Ocupação na MGC-497 mobiliza polícia e governo em Uberlândia
MTL afirma que centenas de famílias ocupam área inicialmente prevista para receber um data center; polícia cercou a propriedade e bloqueou a rodovia neste domingo (30)
Uma ocupação na MGC-497 mobilizou as forças de segurança e levou ao bloqueio temporário dos dois sentidos da rodovia, na zona rural de Uberlândia, neste domingo (30). O Movimento Terra, Trabalho e Liberdade (MTL) afirma que cerca de 500 famílias ocuparam uma área de 96,76 hectares da Fazenda Bom Jardim, próxima ao Posto Décio e ao acesso ao bairro Chácaras Panorama.
A propriedade integra o patrimônio do Fundo de Investimento Imobiliário Bacuri e havia sido escolhida inicialmente para receber um projeto de data center voltado à inteligência artificial. A RT-One, porém, encerrou em julho os contratos relacionados ao terreno e passou a avaliar outras áreas para o empreendimento.
A Polícia Militar (PM) cercou a propriedade e restringiu a entrada de novas pessoas, veículos e materiais. A Polícia Militar Rodoviária (PMRv) também interrompeu temporariamente o trânsito nos dois sentidos da MGC-497 para controlar a movimentação na região.

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Polícia cerca área ocupada e restringe entrada
O governador de Minas Gerais, Mateus Simões, esteve no local e afirmou que a estratégia das forças de segurança é manter o perímetro controlado, permitindo a saída dos ocupantes, mas impedindo novas entradas. “Ninguém mais vai entrar. Se eles quiserem sair, podem sair, mas nada mais entra”, afirmou.
Segundo o governador, o Estado pretende conduzir uma eventual retirada sem violência. Caso as famílias não deixem a propriedade voluntariamente, Simões afirmou que o governo poderá recorrer à Justiça para adotar as medidas necessárias.
O governador também contestou a alegação de que a Fazenda Bom Jardim seria improdutiva. Segundo ele, o terreno possui atividade agrícola e apresenta sinais de cultivo recente. “Essa área é uma área de lavoura. Vocês veem ao lado que tem uma área até de cultivo recente. Aqui nós temos plantio, está claramente feito um plantio de capim de cobertura para a segunda safra”, declarou.

A polícia bloqueou temporariamente a MGC-497 durante a operação. Segundo Simões, a medida buscou controlar o perímetro e impedir a aproximação de curiosos. A liberação da rodovia dependeria de uma avaliação operacional das equipes responsáveis pela ocorrência.
MTL pede permanência até assentamento definitivo
Em nota, o MTL informou que 301 famílias envolvidas na mobilização possuem cadastro no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) em Minas Gerais. Parte do grupo veio do Acampamento MTL Bob Vive, localizado no Assentamento Dom José Mauro.
Segundo o movimento, as demais famílias são provenientes de comunidades e bairros de Uberlândia e já possuem cadastro interno no MTL.
Entre as reivindicações, o movimento pede:
- permanência das famílias na área até o assentamento definitivo;
- cadastramento dos ocupantes pelo Incra;
- vistoria imediata dos imóveis apresentados pelo movimento;
- identificação de outras propriedades que possam receber as famílias.
O MTL afirmou que pretende manter a ocupação de forma organizada e declarou ter compromisso com “a paz e o diálogo no campo”.

Movimento questiona situação do terreno
O MTL justificou a escolha da Fazenda Bom Jardim citando a situação patrimonial da propriedade. O imóvel integra o patrimônio do Fundo de Investimento Imobiliário Bacuri, administrado pela WNT Capital.
Documentos oficiais analisados anteriormente pelo Portal Paranaíba Mais mostram que o fundo adquiriu o imóvel por R$ 14 milhões, em 2019. Ao fim de 2025, a propriedade aparecia nas demonstrações financeiras por aproximadamente R$ 76 milhões, após avaliação pelo critério de valor justo.
O relatório também apontava a ausência dos laudos utilizados na avaliação e das matrículas atualizadas dos imóveis, o que limitava a verificação independente dos valores registrados.
O MTL relacionou a valorização da propriedade ao projeto do data center e apresentou acusações contra os responsáveis pelo fundo. Os documentos oficiais analisados pelo Portal Paranaíba Mais, entretanto, não indicam que o Fundo Bacuri seja alvo das investigações financeiras relacionadas ao Banco Master.
Em posicionamento enviado ao portal em julho, a WNT Capital afirmou que “não possui e nunca possuiu vínculo ou participação direta ou indireta com o Banco Master” em relação aos fatos mencionados. A empresa explicou ainda que atua como administradora fiduciária de mais de 100 fundos, cada um com patrimônio, governança e operações próprios.

BR-497, s/n, Km 1- 480, Uberlândia – Crédito: Reprodução/Google Maps
Prefeito defende desocupação da propriedade
O prefeito de Uberlândia, Paulo Sérgio Ferreira, também acompanhou a mobilização. Ele afirmou que acionou os comandos da Polícia Militar em Uberlândia e em Belo Horizonte, além do governo estadual.
Paulo Sérgio defendeu a saída das famílias e afirmou que a Fazenda Bom Jardim possui atividade produtiva. “Nós estamos aguardando esse pessoal que invadiu terras privadas sair da terra, porque a terra não é deles”, declarou.
O prefeito também citou programas habitacionais e ações de regularização fundiária desenvolvidos pelo município. Entre as iniciativas mencionadas está o Cheque Moradia, que oferece auxílio financeiro às famílias que atendem aos critérios do programa.
Durante a entrevista, Paulo Sérgio classificou a ocupação como um movimento político ligado ao período eleitoral. A declaração representa a avaliação do prefeito sobre a mobilização.
Data center não será construído na área ocupada
A Fazenda Bom Jardim chegou a ser escolhida para receber o data center de inteligência artificial anunciado para Uberlândia. A área, no entanto, deixou de fazer parte do projeto após a RT-One encerrar os contratos relacionados ao terreno com o Fundo Bacuri.
A empresa confirmou, em julho, que iniciou a busca por outro terreno e passou a analisar alternativas em Uberlândia e em outras cidades de Minas Gerais.
Paulo Sérgio afirmou neste domingo que o empreendimento continua previsto para o município, mas disse que ainda não há definição sobre a nova área. “A empresa americana está fazendo a análise das áreas que tem disponíveis. Fui informado de que existem outras opções”, afirmou.
Segundo o prefeito, a Prefeitura não comprará nem doará o terreno para o empreendimento. O município deverá analisar os projetos, documentos e autorizações que forem de competência municipal caso a empresa escolha uma nova área em Uberlândia.
A ocupação e a atuação das forças de segurança continuam sendo acompanhadas pelo Portal Paranaíba Mais. A reportagem será atualizada em caso de novas decisões sobre a permanência das famílias ou a situação da MGC-497.