MG é o 2º estado com mais afastamentos por saúde mental; conheça os sinais
Ansiedade e depressão lideram as causas de 83 mil benefícios concedidos por incapacidade temporária; psicanalista explica o peso de não conseguir parar
-
Minas Gerais registrou 83.321 afastamentos do trabalho por transtornos mentais e comportamentais, se tornando o segundo estado com o maior número de trabalhadores incapacitados psicologicamente no país. Os dados de 2025 acendem um alerta vermelho para a saúde pública e reflete um recorde nacional: a Previdência Social concedeu mais de 546 mil benefícios dessa natureza, um salto de 15,66% em comparação ao período anterior.
📲 Siga o canal de notícias do Paranaíba Mais no WhatsApp
Números revelam avanço da crise de saúde mental
O colapso não se restringe aos ambientes corporativos. Nas universidades federais de Minas Gerais, uma pesquisa coordenada pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) constatou que 59,7% dos estudantes entrevistados apresentam sintomas de ansiedade, com quase 34% enfrentando quadros severos que comprometem a presença em aula.
Além disso, o uso excessivo de telas tem agravado a saúde mental da população; um estudo da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) apontou que 72% das crianças avaliadas apresentaram aumento de depressão associado ao hábito digital.
Feranda Tavares explica que em uma cultura que preza pela entrega ininterrupta, o ato de descansar passou a ser enxergado como uma falha, gerando adoecimento mental crônico. “O filósofo Byung-Chul Han diz que vivemos na ‘Sociedade do Cansaço’, onde nos tornamos vigias e carrascos de nós mesmos. A cultura da produtividade transforma o descanso em culpa. A ansiedade nasce justamente desse conflito, o corpo pede trégua, mas a nossa mente fica sussurrando que estamos ficando para trás, que deveríamos estar produzindo ou estudando.”
Transtornos que mais afastam
O mapeamento detalhado da Previdência Social com base nas concessões efetuadas em 2025 deixa claro quais diagnósticos principais incapacitam a rotina laboral dos brasileiros. Do total de benefícios liberados, as duas doenças com maior incidência absoluta foram:
- Transtornos ansiosos (CID F41): 166.489 casos em 2025.
- Episódios depressivos (CID F32): 126.608 casos em 2025.
Na sequência das estatísticas, aparecem os quadros de transtorno afetivo bipolar (60.904), transtorno depressivo recorrente (60.551) e transtornos decorrentes do uso de múltiplas drogas ou outras substâncias psicoativas (25.160).
“Freud já nos ensinava que o que a boca cala, o corpo fala. Na mente, ansiedade generalizada, irritabilidade crônica, sensação de vazio, perda do prazer em atividades antes agradáveis e pensamentos obsessivos com o trabalho. No corpo, insônia, tensões musculares severas, problemas gastrointestinais e baixa imunidade. A mente não desliga porque o inconsciente entende que relaxar é ‘perigoso’ ou improdutivo. O sintoma físico surge como um freio de emergência, já que você não para pôr vontade própria, o corpo te obriga a parar.” afirma a psicanalista.
Os vilões silenciosos da rotina moderna
Além das cobranças profissionais, hábitos do cotidiano atuam como fragmentadores da atenção e desgastam o psiquismo sem que o indivíduo perceba. De acordo com a especialista, dois comportamentos merecem atenção imediata:
- Hiperestímulo digital (Scrolling infinito): O hábito de checar redes sociais logo ao acordar ou antes de dormir impede o descanso real. Para o cérebro, o fluxo ininterrupto de dados funciona como um bombardeio de informação e comparação social.
- Multitasking (Multitarefa): Tentar resolver e-mails enquanto almoça ou realizar tarefas simultâneas fragmenta a atenção profunda, gerando uma fadiga mental invisível e a incômoda sensação de não ter resolvido nada ao final do dia.
Leia Mais: Saiba como o exercício físico transforma a saúde mental
Diferença entre cansaço e Burnout
Saber diferenciar o desejo de desacelerar do esgotamento extremo é crucial para buscar a intervenção correta antes que as defesas psíquicas falhem por completo.
“Querer desacelerar costuma ser um movimento consciente de escolha, onde o sujeito ainda preserva sua energia psíquica e quer investi-la de outra forma, com mais qualidade. Estar esgotado (burnout) é quando o limite já foi ultrapassado. Na psicanálise, vemos o esgotamento como uma falência das defesas psíquicas. O ‘eu’ se vê exausto de tentar dar conta das exigências idealizadas. Não é mais um desejo de parar; é o corpo e a mente em curto-circuito porque não aguentam mais a sobrecarga.”
Quando a desaceleração individual não basta?
A especialista explica que o processo de desacelerar varia conforme o contexto socioeconômico de cada cidadão. No entanto, quando o ritmo destrutivo paralisa a rotina, o suporte clínico se torna indispensável.
Fernanda Tavares aponta os critérios para buscar ajuda profissional:
- Quando o cansaço virou um desamparo profundo e a pessoa já não vê sentido nas coisas (sinal de depressão);
- A ansiedade gera crises de pânico (o corpo transborda o sofrimento em forma de desespero físico);
- Há um isolamento social severo e incapacidade de gerenciar as tarefas básicas da vida (como higiene ou alimentação);
- A pessoa tenta desacelerar, mas a culpa e a angústia são tão avassaladoras que ela prefere voltar a se esgotar para não ter que lidar com o que sente quando para.
