Feminicídios em Minas Gerais atingem recorde e colocam estado como o 2º mais letal do país
Com 139 mortes em 2025, estado fica atrás apenas de São Paulo e reforça preocupação com a violência contra mulheres
Em um país onde o debate sobre a violência contra a mulher ocupa cada vez mais espaço nas ruas, nas redes e nas políticas públicas, os números seguem contando uma outra história dura e persistente. Mesmo com leis mais severas e campanhas de conscientização, o feminicídio continua sendo uma realidade cotidiana para milhares de famílias brasileiras.

Nesse cenário, os feminicídios em Minas Gerais atingiram, em 2025, um dos patamares mais alarmantes da última década.
Segundo dados do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp), Minas foi o segundo estado brasileiro com mais registros de feminicídio no ano, totalizando 139 mulheres assassinadas por motivação de gênero — uma média de quase três mortes por semana. O estado ficou atrás apenas de São Paulo, que registrou 233 casos, e à frente do Rio de Janeiro, com 104.
No Brasil, ao todo, 1.470 feminicídios foram contabilizados em 2025, o maior número registrado na última década, o que reforça o agravamento da violência de gênero no país.
Triângulo Mineiro também sente os impactos
Na região do Triângulo Mineiro, os dados revelam que a violência está longe de ser um problema restrito aos grandes centros. Em 2025, foram registrados:
-
Uberlândia: 2 feminicídios
-
Uberaba: 4 casos
-
Araxá: 2 ocorrências
-
Patos de Minas: 1 caso
-
Frutal: 1 caso
-
Prata: 1 caso
Em Minas Gerais, Belo Horizonte lidera o ranking estadual, com 15 feminicídios, seguida por Betim e Montes Claros, com cinco casos cada.
Critérios oficiais podem alterar os números
A Polícia Civil de Minas Gerais esclareceu ao Paranaíba Mais que nem toda morte violenta de mulher é, automaticamente, classificada como feminicídio. Para que o crime receba essa tipificação, é necessário que, ao fim da investigação, fique comprovado que a motivação esteve ligada à condição de gênero, como nos casos de violência doméstica ou discriminação contra a mulher. “Nesse sentido, é possível que ocorrências inicialmente noticiadas ou registradas como suspeita de feminicídio não sejam posteriormente confirmadas como tal, após o aprofundamento das investigações, análise das circunstâncias do fato, da motivação e das provas produzidas. Nesses casos, a tipificação penal pode ser alterada para outro crime, como homicídio, por exemplo”, explica a nota da Polícia Civil.
Histórias que viraram estatística
Por trás dos números estão histórias interrompidas de forma brutal. Em Uberlândia, Rúbia de Fátima Souza, de 43 anos, foi assassinada a tiros pelo companheiro, um policial penal, em agosto. Dois meses depois, em outubro, Vanessa Jussara da Silva, de 38 anos, foi morta por estrangulamento.
Em Patos de Minas, a manicure Tatiane Rodrigues, de 33 anos, foi assassinada a facadas durante uma confraternização familiar. O crime ocorreu na presença dos filhos e de outros parentes, o que aumentou ainda mais o impacto da violência entre familiares e amigos.
Em Uberaba, o feminicídio da cabeleireira Raphaella Fachinelli, de 28 anos, também teve grande repercussão. A jovem foi morta com 14 facadas. Após o crime, o suspeito fugiu para o interior de São Paulo, onde utilizou cartões bancários e valores pertencentes à vítima. Ele acabou preso na cidade de Franca (SP).
Em Araxá, o crime chocou pela violência extrema. Diléia das Graças Ribeiro, de 45 anos, foi assassinada dentro de um bar pelo próprio companheiro, com golpes de martelo e barra de ferro, que causaram afundamento de crânio e intensa perda de sangue.

Casos como esses escancaram o impacto humano dos feminicídios em Minas Gerais.
Escalada histórica da violência
O índice atual é o mais alto desde 2015, ano em que o Código Penal passou a tipificar o feminicídio como crime específico. Desde então, os registros mostram uma escalada constante: 13.448 mulheres foram vítimas de feminicídio no Brasil ao longo da última década, uma média de 1.345 vítimas por ano.
Na comparação entre 2015 e 2025, o aumento chega a 316%, evidenciando que, apesar dos avanços legais, a prevenção segue como o maior desafio.
Estudos também revelam o recorte racial da violência. A pesquisa “Quem são as Mulheres que o Brasil não protege”, da Fundação Friedrich Ebert Brasil, aponta que mulheres negras representam cerca de 68% das vítimas ao longo dos anos.
Leis mais duras, prevenção ainda sob pressão
Apesar do endurecimento das penas para o crime de feminicídio, o desafio central segue sendo a prevenção. Dados recentes mostram avanços no orçamento, mas também escancaram gargalos na fiscalização das medidas de proteção às vítimas.
No Ministério da Justiça e Segurança Pública, as iniciativas voltadas ao enfrentamento da violência contra a mulher tiveram um crescimento expressivo. O orçamento destinado à área saltou 262%, passando de R$ 45 milhões em 2024 para R$ 162,9 milhões previstos em 2025. Os recursos incluem investimentos em equipamentos públicos e estruturas de atendimento às mulheres em situação de violência.
Ainda assim, os números revelam que o sistema de proteção enfrenta dificuldades para garantir a efetividade das decisões judiciais.

De acordo com o Painel de Violência Contra a Mulher, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), 945.506 medidas protetivas foram concedidas em 2025 em todo o país. Os dados consolidados sobre descumprimento no ano ainda não foram divulgados.
Já o 19º Anuário Brasileiro de Segurança Pública aponta que, em 2024, o Brasil registrou 101.656 descumprimentos de medidas protetivas, um crescimento de 10,8% em relação a 2023, quando foram contabilizados 87.642 casos. No mesmo ano, o país somou 1.457 feminicídios.
Do total de 555.001 medidas protetivas concedidas em 2024, 18,3% foram descumpridas. Em termos práticos, isso significa que quase duas em cada dez mulheres que obtiveram proteção judicial tiveram essa garantia violada.
Como denunciar
Casos de violência contra a mulher podem ser denunciados em todo o país por meio da Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180, serviço gratuito e disponível 24 horas. As denúncias também podem ser feitas pelo WhatsApp (61) 9610-0180.
Em situações de emergência, a Polícia Militar deve ser acionada pelo 190.