Diretores da PF colocam cargos à disposição em protesto à decisão de Mendonça

Corporação reage ao afastamento de Andrei Rodrigues por André Mendonça em meio à crise com Moraes, ao pedido do Novo e à apuração sobre relatórios da PF.

, em Uberlândia

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Onze diretores da PF (Polícia Federal) colocaram nesta terça-feira (8) seus cargos à disposição em um gesto de protesto contra o afastamento do diretor-geral Andrei Rodrigues e do diretor de Inteligência Leandro Almada. O movimento é o desdobramento mais recente de uma disputa que já envolve o ministro André Mendonça, o colega de Supremo Alexandre de Moraes e agora também a Segunda Turma do STF, que teve o julgamento do caso interrompido por um pedido de vista do ministro Gilmar Mendes.

Mendonça usou pedido do partido Novo para afastar diretor-geral e diretores da PF colocam cargo a disposição
Mendonça usou pedido do partido Novo para afastar diretor-geral da PF – Crédito: Carlos Moura/SCO/STF

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Diretores da PF divulgam nota de apoio à cúpula afastada

Em comunicado oficial, os onze signatários afirmam repudiar qualquer tentativa de associar Andrei Rodrigues, Leandro Almada ou a corporação a uma atuação contrária aos princípios republicanos. O texto descreve as acusações como desprovidas de fundamento e capazes de afrontar a credibilidade construída ao longo da carreira de ambos os delegados.

Como resposta, os diretores colocaram formalmente seus cargos à disposição de William Murad, nomeado diretor-geral substituto durante o período de afastamento de Rodrigues.

Assinam o documento os responsáveis pelas diretorias de Investigação e Combate ao Crime Organizado e à Corrupção, de Polícia Administrativa, de Combate a Crimes Cibernéticos, de Cooperação Internacional, de Gestão de Pessoas, Técnico-Científica, de Administração e Logística, de Ensino da Academia Nacional de Polícia, de Proteção à Pessoa, de Tecnologia da Informação e Inovação e da Amazônia e Meio Ambiente.

A adesão simultânea de praticamente toda a cúpula administrativa da PF é lida como uma demonstração de força interna diante da decisão do Supremo.

Mendonça afasta Andrei Rodrigues após vazamento de relatórios

O estopim da crise foi a decisão do ministro André Mendonça, relator do caso do Banco Master, de afastar preventivamente Rodrigues e Almada. O ministro justificou a medida pela “superlativa gravidade” da divulgação de relatórios internos de inteligência da própria PF, tornados públicos na semana anterior por Alexandre de Moraes. 

Mendonça afasta Andrei Rodrigues da direção-geral da Polícia Federal
Onze diretores da Polícia Federal colocaram seus cargos à disposição após o afastamento do diretor-geral, Andrei Rodrigues – Crédito: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

Segundo Mendonça, os documentos sugerem que investigações do caso Master estariam sendo direcionadas contra seus desafetos políticos, apesar de não trazerem assinatura, timbre ou qualquer elemento de identificação formal.

Mendonça também citou um ofício assinado pelo próprio Andrei Rodrigues informando que ao menos seis relatórios semelhantes, tendo o ministro como alvo, circularam entre agentes da corporação durante o mês de agosto. 

Para o magistrado, isso caracteriza monitoramento sistemático e ilícito contra um integrante da Suprema Corte, o que tornaria necessária a adoção imediata de providências para proteger as prerrogativas da magistratura e da própria atividade policial.

Pedido do Novo e acusação de obstrução à delação de Vorcaro

O afastamento atendeu a um pedido do partido Novo, que também havia solicitado a prisão preventiva de Andrei Rodrigues, pedido que Mendonça não acatou.

A legenda argumentou que Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, mantinha proximidade não apenas com ministros do Supremo, mas também com o então diretor-geral da PF, instituição responsável por parte das investigações contra o banqueiro. 

O partido chegou a afirmar que Rodrigues estaria agindo para impedir um eventual acordo de delação premiada de Vorcaro, acusação supostamente feita pelo próprio ex-banqueiro durante uma audiência com Mendonça, realizada a pedido da defesa e acompanhada por um representante do Ministério Público.

Segunda Turma do STF interrompe julgamento sobre a PF

Horas depois da decisão monocrática, por meio de liminar, foi convocada uma sessão extraordinária da Segunda Turma do Supremo para analisar o caso.

Os ministros Luiz Fux e Nunes Marques anteciparam votos pela manutenção do afastamento, formando maioria entre os cinco integrantes do colegiado, que também conta com Dias Toffoli. 

O julgamento, contudo, foi interrompido por um pedido de vista do decano Gilmar Mendes, apresentado logo na abertura da sessão. Enquanto o colegiado não retoma a análise, a liminar assinada por Mendonça permanece em vigor.

Mendonça determina apuração sobre estrutura de inteligência da PF

Além de afastar os dois delegados, Mendonça ordenou que a Corregedoria da Polícia Federal investigue a origem dos relatórios usados por Moraes contra ele. A apuração deve esclarecer quando os documentos foram produzidos, quem autorizou sua elaboração e quais agentes estiveram envolvidos, além de identificar a existência de outros relatórios eventualmente elaborados com o mesmo propósito de monitorar autoridades. 

Na decisão, o ministro classifica o material como um “verdadeiro nada jurídico”, sem valor probatório e passível de ser simplesmente desconsiderado.

A origem da crise: troca de relatórios entre Mendonça e Moraes

O confronto entre os dois ministros remonta à divulgação, por Mendonça, de um relatório da Operação Compliance Zero contendo mensagens atribuídas a Daniel Vorcaro e a um interlocutor identificado pela PF como Alexandre de Moraes.

Recuperadas do celular apreendido do ex-banqueiro, as mensagens sugerem proximidade entre os dois, incluindo uma passagem em que o interlocutor teria recebido e editado um contrato de R$ 131 milhões do Banco Master com o escritório de advocacia da esposa de Moraes, a advogada Viviane Barci de Moraes.

Em outro trecho, Vorcaro parece buscar informações sobre uma possível operação da PF para prendê-lo. Moraes nega qualquer contato com o ex-banqueiro.

Em resposta, Moraes tornou público o relatório da PF que motivou o pedido de afastamento de Rodrigues, enviando o material ao presidente do STF, Edson Fachin, e apontando possíveis atos de abuso de autoridade, improbidade administrativa e crime de responsabilidade por parte de Mendonça.

O episódio, inserido no inquérito das Fake News – aberto há mais de sete anos, aprofunda a crise no STF e mantém o comando da Polícia Federal no centro de um dos embates mais delicados da atual composição da Corte.

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