Por que mulheres na tecnologia ainda são minoria no interior de MG?
Empreendedoras transformam pesquisa e inovação em negócios no interior de Minas, enquanto seguem sub-representadas nas áreas que concentram as profissões mais valorizadas da economia digital
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Mulheres do interior mineiro reconfiguram a economia longe dos grandes centros financeiros do país. Elas lideram mais de 1 milhão de pequenos negócios em Minas Gerais, mas o avanço convive com a desigualdade.
Enquanto elas representam 71,7% dos profissionais em ocupações ameaçadas pela automação, continuam minoria em inteligência artificial, ciência de dados e desenvolvimento de software. Em Uberlândia, no Triângulo Mineiro, empreendedoras transformam pesquisa e tecnologia em empresas e disputam os setores que definem o futuro do trabalho.

Mulheres na tecnologia: inovação a partir do interior
Às 5h40 da manhã, antes da primeira reunião na agenda, Thais Moreira, de 27 anos, já organizou a rotina da casa, alinhou os compromissos da família e revisou as demandas de sua equipe. Pouco depois, negocia com empresas de todo o país pela tela do computador.
A operação não depende dos eixos de São Paulo ou Belo Horizonte. Funciona a partir de uma plataforma criada em Uberlândia que conquistou o segundo lugar na 3ª edição do Upstarts — premiação nacional do Conselho da Mulher Empreendedora e da Cultura (CMEC) para negócios liderados por mulheres.

Sem formação acadêmica tradicional, Thais fundou há dez anos uma HR Tech voltada à gestão de bem-estar corporativo, hoje projetada entre as dez melhores do Brasil. A plataforma conecta colaboradores a serviços de autocuidado e beleza e utiliza inteligência de dados para monitorar indicadores de comportamento nas equipes.
O ritmo reflete a transformação no perfil econômico estadual. Dados do Sebrae Minas mostram que Uberlândia é a segunda cidade com maior número de formalizações do estado, e 41,5% desses negócios têm liderança feminina.
O gargalo nas ‘profissões do futuro’
A expansão, contudo, revela uma contradição: poucas mulheres gerenciam as áreas mais valorizadas da nova economia.
Um levantamento da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) aponta que elas representam apenas 0,4% das ocupações ligadas às “profissões do futuro” (inteligência artificial, automação, análise de dados e Big Data). Entre os homens, o índice é quase quatro vezes maior.
“Quem está fora dos grandes eixos precisa criar conexões do zero e lidar com menos acesso imediato a investidores para crescer. Isso exige empresas mais eficientes e próximas das necessidades reais do mercado”, afirma Thais.
No setor formal de tecnologia, a presença feminina chega a 20,7%. Para a economista Luiza de Mello Teixeira, da Fiemg, o desafio não se limita mais ao acesso à educação, mas à permanência e progressão nas áreas mais estratégicas da economia digital.
“As mulheres estão estudando, se graduando e buscando capacitação. Mas existe uma espécie de dupla desvantagem, estão menos presentes nas profissões do futuro e mais concentradas nas funções com maior risco de automação”, diz.
Um estudo do Observatório do Trabalho do CEPES/UFU confirma a sub-representação em Uberlândia. Elas respondem por 6,7% na engenharia de FinTechs, 12,5% em análise e ciência de dados e 15,7% no desenvolvimento de software. Por outro lado, são maioria em funções ligadas ao cuidado, mais vulneráveis à automação.

Da academia para o mercado nacional
O descompasso entre a produção de conhecimento e a aplicação prática também marcou a trajetória da pesquisadora Isabela Alves Marques, de 41 anos. Após 15 anos na academia, ela transformou seu doutorado em uma startup de saúde.

“A gente entendeu que tinha um produto muito valioso tanto para impacto social quanto para melhorar a vida dos próprios pesquisadores, tirando essa pesquisa da academia”, afirma.
A empresa desenvolve jogos terapêuticos para reabilitação física, que utilizam câmeras para mapear movimentos do paciente e transformar exercícios fisioterapêuticos em interações digitais.
“Se a pessoa teve uma lesão no ombro, por exemplo, ela faz os movimentos dentro do jogo sem perceber a dor. A câmera mapeia o corpo e ela vai cumprindo os desafios”, explica.
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O produto atende clínicas de reabilitação em diferentes regiões do Brasil e a empresa negocia testes na Suécia. Para a fundadora, o obstáculo cultural surge antes do mercado de trabalho.
“Acreditava-se que mulher não era boa em ciências exatas. Mudar esse panorama não é fácil”, afirma Isabela, que também foca na democratização da tecnologia. “Queríamos uma implantação simples, que chegasse à periferia, muitas vezes usando apenas um celular.”

“Esse não é um evento para você”
Para quem atua diretamente na área técnica, as estatísticas se traduzem em barreiras diárias. Lisiane Monteiro, de 46 anos, trabalha com gestão de projetos de TI em Uberlândia e soma duas décadas de experiência em suporte, produtos digitais e liderança.

Quando decidiu cursar Ciência da Computação, ouviu do pai que a área era “um curso de homem”. “Na faculdade, começamos em duas mulheres em uma turma de 40 alunos. No fim, nos formamos em seis”, relembra.
Hoje, Lisiane lidera equipes distribuídas por todo o país a partir do interior mineiro.
“Já ouvi em eventos de tecnologia frases como: ‘esse não é um evento para você’. Isso nunca me parou, mas mostra como as mulheres do interior ainda precisam provar constantemente que pertencem a esses espaços”, afirma.
Mãe de uma adolescente interessada em carreiras digitais, ela afirma que o principal desafio agora é transformar exceções em normalidade. “Nossos filhos já nascem digitais. O próximo passo é fazer com que mulheres na tecnologia deixem de ser vistas como exceção.”
Tecnologia com sotaque regional
Para contrapor a desigualdade, iniciativas locais fomentam a inclusão no ecossistema de inovação de Uberlândia. Zaima Milazzo, diretora de Produtos e Tecnologia da Algar e integrante do Pacto pela Inovação de Uberlândia, ressalta que o interior compete nacionalmente na atração de talentos.

Para a executiva, ampliar a presença feminina na tecnologia tornou-se uma necessidade de mercado. “ Em Uberlândia, vemos mulheres liderando startups, projetos de P&D e equipes de tecnologia, provando que nosso papel é essencial para construir um ecossistema mais resiliente e competitivo.”
O ecossistema local conta com comunidades como o Women Techmakers (WTM) Uberlândia, o evento anual IWD Uberlândia e o projeto FutureHerCode: Elas na Nuvem (parceria entre HUB-OZ e Global Shapers), que oferece formação gratuita em computação em nuvem.
“Hoje, a relevância não é mais definida pela geografia, mas pela capacidade de gerar valor, resolver problemas e competir globalmente. O nosso desafio não é provar relevância, mas sim mostrar que nosso modelo, que une inovação de ponta com um relacionamento próximo e um ‘sotaque regional’, é extremamente poderoso e eficaz.”, aponta Zaima.
Enquanto o mercado acelera a transformação digital, a disputa agora não é apenas por espaço. É por quem terá participação real nas profissões que definirão a economia dos próximos anos. Em Uberlândia, mulheres já ajudam a sustentar a expansão empresarial do presente. O desafio passa a ser garantir que elas também ocupem os setores responsáveis pelo futuro.