Macsuara: o primeiro ator indígena do Brasil mora em Uberlândia e vende plantas medicinais

De vendedor de plantas medicinais a Cannes, ator indígena de Uberlândia acumula décadas de histórias no cinema brasileiro

, em Uberlândia

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“Ninguém vai te explicar nada, o tempo é que vai.” Essa frase marcou um período de mudança na vida de Macsuara Kadiwéu, conhecido como o primeiro ator indígena do cinema brasileiro e morador de Uberlândia. Em sua carreira no cinema, estrelou filmes fundamentais na cinematografia nacional, chegando a ir ao Festival de Cannes ao lado de Fernanda Torres e Ruy Guerra. Ao longo da vida, protagonizou grandes movimentos indígenas do país, ao lado de figuras como Ailton Krenak. Também conheceu astros de Hollywood como Leonardo DiCaprio, Robin Williams e Spike Lee. Hoje, concilia o trabalho de ator com a venda de plantas medicinais, em uma barraca atrás do Centro Municipal de Cultura de Uberlândia. Muitos moradores que passam ali todos os dias provavelmente não imaginam estarem diante de um astro. Quem tem a oportunidade de parar na barraca, certamente sai dali com muito mais conhecimento e admiração. 

Macsuara e sua filha, Yulnak
Macsuara e sua filha, Yulnak, na venda de plantas ao lado do Centro Municipal de Cultura – Crédito; Ulisses Fernandes/Paranaíba Mais

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A barraca é uma estrutura simples. Embaixo de uma lona, plantas e raízes se espalham em grupos, separadas por suas funcionalidades em uma longa mesa de madeira. Macsuara, de 64 anos e natural do Mato Grosso do Sul, vende estes produtos para ajudar no sustento de sua família. Ele afirma que “não mexe com o dinheiro que ganha do cinema”.

Vive com sua filha e com sua esposa, grandes motivos para ele morar em Uberlândia e frutos de uma de suas várias “andanças” pela vida. Entre viagens e uma agenda cada vez mais disputada, o seu comércio é algo que o acompanha. Foi assim desde o início da vida e em várias cidades, e também foi atrás da mesa de plantas que recebeu sua primeira oportunidade midiática. 

O ator nasceu em território indígena próximo a Aquidauana e Campo Grande, em uma família de nove irmãos. Na infância, foi criado pela avó com quem diz ter se comunicado “no improviso”, já que a matriarca não falava português. Passou a infância transitando por várias cidades e cresceu em contexto urbano, trabalhando desde cedo.

Segundo ele, nesta época, era o único dos irmãos que visitava aldeias, já que existia preconceito com os povos originários em seu estado natal. Isso dificultou o processo em que ele mesmo se reconhecesse como indígena, ancestralidade que o levou às principais telas do Brasil e do mundo e que defendeu em grandes disputas nacionais. 

O mar, as praças, o rádio e o cinema

A juventude de Macsuara o levou a buscar oportunidades em grandes centros urbanos. Em São Paulo, trabalhou como “boia fria”. Foi a passagem pela capital paulista que levou o ator a ser atravessado por uma experiência que mudou sua perspectiva de vida, “um rito de passagem” como definiu. 

Na Praça da República, para sua surpresa – já que não sabia que existiam outros “como ele” por ali -, conheceu indígenas vendendo artesanato. Com pouco tempo de contato e movido pela identificação, passou a se encontrar frequentemente com pessoas do povo Guarani. Um deles, chamado Itairano, a pessoa que o ensinou a trabalhar com plantas, o chamou para conhecer a aldeia deles, em Ubatuba.  

“Fui para a aldeia dele numa segunda. Nós descemos a montanha e ele não falou nada pra mim. Lá de cima, vi o grande lago, e fomos descendo. Paramos nesse lago e fui tomar banho. Aí que foi o rito de passagem: eu peguei o shampoo, o sabonete e nada espumava. Quando eu saí, ele falou ‘a água parece que é salgada’. Falei que era do Pantanal, que a água lá também é salobra. Ele falou: ‘isso é o mar’. Eu perguntei o que era o mar, e ele me respondeu para irmos para sua aldeia, que o pajé ia me benzer e que ‘ninguém ia explicar nada’, o tempo é que iria explicar. Até hoje, o tempo ainda está me explicando”, contou.

Depois desta experiência, Itairano o levou ao Rio de Janeiro, onde passaram a trabalhar no Largo da Carioca. “No Rio de Janeiro o índigena era novidade, rapaz. A gente usava um microfone, uma bateria e uma caixa. Tipo um circo, sabe? A gente vendia nossos produtos, dava palestras e pessoas faziam roda pra escutar”.

Em uma tarde qualquer, um produtor de televisão o abordou na praça para oferecer um convite: participar de um programa ao vivo durante o Dia Internacional dos Povos Indígenas. “Eu perguntei o que eu iria falar, ele disse que eu só responderia perguntas do apresentador e falasse sobre as plantas”. 

“No programa, cada bloco era uma história. Quando chegou a minha vez, disseram que a audiência subiu. O diretor entrou durante o comercial e pediu pro apresentador para continuar falando comigo. Falávamos de várias coisas, eu era uma novidade e nem sabia. Quando terminou o programa, falei que ia pra barraca, pois ela estava sozinha. O apresentador pediu pra falar comigo e me chamou para eu participar de um programa de rádio”, lembrou Macsuara.

A participação se tornou um quadro próprio no programa de rádio do apresentador: o “Disk Pajé”. O ator passou a falar, em vários aparelhos de rádio no Rio, sobre coisas do cotidiano e plantas. As pessoas ligavam e conversavam com Macsuara, e o sucesso fez com que abrissem um ‘consultório’, onde pessoas iam até ele pessoalmente, só para suas entradas ao vivo. 

