Solteira, ótima, sempre? Nem eu aguento essa versão o tempo todo
Entre a estatística viral e a vida real, a solteirice não é um troféu nem um fracasso, mas um equilíbrio constante entre solitude, proteção e bagagem emocional
Recebi um meme de uma amiga esta semana que para mim resumiu bem o cenário atual: “Ter 35 anos é uma loucura. Os solteiros continuam solteiros, quem namorou 10 anos voltou a ficar solteiro, os que casaram já estão solteiros. E até alguns casados parecem meio solteiros. No fundo, todo mundo meio que está solteiro”.
Meme do perfil @mundodossolteiros:
Ver essa foto no Instagram
Achei engraçado, mas revelador pois por trás da piada mora a verdade incômoda de que “estar solteiro” não é um estado fixo que separa um grupo do outro. É uma condição que atravessa todo mundo em algum momento, com ou sem aliança no dedo.
E não é coincidência que esse texto saia às vésperas do Dia dos Solteiros, 15 de agosto. Você sabia que isso existe? Tem data oficial e tudo! Enquanto os apaixonados ganharam fevereiro e junho, os solteiros ganharam um dia inteiro só pra fazer piada da própria condição. Talvez seja isso mesmo que a gente devia fazer: rir primeiro, refletir depois.
Eu sou solteira há muitos anos. Não estou falando daquela solteirice de três meses depois de um término recente, mas daquela duradoura, estabelecida desde o fim de um relacionamento longo que quase virou casamento.
O dado viral que ninguém checou direito
Você já deve ter visto um dado circulando por aí: “81 milhões de solteiros contra 63 milhões de casados no Brasil”. Parece prova de que ficar sozinho virou tendência nacional. Só que essa estatística mistura coisas diferentes: estado civil, gente que não vive em união estável, gente que só mora sozinha. O IBGE aponta 85,7 milhões de brasileiros fora de união conjugal, número que inclui separados, divorciados, viúvos e quem namora sem morar junto. O dado virou meme antes de virar informação de verdade, sinal de que a solteirice virou pauta lucrativa pro engajamento digital.
Junto com os números, a vida sem parceiro virou bandeira com direito a bio do Instagram, hashtags do TikTok, videoclipe de divórcio, como fez muito bem a Shakira. Olho pra isso com alívio e desconfiança ao mesmo tempo. É ótimo romper com a ideia antiga de que mulher sem parceiro é fracasso social, mas surgiu obrigação nova no lugar: antes, provava que ia conseguir alguém, agora é pressionada a provar o oposto, que não precisa de ninguém. Trocou uma prisão por outra, só mudou a chave pro lado de dentro.

Tipos de solteirice
Solteirice, definitivamente, não é uma coisa só. Tem quem gosta de verdade da própria companhia, da paz de estar em casa no próprio ritmo, sem dar satisfação a ninguém. Esse é o meu grupo: ficar bem tranquila em casa, fazendo minhas coisinhas de Flávia, mas com uma ressalva que só entendi olhando pra trás, heim! Parte dessa paz que eu sinto também é proteção, pois depois de sair de uma relação desgastante, o corpo e a mente mantêm distância dos outros por um tempo, não porque “curtem” a solidão, mas porque ainda estão processando o que passaram. É a chamada solteirice de proteção, parece escolha mas nasceu de sobrevivência.
Tem uma versão mais recente e mais deliberada dessa proteção, que tenho visto crescer entre amigas e nas redes, que é o celibato voluntário. No Brasil, o interesse de busca por “celibato” cresceu bastante nos últimos anos, segundo dados históricos do Google Trends. E as hashtags de “boy sober” e “detox de homem” acumulam milhões de visualizações no TikTok. Não é sobre falta de vontade, é sobre tirar homem e relação do centro da vida por um tempo, e redirecionar aquela energia toda para carreira, estudo, amizade, ou simplesmente para parar de sustentar sozinha relações que dão mais trabalho do que entregam. Conheço gente assim de perto, mulheres cansadas de gastar energia demais tentando fazer funcionar o que já não funcionava. Não é definitivo pra todo mundo, pra algumas é uma pausa, pra outras virou jeito novo de viver, mas em qualquer um dos casos, é escolha, não desistência.
