Brasil bate recorde de transplantes, mas 45% das famílias recusaram a doação de órgãos; saiba como funciona a fila
Mês de conscientização sobre a doação de órgãos mostra a importância de conversar com familiares; em 2025, 45% das famílias consultadas recusaram a doação após a morte encefálica
No Setembro Verde, mês de conscientização sobre a doação de órgãos, os números da fila de transplantes no Brasil mostram a importância de uma conversa que pode definir entre a vida e a espera: 4.102 pessoas morreram em 2025 enquanto aguardavam um órgão. No mesmo período, 45% das famílias consultadas recusaram a doação após a morte encefálica, segundo dados da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO).
Em dezembro de 2025, 73.877 pacientes estavam ativos na lista de espera, considerando também quem aguardava por córneas. O Ministério da Saúde contabiliza separadamente os pacientes que esperam por órgãos sólidos, número que passa de 49,5 mil pessoas em 2026.
A campanha ocorre durante todo o mês de setembro e tem como principal data 27 de setembro, Dia Nacional da Doação de Órgãos. A iniciativa busca aumentar a conscientização e estimular que cada pessoa converse com os familiares sobre sua decisão.
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Recusa familiar ainda é um dos principais obstáculos
O Brasil alcançou em 2025 o recorde de 4.335 doadores efetivos, o equivalente a 20,3 doadores por milhão de habitantes, segundo o Registro Brasileiro de Transplantes (RBT). Apesar do avanço, a recusa familiar continua sendo um dos principais fatores que limitam a disponibilidade de órgãos para transplantes.
Entre as 15.940 notificações de potenciais doadores registradas no ano, houve 4.200 recusas familiares. A taxa média de recusa chegou a 45%.
No Brasil, a retirada de órgãos e tecidos de um doador falecido depende da autorização da família. Mesmo que a pessoa tenha manifestado em vida o desejo de doar, os familiares precisam autorizar o procedimento após a confirmação da morte encefálica.
Por isso, órgãos públicos e entidades da área prezam por uma orientação simples: falar sobre o assunto antes de uma situação de luto pode ajudar a família a conhecer e respeitar a vontade do potencial doador.
‘Recebi o meu tão sonhado pulmão e pude voltar à vida’
A história da gaúcha Liège Gautério mostra o que um transplante pode representar para quem está na lista de espera.
Moradora de Porto Alegre (RS), ela foi diagnosticada com fibrose pulmonar em 2003. Com a progressão da doença, passou a depender de oxigênio 24 horas por dia e precisou entrar na lista de espera por um novo pulmão.
Em 2011, recebeu o transplante. “Recebi o meu tão sonhado pulmão e pude voltar à vida”, relatou Liège à Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO).
A nova vida também ganhou espaço no esporte. Em 2015, Liège tornou-se a primeira mulher brasileira a participar dos Jogos Mundiais para Transplantados e conquistou a primeira medalha de ouro feminina do país na competição. Depois, representou o Brasil em outros Mundiais.
Ela também criou o projeto Se Mexe TX, voltado ao incentivo à prática de exercícios físicos por pessoas pré e pós-transplantadas.
Em 2023, Liège passou a competir no fisiculturismo, após o transplante de pulmão, segundo seu depoimento à ABTO.
Esporte virou ferramenta para falar sobre doação
Formada em Educação Física, Liège passou a usar a própria experiência para defender a prática de exercícios entre pessoas transplantadas e também para divulgar a importância da doação de órgãos.
“Procuro utilizar o esporte como ferramenta de divulgação da importância da causa da doação de órgãos”, afirmou no depoimento à ABTO.
Segundo ela, pessoas transplantadas que praticam exercícios tendem a ter menos comorbidades e melhor qualidade de vida, sempre respeitando as orientações e o acompanhamento médico.
A trajetória esportiva também representa, para Liège, uma forma de demonstrar gratidão à família que autorizou a doação do órgão que recebeu. “Sigo treinando e me preparando para meu próximo mundial, mostrando gratidão pelo nobre e importante gesto da família doadora”, disse.
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Brasil bateu recorde de transplantes
O cenário de 2025 teve também resultados positivos. O Brasil realizou 31 mil transplantes, o maior número já registrado no país, segundo o Ministério da Saúde. O total representa crescimento de 21% em relação a 2022, quando foram realizados 25,6 mil procedimentos.
Entre os procedimentos realizados em 2025 estão 17.790 transplantes de córnea, 6.697 de rim, 3.993 de medula óssea, 2.573 de fígado e 427 de coração.
A distribuição interestadual de órgãos também ganhou força. Segundo o Ministério da Saúde, a estratégia coordenada pela Central Nacional de Transplantes viabilizou, em 2025, 867 transplantes renais, 375 hepáticos, 100 cardíacos, 25 pulmonares e quatro de pâncreas.
Os números mostram o aumento da capacidade de transplantes no país, mas a disponibilidade de órgãos continua sendo um desafio para reduzir a fila de espera.
Como funciona a autorização para doar órgãos?
Após a confirmação da morte encefálica, a família é consultada sobre a doação. A autorização é necessária para que órgãos e tecidos possam ser retirados para transplante.
Quem deseja manifestar essa vontade em vida também pode utilizar a Autorização Eletrônica de Doação de Órgãos (AEDO). O procedimento é gratuito e permite formalizar digitalmente a intenção de ser doador.
Segundo o Colégio Notarial do Brasil, foram registradas 32.587 solicitações de AEDO desde o início do levantamento: 18.659 em 2024, 8.886 em 2025 e 5.042 em 2026.
Entre os estados, São Paulo lidera, com 9.399 solicitações, seguido por Paraná (3.818), Rio de Janeiro (2.930), Minas Gerais (2.172) e Rio Grande do Sul (2.012).
Para fazer a manifestação, o interessado participa de uma videoconferência com um tabelião, que confirma a identidade e formaliza a declaração. Depois, o registro fica disponível na Central Nacional de Doadores de Órgãos, para consulta por profissionais autorizados do Sistema Nacional de Transplantes.
A AEDO, porém, não substitui a autorização familiar. Por isso, mesmo quem registra a intenção eletronicamente deve conversar com pais, filhos, cônjuge e irmãos sobre o desejo de doar.

O que fazer durante o Setembro Verde?
Para quem deseja ser doador, o primeiro passo é simples: conversar com a família.
Não é necessário esperar uma situação de emergência para contar aos parentes qual é a sua vontade. A conversa pode ocorrer enquanto a pessoa está saudável e deve envolver familiares próximos.
Também é possível registrar a intenção por meio da AEDO. O documento é gratuito, mas a família continua tendo papel fundamental no processo de doação.
No Setembro Verde, a mensagem central é justamente essa: uma conversa em vida pode fazer diferença no momento em que uma família precisar tomar uma decisão difícil.
Para quem está na fila, essa decisão pode representar a oportunidade de continuar vivendo. Para Liège Gautério, foi exatamente isso que aconteceu em 2011, quando recebeu o pulmão que esperava.
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