Solidão mesmo cercado de pessoas? Psicóloga explica quando o isolamento é sinal de alerta

No Dia do Psicólogo, celebrado nesta quinta-feira (27), especialista explica como identificar sinais de isolamento, diferenciar solitude de solidão e entender quando é hora de buscar ajuda profissional

, em Uberlândia

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Sentir-se sozinho mesmo estando cercado de pessoas pode ser um sinal de que algo não vai bem na forma como os vínculos estão sendo construídos. Nesta quinta-feira (27), Dia do Psicólogo, o Paranaíba Mais conversou com a psicóloga e psicanalista Fernanda Tavares, que explica como a solidão e o isolamento podem afetar a saúde mental, quais comportamentos merecem atenção e o que pode ser feito para reconstruir os laços sociais.

Solidão
Sentir-se sozinho mesmo cercado de pessoas pode ser um sinal de sofrimento emocional – Créditos: Freepik/Reprodução

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Para a especialista, o problema não está necessariamente em estar sozinho. Existe uma diferença entre escolher momentos de recolhimento e experimentar uma solidão marcada por desamparo, impotência e sensação de não pertencimento.

Estar sozinho não significa necessariamente estar isolado

Na perspectiva psicanalítica, a relação com o outro tem papel central na constituição do sujeito. Por isso, quando a solidão se torna fonte de sofrimento ou o isolamento começa a romper vínculos, a situação pode indicar mais do que uma simples preferência por ficar sozinho.

“Falar sobre isso abre espaço para nomear o desamparo, permitindo que a dor saia do corpo e do sintoma e ganhe o registro da palavra”, explica Fernanda.

A especialista destaca que o isolamento pode aparecer de maneiras diferentes e nem sempre começa com um afastamento evidente. Em alguns casos, a pessoa continua frequentando ambientes sociais, trabalhando ou convivendo com familiares, mas passa a experimentar uma sensação intensa de desconexão.

Por que alguém pode se sentir sozinho mesmo cercado de pessoas?

Ter muitos contatos não significa necessariamente ter vínculos capazes de oferecer escuta, acolhimento e reconhecimento.

Segundo Fernanda, a solidão pode surgir justamente quando existe um desencontro entre aquilo que a pessoa vivencia internamente e aquilo que consegue compartilhar com quem está ao redor.

Conversas superficiais e relações mantidas apenas por obrigação podem não atender à necessidade de conexão emocional.

Por isso, a quantidade de amigos, seguidores ou contatos não é, isoladamente, um indicador de proteção contra a solidão.

O que importa, segundo a especialista é a qualidade dos vínculos e a possibilidade de existir neles com autenticidade e vulnerabilidade.

Solitude é diferente de solidão sofrida

Uma das principais distinções apontadas pela psicóloga é entre estar só por escolha e sentir-se sozinho contra a própria vontade.

A solitude pode ser um período saudável de recolhimento. É quando a pessoa consegue aproveitar a própria companhia, descansar, criar, organizar pensamentos e elaborar experiências sem romper sua conexão com o mundo.

Já a solidão sofrida envolve uma experiência de desamparo e não pertencimento. Nesse cenário, o afastamento pode deixar de ser uma escolha e funcionar como uma forma de evitar situações que provocam ansiedade, dor ou insegurança.

A diferença, portanto, não está simplesmente em estar fisicamente sozinho, mas em como a pessoa vivencia esse estado.

Mudanças de comportamento podem indicar que algo não está bem

Familiares e amigos podem perceber alguns sinais antes que o isolamento se torne mais intenso. Entre eles estão a perda de interesse por atividades que anteriormente despertavam prazer, cancelamentos frequentes de compromissos e tentativas constantes de evitar interações.

Também podem aparecer mudanças na maneira de se comunicar, como respostas muito curtas, distanciamento emocional ou irritabilidade diante de tentativas de aproximação.

Alterações importantes no sono, na alimentação e nos cuidados pessoais também merecem atenção.

