Mônica Cunha

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O colo que desampara: uma reflexão sobre o abandono

Após o abandono de um bebê recém-nascido em Uberaba, resta o choque e o questionamento sobre a desumanidade

, em Uberlândia

Nos braços, ela parecia estar protegida. O colo era da avó — aquela que, no imaginário coletivo, deveria multiplicar o amor que já tem de sobra. Ao lado dela, outra mulher, mais nova. As duas pareciam perdidas naquela rua ainda marcada pelo silêncio, o despertar lento de mais um dia comum, exceto pelo que estava prestes a acontecer.

Depois de perambularem por alguns metros, escolheram uma das casas. Não tocaram a campainha, não bateram à porta. O verbo foi outro. Abandonaram ali um bebê que acabara de vir ao mundo. A criança ainda carregava a placenta e o cordão umbilical: o elo de alimento e vida, a conexão nas entranhas que deveria guardar, também, o amor.

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Fazia frio, e a criança, enrolada apenas em um pano, ficou desamparada. Uma menina deixada pela mãe e pela avó, como foi constatado, mais tarde, pela polícia.

Pelo “dedo de Deus” — sim, acredito nisso —, ela foi resgatada pelos moradores, e as câmeras da rua registraram o crime. As imagens mostram que elas seguiram. Como quem deixa um saco de lixo e retoma a rotina. Deram as costas.

Abandono de recém nascida
Câmera flagrou mulheres andando pelo local antes de bebê ser abandonada em Uberaba – Crédito: Câmeras de Segurança/Reprodução

Será que alguma delas chorou? Será que se deram as mãos ao compartilhar aquele gesto desvairado, ou simplesmente foram tomar um café?

Sei que este não é o primeiro e, infelizmente, não será o último caso. Mas é inconcebível uma criatura tão indefesa ser deixada à própria sorte, entregue ao risco absoluto.