Mônica Cunha

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O broche que morava na bagunça

Enquanto a casa entra nos eixos, o afeto reencontra o seu lugar

, em Uberlândia

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Tinha bagunça na bolsa.
Na pia da cozinha, havia louça — pouca, mas à espera de água e sabão. Fui lá e lavei. A espuma escorreu pelo ralo enquanto o vapor da torneira quente embaçava de leve a janela.

No armário, guardei pequenas compras: biscoito de cacau, pão vegano pra assar, um vidrinho de azeite que ainda cheirava a mercado.

A máquina de lavar parou de bater assim que acabei de almoçar, como se tivesse esperado educadamente o fim da minha refeição. As toalhas coloquei pra secar, uma a uma, no varal que range baixinho.

Os livros no tampo da cristaleira voltaram para a estante — cada um no seu lugar de sempre, como quem devolve um pensamento à cabeça certa. Dei meia-volta para a bolsa arrumar: recibos velhos, uma caneta sem tampa, um bilhete amassado que eu nem lembrava de ter guardado. E, dentro do bolso do organizador, encontrei o amor: em forma de broche, um casal seguia de mãos dadas — presente de uma amiga, dado logo depois que ela encontrou o amor da vida dela, como quem precisa espalhar um pouco da própria felicidade pelo mundo.

Encontrado no organizador da bolsa: o boche que morava na bagunça – Crédito: Mônica Cunha

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Parada ali, com aquele pequeno broche na palma da mão, percebi que organizar a casa é também uma forma de desacelerar o pensamento.

Cada gaveta fechada, cada prato seco, cada peça de roupa dobrada é um jeito de arrumar por dentro o que a pressa desarruma por fora. Às vezes, a rotina atropela o olhar, mas basta uma pausa consciente para a gente se reencontrar — seja com o aconchego da própria solitude, seja com a lembrança gostosa de uma amiga que, feliz, quis que eu também carregasse um pedacinho do seu amor.

Afinal, o afeto não precisa de grandes palcos para acontecer; ele costuma morar nessas miudezas que a pressa quase nos impede de ver. Mora num broche de presente, numa toalha estendida, num livro que volta pro seu canto — pequenos gestos que, juntos, contam a história de um dia comum e, por isso mesmo, inteiro.

E há algo bonito nesse tipo de presente: quando alguém encontra o amor, às vezes o primeiro impulso não é guardar essa felicidade só pra si, mas espalhar um pedacinho dela por quem está por perto. Minha amiga, feliz, escolheu um broche de casal e pensou em mim. Guardei no bolso do organizador sem saber que, meses depois, seria justamente naquele dia de faxina que o broche voltaria a aparecer — como se o afeto tivesse escolhido a hora certa de ser lembrado. Afinal, também é isso que a amizade faz: atravessa gavetas, bolsos e rotinas, e reaparece exatamente quando a gente precisa ser lembrado de que não estamos sozinhos.

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