Saúde mental no trabalho: o que muda para as empresas com a atualização da NR-1
Com recorde de afastamentos por ansiedade e depressão, atualização da NR-1 exige que empresas identifiquem, avaliem e previnam riscos psicossociais no ambiente de trabalho
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O número de afastamentos por transtornos mentais continua em alta no Brasil e levou o governo a ampliar as exigências para as empresas. Com a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), as organizações passaram a ser obrigadas a identificar, avaliar e gerenciar riscos psicossociais relacionados ao trabalho, como assédio moral, excesso de cobrança, jornadas exaustivas e sobrecarga emocional.
Dados do Ministério da Previdência Social mostram que foram concedidos 472.328 benefícios por incapacidade temporária relacionados à saúde mental em 2024, o maior número da série histórica. Em 2025, o total subiu para 546.254 concessões, impulsionado principalmente por casos de ansiedade e depressão.
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Saúde mental passa a integrar a gestão de riscos das empresas
A atualização da NR-1 determina que os riscos psicossociais passem a integrar o Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), documento obrigatório que já contempla riscos físicos, químicos, biológicos, ergonômicos e de acidentes.
Na prática, as empresas deverão monitorar fatores relacionados à organização do trabalho e adotar medidas preventivas para reduzir situações que possam contribuir para o adoecimento dos trabalhadores.
Entre os principais fatores considerados riscos psicossociais estão:
- Sobrecarga de trabalho;
- Pressão excessiva por resultados;
- Metas incompatíveis com a realidade operacional;
- Assédio moral;
- Falta de autonomia;
- Ambientes de trabalho hostis;
- Jornadas excessivas;
- Ausência de canais de acolhimento e mediação de conflitos.
Embora a implementação inicial tenha caráter orientativo, especialistas avaliam que a fiscalização sobre o tema deve se intensificar nos próximos anos.
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Risco para empresas vai além de multas
Segundo o advogado trabalhista Gregório Andrade, o principal impacto da nova norma não está apenas na possibilidade de autuações administrativas.
“A discussão não deve ser reduzida à aplicação de multas. A principal exposição das empresas está relacionada ao aumento dos passivos trabalhistas e previdenciários. Quando uma organização deixa de identificar e tratar fatores de risco psicossociais conhecidos, ela pode enfrentar questionamentos sobre sua responsabilidade na prevenção de situações que contribuíram para o adoecimento do trabalhador”, afirma.
De acordo com Andrade, a atualização da NR-1 acompanha uma tendência já observada na Justiça do Trabalho, que tem considerado o ambiente corporativo um elemento relevante na análise de transtornos mentais relacionados à atividade profissional.
“O que a norma faz é reconhecer que situações como assédio, sobrecarga e pressão excessiva podem representar riscos ocupacionais e, por isso, precisam ser gerenciadas de forma estruturada. A ausência de medidas preventivas, registros e planos de ação pode enfraquecer a defesa das empresas em eventuais disputas judiciais”, explica.
Afastamentos afetam produtividade e resultados
O aumento dos casos de ansiedade, depressão e síndrome de burnout também tem gerado impactos financeiros e operacionais para as empresas.
Além da alta nos afastamentos, especialistas apontam o crescimento do chamado presenteísmo — situação em que o trabalhador permanece em atividade, mas apresenta queda significativa de desempenho em razão de problemas físicos ou emocionais.
Os efeitos podem ser percebidos na produtividade, na retenção de profissionais, no clima organizacional e na continuidade das operações. Para especialistas da área trabalhista, investir em prevenção tende a gerar custos menores do que lidar posteriormente com ações judiciais, alta rotatividade e perda de produtividade.
Tendência é de maior atenção à saúde mental no trabalho
O aumento recorde dos afastamentos por transtornos mentais e a inclusão dos riscos psicossociais nas normas de segurança do trabalho indicam uma mudança na forma como as empresas devem lidar com a saúde mental de seus trabalhadores.
A expectativa é que o tema deixe de ser tratado apenas como uma pauta de bem-estar e passe a ocupar posição estratégica nas organizações, tanto pela necessidade de adequação às normas quanto pelos impactos diretos nos resultados.
Nesse cenário, empresas que investirem em prevenção, capacitação de lideranças e ambientes de trabalho mais seguros tendem a estar mais preparadas para enfrentar desafios jurídicos, operacionais e de gestão de pessoas nos próximos anos.