Fernanda ressalta, porém, que esses sinais não devem ser interpretados de maneira automática. Cada pessoa manifesta o sofrimento de uma forma, e mudanças comportamentais precisam ser observadas dentro do contexto individual.

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Redes sociais podem aproximar ou aumentar a sensação de isolamento

O efeito das redes sociais também depende da maneira como elas são utilizadas, explica a especialista.

Quando servem para conversar diretamente com alguém, marcar um encontro ou manter uma troca significativa, podem funcionar como uma ponte para relações reais.

O problema pode aparecer no uso predominantemente passivo, baseado no consumo contínuo da vida de outras pessoas.

O chamado “scrolling infinito” coloca o usuário diante de recortes selecionados e idealizados da rotina alheia.

“Esse formato costuma intensificar a solidão porque expõe o sujeito a uma cena idealizada e recortada do outro, estimulando comparações narcísicas desfavoráveis e aprofundando o sentimento de inadequação e exclusão”, afirma a psicóloga.

Pequenos movimentos podem ser o começo da mudança

Para quem percebe que está se afastando das pessoas, Fernanda não recomenda uma transformação radical da rotina. O primeiro passo pode ser pequeno e possível.

Responder uma mensagem que vem sendo adiada, fazer uma ligação curta para alguém de confiança ou simplesmente cumprimentar um vizinho são exemplos de movimentos que podem reabrir, aos poucos, o contato com o outro.

A reaproximação pode provocar desconforto ou ansiedade no início. Por isso, segundo a especialista, é importante reconhecer esse incômodo sem interpretá-lo necessariamente como um motivo para desistir.

Quando a solidão passa a exigir ajuda profissional?

A busca por acompanhamento psicológico ou psicanalítico merece atenção quando a solidão deixa de ser um período de recolhimento e passa a interferir significativamente na vida cotidiana.

Entre os sinais de que pode ser necessário buscar ajuda estão a sensação persistente de vazio ou desamparo, a perda de sentido na própria existência e a dificuldade para realizar tarefas básicas do dia a dia.

O sofrimento também pode aparecer por meio de prejuízos no trabalho ou nos estudos, alterações importantes no sono, dores físicas ou outros sintomas associados ao estado emocional.

Crises de ansiedade durante tentativas de interação social também merecem atenção, assim como pensamentos recorrentes de que a própria vida não tem valor ou o desejo de desaparecer.

Nessas situações, procurar um profissional de saúde mental é uma forma de cuidado e não representa fracasso ou incapacidade de lidar sozinho com os problemas.

O Dia do Psicólogo, celebrado em 27 de agosto, reforça a importância da atuação desses profissionais na promoção da saúde mental e no acolhimento de pessoas que enfrentam diferentes formas de sofrimento.

“Ninguém precisa dar conta do próprio desamparo de forma isolada”

Para Fernanda, reconhecer a necessidade do outro faz parte do próprio enfrentamento da solidão. O silêncio prolongado pode fazer com que a pessoa acredite que precisa resolver tudo sozinha, justamente quando mais precisa estabelecer algum tipo de contato.

“A fala e o encontro com o outro não são sinais de fraqueza, mas as vias pelas quais a vida ganha contorno e circulação”, afirma.

A psicóloga reforça que permitir que outra pessoa escute aquilo que muitas vezes permanece guardado pode ser o primeiro passo para reconstruir vínculos e encontrar novas formas de ocupar os espaços de convivência.

Em situações de sofrimento emocional intenso ou quando houver pensamentos relacionados à própria morte, é importante procurar ajuda. O Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional gratuito e sigiloso pelo telefone 188, disponível 24 horas por dia. O canal é voltado a pessoas que precisam conversar e receber escuta e acolhimento.

Em uma situação de emergência ou risco imediato, a orientação é acionar o Samu, pelo 192, ou procurar uma unidade de pronto atendimento ou pronto-socorro.

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