Irmãs de Uberaba vítimas de tráfico humano voltam para casa

Após serem levadas ao exterior por uma falsa oferta de emprego e serem obrigadas a trabalharem e esquema de golpe, irmãs de Uberaba conseguem voltar ao Brasil; outros brasileiros ainda aguardam ajuda.

, em Uberlândia

-

Google News

As duas irmãs de Uberaba que foram vítimas de tráfico humano e ficaram presas em Madagascar chegaram ao Triângulo Mineiro. A informação foi confirmada pela representante brasileira da ONG The Exodus Road, que auxiliam os 23 brasileiros vítimas da mesma situação. Neste ano, as uberabenses foram para o exterior por uma falsa promessa de emprego e acabaram sendo presas por criminosos para trabalhar em esquemas internacionais de golpes financeiros. Após fugir dos traficantes de pessoas e com auxílio financeiro de amigos e família, conseguiram voltar ao Brasil. 

“Sonho virou pesadelo”, diz uma das irmãs de Uberaba vítimas de tráfico humano
“Colocamos todos os nossos sonhos nas malas e viemos”, relatou uma das uberabenses à TV Paranaíba – Crédito: Reprodução/Freepick

📲 Siga o canal de notícias do Paranaíba Mais no WhatsApp

Segundo  Cintia Meireles, representante no Brasil da The Exodus Road, as irmãs de Uberaba “só conseguiram retornar graças ao apoio e suporte de seus familiares e amigos, que proporcionaram as passagens de volta. A resposta de ajuda da Embaixada Brasileira de Maputo (Moçambique) e do Itamaraty nunca chegava. Os brasileiros ficaram em uma residência de uma organização internacional esperando isso e a repatriação.  Dos 23 brasileiros que ficaram presos nesta situação, seis ainda aguardam suporte para voltar”. 

A ong atua internacionalmente no combate e na consciêntização a respeito do tráfico humano, e foram contatadas por uma líder missionária de uma ONG de Madagascar, onde os brasileiros estavam presos. A partir disso, auxiliaram na segurança e na volta das irmãs de Uberaba. 

“Parece um crime muito distante, parece um crime muito antigo, mas é um crime que acomete muito jovens e nesse exato momento tem jovens entrando no avião e indo embora. A organização criminosa por trás deste caso, por exemplo, atua em vários países do mundo e é bem conhecida. É importante que todos os brasileiros desconfie de propostas de emprego muito boas. Não existe salário alto, com passagem paga, alimentação e moradia incluída. Nenhuma proposta chega por aplicativos de mensagem, sem e-mails formais de empresas que têm site e endereço físico. Sempre desconfie”, alertou em entrevista ao Paranaíba Mais.

LEIA MAIS: Tráfico de pessoas cresce 25% após a pandemia e mobiliza campanha internacional em MG

O caso das irmãs de Uberaba presas em Madagascar

As irmãs foram atraídas para o exterior com a promessa de emprego e uma nova vida, mas acabaram sendo presas em um complexo, com outras vítimas, utilizado para dar golpes financeiros ao redor do mundo. As brasileiras chegaram a ser presas pela polícia local, mas denunciam o envolvimento das autoridades com o esquema criminoso. “Colocamos todos os nossos sonhos nas malas e viemos”, relatou uma das uberabenses à TV Paranaíba.

“Desde janeiro deste ano, a minha vida financeira deu uma travada. Sendo mãe eu já não sabia o que fazer para sustentar a minha família. Em março desse ano, veio uma proposta de trabalho no exterior. Como a proposta veio de uma pessoa conhecida, eu e minha irmã não tivemos medo e, em abril, embarcamos sentido à Tailândia, em busca de uma vida melhor”, relatou uma das uberabenses à TV Paranaíba, enquanto ainda estava presa no exterior. 

 A mulher relatou que, ao chegar na Tailândia, ela e a irmã (24), descobriram que estavam sendo levadas ao Camboja. Ao chegar no país do sudeste asiático, a mineira relata ter se dado conta de que se tratava de tráfico humano, e não a promessa de trabalho. “Ao nos deparar com aquela situação vimos o nosso sonho se transformar num pesadelo, começamos a fazer o que a máfia chinesa queria. Quando nos recusamos a fazer, éramos punidas com agressões e falta de alimentação e água”.  

Após uma operação policial no Camboja, a mineira relata que o grupo foi transferido para Madagascar, local que, segundo os relatos, os criminosos têm mais liberdade em fazer o que fazem.  Depois disso, elas contam que três pessoas que conseguiram fugir do esquema fizeram denúncias, que resultaram em uma operação policial onde elas estavam sendo encarceradas. 

“O local foi invadido por policiais, que não queriam nos ajudar. Fomos presas para ser atendidas pela máfia, novamente. Ficamos 5 dias presos em um lugar horrível e comendo comida estragada. Quando a polícia conseguiu negociar com a máfia e, no momento em que estávamos sendo trocadas, todos os brasileiros conseguiram fugir e fomos para um aeroporto. Ficamos 4 dias no aeroporto sem ajuda da embaixada e do Itamaraty. Sem ajuda do governo brasileiro”, contou. 

— Depoimento da mãe das uberabenses à TV Paranaíba

Tráfico Humano para a aplicação de golpes 

De acordo com Cintia, hoje existem vários complexos de golpes espalhados pelo mundo. “São prédios onde podem comportar até seis mil pessoas, que residem e trabalham aplicando todos os tipos de golpes que existem. Golpes do amor, golpes do investimento, golpes da falsa Delegacia de Polícia Federal, etc”.

“Quando esses brasileiros são levados para trabalhar, recebem uma proposta que inclui uma passagem aérea, moradia, trabalho, tudo incluído. E quando eles chegam lá, eles se deparam com uma situação onde são retirados os seus passaportes. E eles têm que praticar golpes cibernéticos durante essas jornadas de trabalho”, concluiu.

Segundo a especialista, no caso deste grupo de brasileiros, acabaram trabalhando por servidão por dívida e ameaças pela máfia chinesa, sendo reféns obrigados a praticar crimes cibernéticos. 

Resposta do Governo Brasileiro 

No início de setembro deste ano, enquanto as irmãs de Uberaba estavam presas no exterior, o Paranaíba Mais entrou em contato com o Itamaraty para saber quais procedimentos  estariam sendo adotado para a repatriação dos 23 brasileiros vítimas deste caso. 

Em nota, o Governo Federal informou que  soube da existência do grupo no dia 21 de agosto e “desde o primeiro momento, a embaixada brasileira em Maputo está prestando a assistência consular devida aos nacionais, com quem está em contato”.  

Em paralelo a isso, o Itamaraty também afirmou  estar “em contato com as autoridades locais, com o objetivo de esclarecer a situação pessoal e processual dos brasileiros e assegurar o cumprimento e o respeito aos direitos brasileiros”.  Além disso, informou que o processo de repatriação constitui medida de caráter excepcional, “não configurando direito adquirido” e que sua concessão está condicionada ao cumprimento de uma série de critérios e requisitos”.  

De acordo com a representante da The Exodus Road, que acompanhou a situação dos brasileiros de perto, a ajuda do Governo, via Itamaraty, foi insuficiente, e não existe um esforço ativo para ajudar as vítimas que ainda estão presas no exterior.  A reportagem pediu posicionamento do órgão sobre o caso, mas ainda não teve resposta.  

Para continuar acompanhando este caso, e por dentro das principais notícias da região, do Brasil e do mundo, continue acompanhando o trabalho do Portal Paranaíba Mais.