Retrato de Flávia Reis, jornalista especializada em Gestão Estratégica de Marketing Digital e Gerenciamento de Projetos.

Flávia Reis

Toda semana, a jornalista Flávia Reis traz um olhar direto sobre temas que a maioria só comenta entre amigas: carreira, dinheiro, relacionamentos, saúde, segurança e tudo o que pesa de verdade na vida das mulheres entre 30 e 50 anos

Envelope

“Ele nunca ergueu a mão pra mim”. A silenciosa armadilha do controle coercitivo

Um relato pessoal sobre isolamento, ciúme e como identificar a violência psicológica sem agressão física

, em Uberlândia

Google News

[Aviso de conteúdo sensível: este texto aborda temas de violência doméstica e psicológica.]

Eu tinha 29 anos. Ele nunca me bateu, mas foi me cercando aos poucos, reclamava de todos os meus amigos, não gostava que eu pegasse carona com colegas de trabalho, tinha crises de ciúme por qualquer coisa. Sem eu perceber, fui perdendo meu círculo de amizades. E quando eu já não tinha muita gente por perto, vieram as frases: “ninguém vai te aguentar”, “você está velha e gorda”. Isso foi em 2013 e levei tempo pra entender que aquilo tinha um nome.

Só saí dessa relação porque, num impulso, viajei para visitar minha família em outra cidade. Foi lá, longe dele, que senti o alívio no corpo antes mesmo de entender com a cabeça o que estava sentindo. Com a ajuda de duas amigas, decidi terminar ainda durante a viagem. Voltei, arrumei outro apartamento e me mudei. Ele ainda insistiu por um tempo, até sumir. Não sei se desistiu ou se foi atrás de outra pessoa.

Flávia Reis com mão esquerda na boca
Nem toda violência deixa hematoma. Às vezes ela tira só a sua voz – Crédito: Ana Valente

Leia Mais! 

O problema é que sair não foi o fim da história. Nos primeiros meses depois da separação, eu sentia culpa. Achava que a relação tinha dado errado por causa de alguma falha minha. Foi só três meses após o término, lendo relatos de outras mulheres em grupos no Facebook, que percebi que aquilo não tinha sido uma experiência só minha. Eram centenas de histórias parecidas, e quase todas seguiam o mesmo roteiro: primeiro o príncipe encantado, cheio de atenção, elogios e promessas (hoje eu sei que isso tem nome, love bombing). Depois vinham as implicâncias, com roupa, horário, amigo, trabalho. Uma briga. Na sequência uma reconciliação cheia de carinho, como se aquilo apagasse o que tinha vindo antes. Depois xingamento, primeiro disfarçado, depois na cara. E, no fim, aquele tipo de mentira que faz você duvidar da própria cabeça: ele me ligava uma vez, eu não atendia, e quando eu ia falar com ele, jurava que tinha ligado cinco vezes. Eu não tinha espaço nem sozinha. Ele estava sempre em cima, por mensagem ou pessoalmente.

O diagnóstico do controle coercitivo

A psicóloga jurídica Daniela Torres Pedruzzi (CRP 21078/04) auxilia no mapeamento técnico dessa dinâmica:

“Trata-se de uma modalidade de violência, a violência psicológica, que ocorre quando um dos parceiros usa de forma habitual e corriqueira estratégias de intimidação, humilhação, restrição e isolamento da parceira, de modo a mantê-la sob suas ordens e constante vigilância”.

Psicóloga jurídica Daniela Torres Pedruzzi
A psicóloga jurídica Daniela Torres Pedruzzi explica os sinais do controle coercitivo – Crédito: Arquivo pessoal

Um pesquisador americano chamado Evan Stark começou a estudar esse padrão há quase 20 anos. E ele confirma que a violência doméstica não é só o tapa, o empurrão, o soco. É também esse tipo de cerco, isolar a pessoa dos amigos e da família, vigiar o tempo todo, mexer no dinheiro dela, controlar as pequenas decisões do dia a dia até ela perder a própria noção do que é normal.

Eu aprendi na prática que esse tipo de relacionamento é difícil de nomear enquanto você está dentro dele. Cada frase, sozinha, até parece razoável: “eu só pergunto onde você está porque me importo”, “não gosto que você saia sem mim porque tenho ciúme”. Só que juntas, repetidas todo dia, tomam outra proporção e escala para violência. 

Uma pesquisa do DataSenado, divulgada no fim de 2025, mostrou que um terço das brasileiras já viveu algum tipo de violência no último ano, mas nem todas se reconhecem como vítimas quando alguém pergunta direto. Eu fui uma delas, por pelo menos três meses.

Enquadramento legal e sinais de alerta

No Brasil, o termo “controle coercitivo” ainda não integra a legislação de forma autônoma, diferentemente de países como Inglaterra e Austrália. Mas, desde 2021, a Lei 14.188 inseriu o crime de violência psicológica contra a mulher no Código Penal (Art. 147-B), tipificando condutas que causam dano emocional por meio de ameaça, humilhação, manipulação, isolamento ou restrição da liberdade de ir e vir.

Isso importa porque esse tipo de controle quase nunca aparece sozinho, nem some sozinho. Um levantamento do Ministério Público do Distrito Federal (MPDFT), indica que o ciúme excessivo e o controle sobre a vítima estiveram presentes em cerca de 90% dos casos de feminicídio analisados pela instituição.

E o que separa um relacionamento só desgastado de uma relação abusiva? Segundo Daniela, “é a regularidade e frequência dos comportamentos”, porque “um relacionamento difícil pode ser o começo de algo mais grave que pode aumentar e intensificar ao longo do tempo”.

Por que demorei tanto pra me reconhecer como vítima? A resposta da psicóloga jurídica explica algo que eu nunca tinha conseguido colocar em palavras: “as mulheres são socialmente levadas a aceitarem serem controladas desde a infância”, então tendem a considerar e interpretar ciúmes, vigilância, controle sobre finanças e amigos como amor, cuidado e proteção.

E sobre aquele alívio que senti no corpo antes de entender com a cabeça, ela confirma que não foi coincidência: “as vítimas de controle coercitivo sentem medo constante, vivenciando um estado emocional de alerta, o corpo também sofre sob violência psicológica”, ressaltou a profissional.

Se você chegou até esse ponto do texto e ainda tem dúvida se algo que está passando é grave o suficiente para pedir ajuda, Daniela é direta: “uma das principais estratégias utilizadas pelos agressores é isolar as vítimas de seus amigos e familiares, retirando delas as suas principais fontes de apoio.” Se isso soa familiar para você, esse já é o sinal.

Hoje, quando olho pra trás, o que mais me marca não é o medo que eu sentia lá dentro dessa relação. É o alívio que senti naquela viagem, longe dele, antes mesmo de eu conseguir explicar por quê. Às vezes o corpo sabe antes da cabeça.

Como buscar ajuda

Caso alguma coisa nesse relato te fez lembrar de alguma relação, sua ou de alguém próximo, existe apoio disponível: a Central de Atendimento à Mulher, Ligue 180, funciona 24 horas, todos os dias, em todo o Brasil, de forma gratuita e sigilosa.

 

* Flávia Reis é jornalista, gestora de conteúdo digital do Grupo Paranaíba e fundadora da Holis Comunicação. Escreve toda semana sobre carreira, relações, saúde, dinheiro e identidade.