Crise no agro faz 5 cidades de MG decretarem emergência; entenda os prejuízos
São Gotardo, Ibiá, Rio Paranaíba, Serra do Salitre e Patrocínio apontam alta de custos, juros, perdas de safra e queda nos preços
O campo atravessa um período de forte pressão financeira no Alto Paranaíba, em Minas Gerais. Em pouco mais de um mês, São Gotardo, Ibiá, Rio Paranaíba, Serra do Salitre e Patrocínio decretaram situação de emergência econômica diante de custos elevados, juros altos, dificuldades de crédito, perdas provocadas pelo clima e queda nos preços agrícolas.
As medidas foram publicadas entre 17 de agosto e 17 de setembro de 2026 e têm validade de 180 dias, com possibilidade de prorrogação. Os decretos não representam perdão automático de dívidas, suspensão geral de cobranças ou isenção de impostos.
O principal objetivo é dar respaldo documental para que produtores possam buscar, conforme as regras de cada operação, a prorrogação, o alongamento ou a renegociação de compromissos financeiros com bancos, cooperativas de crédito e fornecedores.
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Crise no agro atinge cinco cidades de MG
O movimento começou após uma articulação entre municípios da região.
No dia 6 de agosto, representantes de Rio Paranaíba, Ibiá e São Gotardo se reuniram para analisar levantamentos técnicos sobre a situação econômica das atividades rurais. Os primeiros decretos foram publicados pouco depois.
São Gotardo
Em 17 de agosto, o prefeito Makoto Edison Sekita assinou o Decreto nº 263/2026.
O documento cita aumento dos custos operacionais, redução das margens de rentabilidade, frustrações de safra provocadas por eventos climáticos, concorrência das importações e dificuldades de acesso ao crédito.
A medida alcança diversas atividades, entre elas soja, milho, feijão, café, alho, cebola, batata e cenoura, além das pecuárias de leite e de corte.
Rio Paranaíba
Também em 17 de agosto, foi publicado o Decreto nº 1.205/2026.
A Prefeitura destacou a importância do agronegócio para a geração de empregos, o comércio, os serviços e a arrecadação municipal.
O município também ressaltou que a iniciativa foi articulada com Ibiá e São Gotardo.
Ibiá
Em 18 de agosto, Ibiá decretou emergência econômica diante do comprometimento financeiro dos produtores. Entre os fatores citados estão condições climáticas adversas, aumento dos custos de produção e queda nas cotações.
O município tem forte participação na produção de alho, uma das atividades mais afetadas pelo cenário descrito nos documentos.
Serra do Salitre
No mesmo dia, o prefeito Izael Alves Silva assinou o Decreto nº 063/2026. A medida abrange café, soja, milho, feijão, batata, cebola, alho e outros produtos hortifrutícolas, além da pecuária.
O decreto cita redução das margens, aumento dos custos, dificuldades de comercialização e perdas acumuladas provocadas por eventos climáticos anteriores.
Patrocínio
O quinto município a reconhecer a emergência foi Patrocínio, em 17 de setembro. O prefeito Gustavo Brasileiro assinou o Decreto nº 4.937, que aponta uma combinação de fatores como efeitos do El Niño, crise climática, quebra de safras, alto custo de produção, juros elevados e queda do dólar.
O município também citou uma nota técnica da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais (Faemg) e um ofício do Sindicato Rural.
A medida tem caráter transitório, com duração de 180 dias, e dá atenção especial à preservação dos pequenos produtores, dos empregos e da capacidade produtiva.
Prejuízo com alho chega a R$ 71,5 mil por hectare
Um dos exemplos mais expressivos da pressão financeira sobre os produtores está na produção de alho.
São Gotardo e Ibiá estão entre os principais polos nacionais da cultura. Segundo dados técnicos citados nos decretos, o custo de produção chegou a R$ 13,30 por quilo em São Gotardo e R$ 16,30 por quilo em Ibiá. O preço médio recebido pelo produtor, por outro lado, recuou para aproximadamente R$ 11 por quilo.
Com essa diferença, os prejuízos líquidos estimados chegaram a R$ 70 mil por hectare em São Gotardo e R$ 71,5 mil por hectare em Ibiá.
Em Ibiá, o prejuízo potencial calculado apenas na cadeia do alho chegou a R$ 7,15 milhões.
Os levantamentos também apontam dificuldades em outras cadeias importantes da região, como café, cenoura, batata-inglesa, cebola, soja, milho e pecuária leiteira.

Por que o alho virou um dos símbolos da crise?
A produção de alho tem peso econômico relevante no Alto Paranaíba, especialmente em São Gotardo e Ibiá.
A Associação Nacional dos Produtores de Alho (Anapa) vem alertando para o aumento do endividamento, os juros elevados e a pressão exercida pelas importações. Entre os países citados pela entidade estão Argentina e China.
O presidente da Anapa, Rafael Corsino, afirmou que o decreto de São Gotardo representa o reconhecimento oficial da situação enfrentada pelos produtores e defendeu medidas de apoio ao setor.
O que o decreto muda para o produtor?
A declaração de emergência econômica não significa que uma dívida será automaticamente suspensa, reduzida ou perdoada.
O documento pode, entretanto, ser utilizado pelo produtor como parte da documentação apresentada em pedidos de renegociação.
Entre as possibilidades estão:
- Prorrogação ou alongamento de crédito rural;
- Renegociação ou reestruturação de obrigações;
- Composição de dívidas;
- Operações envolvendo Cédula de Produto Rural (CPR);
- Operações de barter;
- Negociação de contratos de fornecimento de insumos.
A aprovação de cada pedido depende das características da operação, da documentação apresentada e das regras aplicáveis pela instituição credora.
Os decretos também fazem referência ao Manual de Crédito Rural (MCR) e à Súmula 298 do Superior Tribunal de Justiça (STJ).

Emergência econômica não é calamidade pública
Outro ponto importante é que a medida adotada pelos municípios tem natureza econômica, social e setorial. Em São Gotardo, o próprio decreto esclarece que a situação não se confunde com uma emergência para fins de Defesa Civil, prevista na legislação federal.
Por isso, o reconhecimento não implica automaticamente isenção de impostos, moratória geral ou liberação de recursos públicos para quitar dívidas privadas.
O que provocou a crise no campo?
Os decretos das cinco cidades apontam uma combinação de problemas que vem pressionando a atividade rural.
Entre os principais fatores estão aumento dos custos de produção, juros elevados, dificuldades de acesso ao crédito, perdas provocadas pelo clima, redução das cotações e pressão das importações em determinadas cadeias.
O problema também ultrapassa as propriedades rurais. Como o agronegócio movimenta uma parcela importante da economia do Alto Paranaíba, uma redução da renda dos produtores pode afetar empregos, comércio, serviços e arrecadação municipal.
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O que acontece agora?
Com os decretos publicados, as prefeituras passam a ter um documento oficial para embasar a articulação de medidas de apoio aos produtores junto a instituições financeiras e aos governos estadual e federal.
A expectativa dos municípios é que o reconhecimento da emergência ajude a abrir espaço para negociação de dívidas e preservação da capacidade produtiva.
A efetivação dessas medidas, porém, dependerá das negociações de cada produtor e das regras aplicáveis aos contratos.
O movimento de São Gotardo, Ibiá, Rio Paranaíba, Serra do Salitre e Patrocínio mostra que a pressão sobre o agronegócio passou a ser tratada formalmente como uma questão com impacto não apenas nas propriedades rurais, mas também na economia de toda a região.
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