O ipê que insiste em florescer
Entre o concreto e a queda das árvores, uma força delicada lembra que o amanhã ainda pode ser leve
O primeiro que vi me fez reacender a face. Ali, pleno entre o concreto do asfalto e o mercado em caixa. Me comoveu diante da beleza persistente.
Ele está entre tantos outros que tomaram conta da minha vista e despertaram uma alegria genuína.
Foi tudo de uma vez, numa hora e meia. Um transbordar de flores leves e claras saindo do lugar mais improvável: tronco seco, retorcido, galhos quase quebradiços — uma fragilidade que surpreende pela força de segurar tantas flores.
Esse ano os ipês brancos foram generosos. Engordaram para os lados e para cima, exibiram-se sem pudor, em meio à gente que passa desvairada, fazendo o que muitas vezes nem sabe pra quê.

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Eu descia de carro — tinha saído mais cedo do trabalho — e na avenida eles estavam de um lado e de outro, me deixando inquieta no banco, sem coordenação nenhuma pra achar a câmera do celular. Foi por um desvio de rota que vi o que eu nunca pensei que existisse: uma fileira deles bem à minha frente.
Dei a volta, longa e tortuosa, até chegar perto. A família de ipês, ali, na curva de uma esquina. Por sorte havia vaga, parei o carro e quase não acreditei naquela exuberância.
Junto comigo chegou um pássaro — de cauda longa e pés delicados, saltando entre os galhos. Contive minha euforia pra não espantar meu companheiro de observação: ele lá em cima, tão abraçado pelas flores, e eu ali embaixo, pisando com cuidado no tapete que a chuva delas tinha formado.
Senti uma felicidade tão intensa, quase infantil, por descobrir aquele canto de paz, de quase primavera.
Os ipês tomaram conta da minha semana inteira. Prolongaram-se em mim, mesmo sem estar plantados no meu chão.
Um dia depois, meu peito pesou. Tinha visto, com o coração encolhido, quatro sibipirunas serem derrubadas — cortadas na raiz, levando embora a sombra e o pouco sopro de vida que nos restava. O quarteirão por onde passo para ir trabalhar ficou feio, mais cinza, ficou ausente de graça.
Mas o ipê branco não pede licença ao ceticismo. E Suzana, amiga que não via há muito tempo, me enviou na mesma hora a foto de um ipê branco na vizinhança onde ela mora.
Raro e rápido no existir, ele desabrocha do tronco seco pra nos lembrar que há uma força invencível na delicadeza. E sopra a certeza de que existe leveza, existe verdade — mesmo quando tentam nos fazer desacreditar que o amanhã ainda pode florescer.
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