O tesouro no corredor
De malas prontas para a última entrevista do dia, o encontro inesperado com o pequeno Enzo e seu álbum de figurinhas trouxe o ingrediente que faltava para o trabalho
Cheguei dois minutos antes do horário marcado para o meu último compromisso do dia. Para quem trabalha com comunicação, cada entrevista exige entrega total. O foco na excelência nos consome, mas o caminho até a pauta às vezes muda nossa perspectiva.
Antes de subir, observei um casal que vendia pipoca na calçada. Eles trabalhavam com um entusiasmo raro. Diante daquela cena, mantive minha postura habitual: o silêncio que observa.

Ao subir a rampa, notei uma mulher e uma criança de cerca de seis anos à minha frente. O menino vestia bermuda e tênis gastos pelo uso. Ele carregava um volume nas mãos que, de início, não consegui identificar.
Na porta da loja, o garoto parou. Ele deitou-se no piso e espalhou pequenos quadrados de papel: eram figurinhas de futebol. Rostos de jogadores e seleções distantes representavam uma paixão que floresce cedo.
Aproximei-me e conversamos. O menino sorriu e se apresentou como Enzo. Ele respondeu com entusiasmo à minha curiosidade sobre aquele pequeno tesouro de papel.
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Ali, agachada diante do garoto, vi meu próprio trabalho se iluminar. Enzo me mostrou que o segredo para a última tarefa do dia era a intensidade de estar presente.
Segui pelo corredor com essa lição. A alegria da descoberta, estampada nas mãos do menino, virou a matéria-prima para as minhas próximas horas de trabalho.