Danilo Caixeta

Bastidores e informações relevantes sobre o cenário político regional e nacional

Anel Viário Sul: Justiça afasta coordenadora do DER e proíbe acesso dela à unidade em Uberlândia

Decisão aponta fortes indícios de irregularidades envolvendo ofício usado para viabilizar mudança na obra de acesso do Anel Viário Sul e determina afastamento de Patrícia Metz Peixoto por 90 dias

, em Uberlândia

Google News

A justiça determinou o afastamento, por 90 dias, da coordenadora do DER de Uberlândia, Patrícia Metz Peixoto, no âmbito das investigações sobre as obras de acesso ao Anel Viário Sul.  A decisão também proibiu a servidora de acessar fisicamente a unidade do DER, utilizar os sistemas internos do órgão e manter contato com servidores envolvidos na guarda dos documentos relacionados ao caso.

A decisão é da 3ª Vara da Fazenda Pública e Autarquias de Uberlândia, em tutela cautelar antecedente ajuizada pelo Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) como preparação para uma eventual ação de improbidade administrativa.

A medida está relacionada à controvérsia envolvendo o acesso ao Anel Viário Sul e a substituição da obra originalmente prevista para o empreendimento GSP Life Botânico II por uma solução viária diferente e de menor custo.

Anel Viário Sul: decisão judicial afasta coordenadora do DER, Patrícia Metz Peixoto, e mira preservação de provas. Crédito: Reprodução/TV Paranaíba

Segundo a decisão, o Ministério Público identificou indícios de que a obrigação originalmente prevista, a construção de um trevo rodoviário, teria sido substituída por uma solução viária substancialmente diferente e mais econômica para o empreendimento particular. O ponto central da investigação envolvendo Patrícia é um ofício assinado por ela em 23 de outubro de 2023.

De acordo com a decisão, naquele momento o projeto substitutivo ainda não havia recebido aprovação formal dos órgãos técnicos competentes do DER-MG. Mesmo assim, o documento teria sido redigido de maneira a transmitir a impressão de que a nova solução já estaria apta à execução, recomendando apenas que os trabalhos fossem realizados depois do período chuvoso.

📲 Siga o canal de notícias do Paranaíba Mais no WhatsApp

No dia seguinte, 24 de outubro de 2023, o documento foi utilizado em uma audiência judicial envolvendo a Prefeitura e a empresa responsável pelo empreendimento. Para o Ministério Público, segundo consta da decisão, o ofício acabou sendo utilizado para sustentar perante o Judiciário uma autorização que, naquele momento, ainda não existiria formalmente.

Por que Patrícia foi afastada

O principal fundamento para a medida cautelar está em fatos ocorridos mais recentemente, durante a própria investigação. Segundo a decisão, em junho de 2026, quando o Ministério Público requisitou acesso aos documentos físicos e digitais arquivados na 11ª Unidade Regional, Patrícia teria determinado que fosse encaminhado um arquivo eletrônico contendo apenas 11 páginas de um processo administrativo que possuía um acervo muito maior. A decisão registra que uma servidora subordinada, ouvida posteriormente, teria informado que a determinação para digitalizar exclusivamente aquelas páginas partiu diretamente de Patrícia.

Outro ponto considerado relevante foi a localização física do controvertido ofício de 2023. Conforme a decisão, o documento teria sido arquivado em uma pasta identificada como “GSP km 3”, embora a intervenção discutida estivesse localizada no km 1,5 da LMG-503. Para a magistrada, esses elementos criariam risco concreto para a preservação das provas caso Patrícia permanecesse no comando da unidade.

Leia Mais!

A decisão afirma que a permanência da coordenadora poderia vulnerabilizar documentos físicos, registros e sistemas eletrônicos aos quais ela teria acesso em razão da função e que existem “fortes indícios” de práticas proibidas pela Lei de Improbidade Administrativa

Na mesma decisão o representante da GSP Renato Henrique de Souza, foi proibido de representar as empresas do grupo perante o DER-MG, a Prefeitura de Uberlândia ou outros órgãos públicos relacionados ao empreendimento. Ele também não poderá participar de reuniões, audiências, negociações ou tratativas envolvendo os empreendimentos ou a LMG-503 durante o período de 90 dias. O descumprimento poderá resultar em multa pessoal de R$ 20 mil por ato, além de eventual responsabilização por crime de desobediência.

