MG é o 2º estado com mais afastamentos por saúde mental; conheça os sinais

Ansiedade e depressão lideram as causas de 83 mil benefícios concedidos por incapacidade temporária; psicanalista explica o peso de não conseguir parar

, em Uberlândia

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Minas Gerais registrou 83.321 afastamentos do trabalho por transtornos mentais e comportamentais, se tornando o segundo estado com o maior número de trabalhadores incapacitados psicologicamente no país. Os dados de 2025 acendem um alerta vermelho para a saúde pública e reflete um recorde nacional: a Previdência Social concedeu mais de 546 mil benefícios dessa natureza, um salto de 15,66% em comparação ao período anterior.

Ansiedade e depressão são as principais causas de afastamento do trabalho e atingem mais as mulheres, que representam cerca de 63% dos casos. Entre os problemas mais frequentes está a Síndrome de Burnout, caracterizada por exaustão física e emocional, dificuldade de concentração, queda no desempenho e sensação constante de esgotamento.

Para compreender e ajudar a identificar os sinais de sobrecarga física e emocional, o Paranaíba Mais entrevistou a psicóloga e psicanalista Fernanda Tavares. A especialista explica as diferenças entre desacelerar e estar esgotado, os impactos da cultura da produtividade e a importância de reconhecer os próprios limites.

saúde mental
MG registra alta de transtornos mentais entre trabalhadores e estudantes – Crédito: Fernando Frazão/Agência Brasil/Reprodução

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Números revelam avanço da crise de saúde mental

O colapso não se restringe aos ambientes corporativos. Nas universidades federais de Minas Gerais, uma pesquisa coordenada pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) constatou que 59,7% dos estudantes entrevistados apresentam sintomas de ansiedade, com quase 34% enfrentando quadros severos que comprometem a presença em aula.

Além disso, o uso excessivo de telas tem agravado a saúde mental da população; um estudo da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) apontou que 72% das crianças avaliadas apresentaram aumento de depressão associado ao hábito digital.

Feranda Tavares explica que em uma cultura que preza pela entrega ininterrupta, o ato de descansar passou a ser enxergado como uma falha, gerando adoecimento mental crônico. “O filósofo Byung-Chul Han diz que vivemos na ‘Sociedade do Cansaço’, onde nos tornamos vigias e carrascos de nós mesmos. A cultura da produtividade transforma o descanso em culpa. A ansiedade nasce justamente desse conflito, o corpo pede trégua, mas a nossa mente fica sussurrando que estamos ficando para trás, que deveríamos estar produzindo ou estudando.”

Transtornos que mais afastam

O mapeamento detalhado da Previdência Social com base nas concessões efetuadas em 2025 deixa claro quais diagnósticos principais incapacitam a rotina laboral dos brasileiros. Do total de benefícios liberados, as duas doenças com maior incidência absoluta foram:

  • Transtornos ansiosos (CID F41): 166.489 casos em 2025.
  • Episódios depressivos (CID F32): 126.608 casos em 2025.

Na sequência das estatísticas, aparecem os quadros de transtorno afetivo bipolar (60.904), transtorno depressivo recorrente (60.551) e transtornos decorrentes do uso de múltiplas drogas ou outras substâncias psicoativas (25.160).

“Freud já nos ensinava que o que a boca cala, o corpo fala. Na mente, ansiedade generalizada, irritabilidade crônica, sensação de vazio, perda do prazer em atividades antes agradáveis e pensamentos obsessivos com o trabalho. No corpo, insônia, tensões musculares severas, problemas gastrointestinais e baixa imunidade. A mente não desliga porque o inconsciente entende que relaxar é ‘perigoso’ ou improdutivo. O sintoma físico surge como um freio de emergência, já que você não para pôr vontade própria, o corpo te obriga a parar.” afirma a psicanalista.

Os vilões silenciosos da rotina moderna

Além das cobranças profissionais, hábitos do cotidiano atuam como fragmentadores da atenção e desgastam o psiquismo sem que o indivíduo perceba. De acordo com a especialista, dois comportamentos merecem atenção imediata:

  • Hiperestímulo digital (Scrolling infinito): O hábito de checar redes sociais logo ao acordar ou antes de dormir impede o descanso real. Para o cérebro, o fluxo ininterrupto de dados funciona como um bombardeio de informação e comparação social.
  • Multitasking (Multitarefa): Tentar resolver e-mails enquanto almoça ou realizar tarefas simultâneas fragmenta a atenção profunda, gerando uma fadiga mental invisível e a incômoda sensação de não ter resolvido nada ao final do dia.

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Diferença entre cansaço e Burnout

Saber diferenciar o desejo de desacelerar do esgotamento extremo é crucial para buscar a intervenção correta antes que as defesas psíquicas falhem por completo.

“Querer desacelerar costuma ser um movimento consciente de escolha, onde o sujeito ainda preserva sua energia psíquica e quer investi-la de outra forma, com mais qualidade. Estar esgotado (burnout) é quando o limite já foi ultrapassado. Na psicanálise, vemos o esgotamento como uma falência das defesas psíquicas. O ‘eu’ se vê exausto de tentar dar conta das exigências idealizadas. Não é mais um desejo de parar; é o corpo e a mente em curto-circuito porque não aguentam mais a sobrecarga.”

O tema ganha ainda mais relevância diante das mudanças recentes nas regras trabalhistas. O governo passou a atualizar a Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que inclui a obrigatoriedade de avaliação de riscos psicossociais nas empresas, reforçando a atenção à saúde mental no ambiente de trabalho.

Quando a desaceleração individual não basta?

A especialista explica que o processo de desacelerar varia conforme o contexto socioeconômico de cada cidadão. No entanto, quando o ritmo destrutivo paralisa a rotina, o suporte clínico se torna indispensável.

Fernanda Tavares aponta os critérios para buscar ajuda profissional:

  • Quando o cansaço virou um desamparo profundo e a pessoa já não vê sentido nas coisas (sinal de depressão);
  • A ansiedade gera crises de pânico (o corpo transborda o sofrimento em forma de desespero físico);
  • Há um isolamento social severo e incapacidade de gerenciar as tarefas básicas da vida (como higiene ou alimentação);
  • A pessoa tenta desacelerar, mas a culpa e a angústia são tão avassaladoras que ela prefere voltar a se esgotar para não ter que lidar com o que sente quando para.