
E não me referia àquele sonho que aparece quando dormimos, mas àquele que a nossa alma pede e que, muitas vezes, achamos tão difícil, quase impossível. Escutei minha própria voz ecoar no vazio da minha caixa de sonhos. Aquilo me causou tristeza. Percebi o quanto, muitas vezes, somos engolidas pelas obrigações e preocupações, que nos roubam a capacidade de imaginar algo capaz de nos transportar para aquele lugar onde a alegria é plena, genuína e pura.
A discussão que se seguiu foi profunda. Observei e conheci os sonhos de outras pessoas, suas metas e as formas que encontraram para alcançá-los.
De lá para cá, acredite ou não, ainda não tracei nenhum. Mas eu quero. Eu preciso pegar um dos meus tantos cadernos e anotar qual será o próximo sonho — ou quantos mais couberem na página. Hoje, guardo um em especial. Não sei se será possível realizá-lo, pois não depende apenas de mim; esbarra também nos limites e tropeços do próprio país. Mas o simples gesto de voltar a desejar já começou a mudar o ar.
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