Caso do Anel viário Sul se arrasta desde 2019

A controvérsia sobre o Anel Viário Sul não é recente. Como o Paranaíba Mais já mostrou, a Prefeitura ingressou na Justiça em 2019 para cobrar da empresa a execução da infraestrutura viária prevista para o empreendimento.

O projeto original previa um trevo de acesso à LMG-503. Em 2023, entretanto, Prefeitura e empresa firmaram acordo substituindo a solução inicialmente prevista por uma intervenção mais simples e de menor custo. O projeto original estava estimado em aproximadamente R$ 7 milhões, enquanto a solução substitutiva ficou em pouco mais de R$ 2 milhões.

O Ministério Público passou a questionar a regularidade dessa alteração, apontou 15 possíveis irregularidades relacionadas às obrigações dos empreendimentos GSP Life 1 e GSP Life 2 e propôs um Termo de Ajustamento de Conduta à Prefeitura. Entre os pontos levantados estavam a liberação de garantia antes da conclusão da infraestrutura e a ausência de procedimento administrativo específico para autorizar a substituição da obra originalmente prevista.

Decisão que afastou coordenadora do DER de Uberlândia aponta “fortes indícios” de irregularidades envolvendo ofício usado para viabilizar mudança na obra de acesso do Anel Viário Sul. Crédito: Reprodução/TV Paranaíba

Na sequência, o Ministério Público anunciou que buscaria judicialmente a anulação do acordo firmado em 2023, sustentando que a alteração da obra teria sido feita com base em informações incompletas e em circunstâncias que precisariam ser esclarecidas.

Na última quinta-feira, a Justiça também suspendeu os efeitos desse acordo e determinou medidas para impedir que a solução substitutiva fosse consolidada enquanto a controvérsia não fosse definitivamente examinada.

O processo agora deverá seguir para a continuidade da investigação. A decisão determina que o DER preserve integralmente os processos administrativos relacionados ao caso, incluindo registros físicos e digitais, históricos de acesso, versões de documentos, e-mails e demais elementos que possam contribuir para a reconstrução dos fatos.

O outro lado

Procurada, a defesa de Patrícia Metz Peixoto afirmou que a coordenadora do DER ainda não teve acesso ao conteúdo integral do processo, que tramita sob sigilo, e que o pedido de habilitação dos advogados ainda está pendente.

Em nota assinada pelo advogado Claudio Fontoura, a defesa afirma que, embora respeite o papel da imprensa e a possibilidade de manifestação prévia, essa faculdade estaria esvaziada diante da ausência de acesso aos autos. “A senhora Patrícia Metz é instada a manifestar-se sobre processo sigiloso cujo conteúdo desconhece, estando pendente a habilitação da defesa, já requerida. Conhecer para poder expressar-se é a ordem natural do contraditório”, diz a nota.

O advogado também sustenta que, mesmo que a defesa já tivesse conhecimento do conteúdo do processo, o próprio sigilo judicial imporia limites à manifestação pública sobre os fatos e ressaltou que a decisão proferida pela Justiça tem natureza cautelar e, não representa reconhecimento de irregularidade ou julgamento de mérito. “Trata-se de toda forma de decisão cautelar sem juízo de mérito e sem reconhecimento de qualquer irregularidade”, afirma.

Por fim, Claudio Fontoura diz que Patrícia pretende apresentar seus argumentos no próprio processo, onde poderá exercer o contraditório e a ampla defesa. “A senhora Patrícia Metz exercerá o contraditório e a ampla defesa nos próprios autos, foro adequado ao esclarecimento dos fatos, e deposita irrestrita confiança na Justiça e no devido processo legal”, conclui.

A assessoria de imprensa do DER-MG também foi procurada mas ainda não se manifestou.