Que tipo de gente é essa do século 21?
É triste quando a gente olha pra fora e percebe que há um descompasso no passo da humanidade

A pergunta pode te assustar, mas talvez você já a tenha feito em silêncio. Eu me arrisco a trazê-la em voz alta: que tipo de gente é essa do século XXI?
Fiquei parada em frente à TV por um bom tempo, assimilando a imagem e o texto que explicava, resumidamente, o que estava acontecendo. As pernas de uma mulher e os pés calçados com uma sandália de salto muito alto — com aquilo que costumam chamar de “pata” bem na frente dos dedos para dar equilíbrio. Mas o que vi foi o desequilíbrio. A falta de noção e de discernimento de uma pessoa que pisava em 123 pintinhos. Sim, os filhos do galo e da galinha. A imagem não mostrou, mas soube-se depois, pela apuração da notícia, que ela também esmagava com seus pés de adulta coelhos filhotes.
Pior de tudo: muitas pessoas pagaram para que ela fizesse justamente essa crueldade desproporcional. Gente do mundo inteiro: do primeiro mundo, do submundo, do desenvolvimento. E o que menos há em todos esses lugares é a inteligência emocional, o respeito, o amor pelas criaturas.
Esse é só um exemplo da última semana de maio. Houve vários outros fatos marcados pela maldade escancarada de seres que, talvez, já não sejam mais humanos. E não os comparem com os animais, porque estes, mesmo não tendo a nossa inteligência racional, respeitam a própria natureza.
É triste quando a gente olha pra fora e percebe que há um descompasso no passo da humanidade. Mas há, pela mesma fresta, aqueles que perseveram na bondade, cuidam, semeiam, se comovem e se solidarizam. Há tantos exemplos que me vêm à mente, e me lembro de um especial. O senhor de chapeuzinho e sorriso farto que morava num distrito de Uberlândia — que carregava o apelido de Seu Neném —, que plantou, na entrada do pequeno lugarejo, mangueiras. Para quem chegasse, para quem saísse, para quem reparasse ou não. Ele aguou as sementes que até hoje frutos dão.
Podem parecer simplesmente mudas de uma árvore frutífera, mas era o frutificar da generosidade humana.
Enquanto uns pagam para assistir ao esmagamento da vida, outros gastam o próprio tempo — a moeda mais cara deste século — para garantir que o futuro seja mais fresco e acolhedor. No fim das contas, a humanidade não é um bloco único. Ela se divide entre os que pisam e os que plantam.
Que as mangas daquele distrito continuem caindo, doces, para nos lembrar de que, apesar de toda a aparente desumanização do nosso tempo, a bondade ainda é o único fruto que realmente vale a pena colher.