📲 Siga o canal de notícias do Paranaíba Mais no WhatsApp
Tem quem vive a solteirice de transição, aquele intervalo entre uma relação e outra que nem sempre é espera ansiosa, e sim tempo pra reorganizar identidade e critério sem pressa de preencher vazio com qualquer um. Tem quem não suporta ficar sem gente por perto, precisa estar sempre em grupo, evento, algum plano marcado, porque uma sexta-feira à noite sozinha em casa parece insuportável.
Tem quem vive em ritmo de desespero atrás de alguém, contando os dias, transformando toda conversa nova em processo seletivo pra namoro sério, sempre na rua, sempre bombando nos aplicativos de encontros. E tem quem está solteiro, mas longe de estar sozinho de verdade, cercado de amizade profunda, família presente, rede de apoio sólida. É a solteirice conectada, essa que prova que intimidade não vem só de relação romântica.
Nenhum desses perfis é errado, e a mesma pessoa costuma passar por vários deles em fases diferentes da vida, às vezes na mesma semana. É bem provável que você já tenha se reconhecido em mais de um enquanto lia.
No meu caso, chegar aos 40 trouxe segurança e autonomia que eu não tinha aos 30. Sei o que quero, sei do que gosto, controlo minha rotina, dinheiro, casa e tempo sem negociar com ninguém. Conquista real, não discurso pra internet. Mas tantas décadas de vida não me tornam imune ao erro. Ainda me apaixono, às vezes por uns tipos “Jurandir” que não fazem tão bem assim. A segurança não me deixou infalível, só me tornou mais rápida para perceber quando algo está errado e sair mais cedo da cilada amorosa.
Leia Mais!
- Red flags que a gente aceitava aos 20 anos (e não aceita mais aos 40)
- Virou a “gerente de operações” da própria vida? A carga mental feminina invisível
- “Ele nunca ergueu a mão pra mim”. A silenciosa armadilha do controle coercitivo
Chegar a essa fase também significa carregar bagagem emocional considerável com anos de relacionamentos, perdas, decisões, cicatrizes mal processadas. Sem terapia e autoconhecimento honesto, a gente arrasta esse peso pros vínculos novos, machucando a nós mesmas e quem talvez só esteja se divertindo do nosso lado.
E o que é, afinal, a solteirice performática?
Não é só publicar foto de taça de vinho ao pôr do sol. É também aquele meme de “eu no Dia dos Namorados com o presente que dei a mim mesma”, foto sozinha, sorrindo, comendo um doce enorme, como se aquilo resolvesse tudo. A piada funciona porque é engraçada e um pouquinho verdadeira. Mas performar também é sorrir na roda de amigos quando perguntam “e você, continua sozinha?”, escondendo que aquilo doeu naquele dia específico. É dizer que está tudo ótimo no almoço de família, mesmo não estando tão plena quanto mostram as fotos nas suas redes sociais.
A vida real não cabe em frase de efeito nem em meme, por mais engraçado que seja. Dá pra adorar morar sozinha e sentir medo numa noite ruim. É possível defender a própria independência e ainda assim desejar um colo no fim do dia.
Não performar é ter a liberdade de dizer “hoje eu não estou tão bem sozinha” e, mesmo assim, seguir escolhendo estar. A questão não é provar pra internet se você está feliz solteira, nem esperar o dia 15 de agosto pra rir da própria condição. É entender que tipo de vida você está construindo longe das telas, e o quanto dela é honestamente sua.
E você, qual tipo de solteirice está vivendo agora? Comenta comigo lá no Instagram do @paranaibamais ou manda essa coluna pra amiga que também está “fazendo as coisinhas dela” essa semana!
* Flávia Reis é jornalista, gerente de conteúdo digital do Grupo Paranaíba e fundadora da Holis Comunicação. Escreve toda semana sobre carreira, relações, saúde, dinheiro e identidade.