“Oficina de almas”, FALE nasce de um sonho e auxilia pessoas que vivem com HIV em Uberlândia
Instituição acolhe pessoas com HIV e em situação de vulnerabilidade há 36 anos e depende de bazares, doações e trabalho voluntário para manter a assistência aos moradores
A Fraternidade Assistencial Lucas Evangelista (FALE) nasceu de um sonho. Ao acordar em um dia qualquer, Jussara Megueria decidiu colocar em prática o que havia sonhado e fundou em Uberlândia um centro de acolhimento para pessoas que vivem com HIV e, que atualmente, abriga 67 adultos e 8 crianças. Ao longo de sua história, pessoas que não tinham para onde ir encontraram na instituição não governamental mais do que um teto: uma chance de recomeçar suas vidas. Hoje, a casa se sustenta a partir da solidariedade de seus internos e da comunidade, e precisa de doações para continuar a transformar vidas de pessoas muitas vezes esquecidas.

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História e funcionamento da FALE em Uberlândia
Durante uma noite, Jussara Megueria, ou Tia Jussara, como é conhecida, se viu fundando uma casa de apoio para pessoas em situação de vulnerabilidade enquanto dormia. Ao acordar, começou a acolher em sua própria residência pessoas em situação de rua que precisavam de abrigo e amparo.
Com o tempo, o apartamento onde ela e o marido viviam não conseguiu comportar mais assistidos, e os vizinhos começaram a fazer denúncias a respeito do trabalho que estava sendo prestado nas paredes ao lado. Parentes e amigos do casal se mobilizaram e adquiriram uma casa, que no decorrer das décadas contou com expansões e adaptações feitas pelos próprios moradores para conseguir prestar assistência a qualquer pessoa que buscasse ajuda.
“Muitas pessoas não entendem que temos profissionais aqui dentro. Pedreiros, encanadores, pintores, eletricistas e cozinheiros moram aqui, ainda que um dia já moraram nas ruas. Eles acabam ajudando, tanto nos cuidados com a casa quanto no auxílio aos mais debilitados”, explicou o coordenador da instituição, Carlos Pernanze.
O trabalho não se restringe aos moradores e, anos depois de um sonho, se estende a uma rede de empresas e instituições que prestam apoio sazonal ao trabalho feito pela FALE em Uberlândia. O apoio também vem de estudantes da Universidade Federal de Uberlândia e de uma visita mensal de profissionais da saúde do município.
“Empresas da cidade e voluntários externos trazem cestas básicas, produtos de limpeza e higiene. Não é o suficiente para a quantidade de pessoas que vivem aqui, mas são respiros em tempos de dificuldade. Essas pessoas e empresas também dedicam seu tempo aqui. Eles vêm para conversar, fazer palestras e ouvir o que as pessoas que moram aqui têm para contar e ajudam no que precisam ouvir”, pontuou Carlos.

Apesar dos auxílios, o coordenador apontou que, mesmo que a casa tenha contato direto com a assistência social da Prefeitura de Uberlândia e receba visitas frequentes de profissionais de saúde da rede municipal, não recebe apoio financeiro do executivo municipal e se nega a receber emendas de parlamentares.
Há uma contradição na relação relatada entre a instituição e o poder público: assistentes sociais encaminham pessoas para o local, mas não prestam ajuda financeira. Apesar do acompanhamento de determinados setores da Prefeitura, não existe um auxílio direto no que se refere à alimentação das pessoas e na manutenção da casa.
A reportagem entrou em contato com a Prefeitura para saber quais serviços e auxílios são prestados à instituição, mas não obteve resposta. O canal segue aberto.
“Oficina de Almas”: FALE em Uberlândia, um lugar de gratidão
Enquanto contava sobre o funcionamento e a história da casa, um casal de ex-moradores falava muito sobre quilos. A mulher contou que, quando chegou na FALE em Uberlândia, pesava apenas 20 quilos e o cabelo estava mal cortado. “Ele saía inteiro na minha mão. Quando você pegava o vírus do HIV, você perdia a sua dignidade, sua pessoa, sua família se afastava e seus próprios amigos também”.
Quando isso aconteceu, ela buscou um lugar onde seria aceita. “Me afastei de quem era amigo próximo a mim, comecei a me envolver com a rodinha do álcool, que é de onde vem a ‘pedra’”. Segundo ela, neste momento perdeu o direito à família, à moradia e pensou que não encontraria amparo em nenhum outro lugar.
Durante esta fase da vida, ela disse que acordou em um lugar extremamente sujo, momento em que decidiu buscar ajuda. Procurou uma médica, a quem sempre pedia ajuda, e que a levou até a casa de seus pais. Lá, recebeu carinho mas não o acolhimento de que precisava. Foi quando a doutora então a levou até a FALE em Uberlândia.
Seu marido, também ex-morador, era outro que falava sobre quilos. Disse que esteve na casa durante 20 anos e que chegou pesando apenas 35 quilos. O homem, forte e alto, disse não acreditar que chegou a esta situação. Ele já foi preso e lembrou-se de quando quase morreu atrás das grades, onde descobriu ser soropositivo. Saiu apenas porque, segundo ele, o diretor do presídio não queria que alguém morresse lá dentro para não prejudicar a penitenciária, e com isso “conseguiu” um alvará de soltura.
Depois de sair e conseguir se recuperar com sua família, conta que quis desistir da vida diversas vezes.
“Na época, saíam aqueles telefoninhos que tinham aquelas músicas do Guns N’ Roses. Só tinha música e tirava uma fotinha. Meu sobrinho me deu um telefoninho daquele e pôs uma música do Iron Maiden. Depois falou: ‘vou fazer o seguinte, eu vou levar o senhor pra um lugar onde só tem pessoas com o mesmo problema do senhor, pra parar com esse negócio de suicídio’”, contou.
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O ex-morador lembra que, quando chegou à FALE em Uberlândia, encontrou pessoas que mudaram a forma com que ele via a infecção pelo HIV, que apesar de não ter cura, pode ser controlada com o Tratamento Antirretroviral (TARV) fornecido gratuitamente pelo SUS. O acompanhamento médico adequado pode reduzir a carga viral, impedindo a transmissão sexual e permitindo uma vida longa e saudável.
“Aí eu cheguei [na casa], tinha um rapaz cego por causa da ‘doença’. Ele andava escutando aquele funk ‘porque eu só quero é ser feliz’, rindo e dando ‘gaitada’. Falei: ‘esse cara tem HIV? Esse cara tá ficando doido’. Aí eu olhei ele dançando, olhei o outro também feliz. Fiquei babando, vi que aqui existe igualdade”, relatou.
Para o casal, o impacto da casa em suas vidas foi além da existência, da comida e do abrigo. Ver pessoas que vivem com o vírus em condições saudáveis, reconstruindo suas vidas juntas, fez com que acreditassem que podiam superar os seus problemas.
Rivelino Sousa, 55 anos, voluntário externo da FALE, endossa o relato dos ex-moradores. “Aqui dentro é um ajudando o outro. Nós usamos um termo aqui que é a ‘oficina de almas’. Muitas vezes as pessoas que moram aqui não têm o privilégio de ganhar o que aqui pode oferecer enquanto estão lá fora. Aqui dentro, eles ganham o máximo que podemos oferecer”.
Segundo os ex-moradores, que atuaram à frente da instituição por anos, a gratidão por terem sido acolhidos no momento mais difícil de suas vidas foi o combustível que os moveu a acolher pessoas que se encontravam do mesmo jeito que um dia eles estiveram.
Ao relembrar de antigos moradores, surgiu em suas memórias a história de Veroca, uma travesti que morreu na casa em decorrência da aids e foi enterrada por colegas com quem dividia a moradia. “Nós fomos ‘caçar’ a família e ela não tinha. Não tinha amigos. Existia um telefone para contato em emergência, mas ninguém nunca atendeu. É tão engraçado isso, a FALE nos proporciona até um enterro digno”.
Como ajudar a FALE em Uberlândia
Fundada há 36 anos, a FALE surgiu para acolher pessoas vivendo com HIV. Próximo às festividades do fim do ano e de tempos chuvosos, o local necessita de auxílio financeiro e de doações de alimentos e produtos de higiene para continuar garantindo uma existência digna de pessoas em situação de vulnerabilidade.
A maior parte dos recursos que mantém a Fraternidade Assistencial Lucas Evangelista (FALE) vem de bazares realizados com roupas recebidas por doações. A casa fica na Rua Pedro Quirino da Silva, 321, no bairro Nossa Senhora das Graças, e acolhe prioritariamente pessoas soropositivas, que se ajudam na administração de medicamentos receitados e na busca por atendimento médico especializado. De acordo com responsáveis pelo local, a instituição parou de pedir doações pela internet depois que golpistas passaram a utilizar da causa para retirar dinheiro de pessoas.
As doações podem ser feitas por PIX, no CNPJ da instituição: 23.092.331/0001-02
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