O estabelecimento ficava próximo à praça em que ficava a barraca, algo que nunca abandonou. Nessa fase, por conta do programa, o ator afirma ter conhecido os artistas da banda Barão Vermelho e até a Gretchen. Durante um programa, conheceu Zezé Motta, que o chamou para participar do seu primeiro filme: Quilombo (1984, Cacá Diegues). 

“Zezé me explicou o que era o Quilombo dos Palmares, mesmo eu não entendendo nada. Fez eu me encontrar com o diretor, Cacá Diegues. Encontrei os dois e pouco depois fui aceito. Conheci o meu primeiro preparador de elenco. Ele me deu tempo de câmera, me explicou como lidar com a luz. Foi técnico, como aprender a dançar. Me ensinaram a fazer do meu jeito, e deixaram claro que a câmera iria me acompanhar”, lembrou.

Estreia no cinema

Em 1985, foi o primeiro indígena brasileiro a protagonizar um filme nos cinemas, em “Avaeté – Semente da Vingança”, de Zelito Viana. Na película, fez um personagem chamado Avá, em uma obra que discute o colonialismo e a relação do país com os povos originários a partir de um episódio que mancha a história nacional: o massacre dos indígenas Cinta-Larga, no Mato Grosso, registrado por Darcy Ribeiro. 

Neste filme, Macsuara vive um sobrevivente que busca vingança, e a entrega do ator que vive em Uberlândia foi alvo de elogios da crítica internacional. O filme foi premiado em festivais reconhecidos mundialmente, como o de Moscou e do Rio de Janeiro. 

O ator conta que, por mais que tenha trabalhado em outros filmes, foi em Avaeté que teve seu primeiro contato mais intenso com o texto. Na época, não sabia ler. Chico Díaz, ator que o preparou para o papel, o ensinou a pedir para alguém gravar o texto e treinar repetindo a gravação. “Ele me lia e eu repetia. Ele me ensinou que não é leitura, é auditivo. Eu peguei o jeito rápido, mas não entendia a pontuação das coisas. Aprendi a lidar com isso através do fôlego e do olhar. O diafragma é onde você leva a emoção. E cinema é transmitir emoção”.

“Essa preparação foi importante, pois hoje eu consigo mandar mensagem pelo cinema. Não sou de levantar bandeira, através do filme você vai entender a minha filosofia. E Avaeté é o exemplo disso. De passar uma mensagem do meu jeito”, relembrou.

macsuara no cartaz de avaeté e hoje em dia
No filme, Avá é o único sobrevivente de um massacre criminoso que exterminou os índios Avaeté – Crédito: Reprodução/Internet/Yulnak Kadiwéu

No mesmo ano do lançamento de seu primeiro filme como protagonista, também participou do filme hollywoodiano “A Floresta de Esmeraldas”, de John Boorman. A filmagem foi o primeiro de seus contatos com grandes estrelas do cinema internacional, e com produções que alcançaram o mundo inteiro. 

Em 1989, Macsuara participou do filme Kuarup, de Ruy Guerra. Rodado na região do Xingu, o ator contracenou com Fernanda Torres, Cláudia Raia e o próprio Ruy Guerra. A produção concorreu à Palma de Ouro em Cannes e o morador de Uberlândia viajou até a França para participar do Festival. 

Fragmentos de memórias de Macsuara Kadiwel, por Yulnak (sua filha) e publicado no Museu dos Povos Indígenas da UFU

 

Nesta e em outras viagens, o indígena conheceu estrelas como Spike Lee, Robin Williams, Leonardo DiCaprio, Patrick Schwayze e Whoopi Goldberg. Macsuara conta, com um sorriso no rosto, que a viagem foi uma aventura. “Quando eu cheguei no Festival de Cannes, tinha um jaguar conversível que foi me buscar no aeroporto. O  motorista estava de luva branca, abriu a porta para mim entrar e sair. E eu, pô, eu fui com uma mala lá da 25 de Março, uma mala velha”.

“Eu nunca fiquei nervoso, porque essas estrelas são trabalhadores como qualquer um, entende? Nas horas que me sinto confuso ou perdido por causa do trabalho, deve ter algum espírito que me acompanha até hoje. Eu acredito, pelo que minha avó falava e eu não entendia. Talvez foi falando com ela, que não sabia falar português, que eu aprendi a tentar explicar o inexplicável, o que me ajudou a atuar. Acho que foi dali que eu tirei toda minha segurança. Ou de quando aprendi a catar algodão. Não entendia nada e, por fim, vi que era tipo remar um barco”, explicou ao falar sobre como enfrentar os momentos importantes de sua vida. 

‘Equilibrium’ e uma nova fase da carreira de Macsuara

Há alguns meses, Macsuara recebeu um telefonema. Era uma produtora, que o conhecia por ter estrelado uma novela e o fez um convite. O morador de Uberlândia não entendeu direito do que se tratava, e ligou para o seu filho para perguntar: “Quem é Anitta?”.

Depois de entender a proposta e quem era a cantora, ficou se perguntando o que a artista queria com ele. O indígena fez parte do projeto audiovisual do álbum EQUILIBRIVM II, na faixa OKE. No vídeoclipe, Macsuara representa o Pai da Mata e lê uma passagem de um livro de Ailton Krenak. Ele não sabia que o trabalho envolvia uma fala e, ao se dar conta de que se tratava de uma citação do primeiro indígena imortal na Academia Brasileira de Letras, teve uma surpresa, já que são amigos pessoais. 

Aí, eu conheci a Anitta. Falei que não sabia porque ela tinha me chamado. Anitta, me abraçou, carismática pra caramba. ‘Obrigado, Macsuara’. Eu falei pra Anitta, ‘não sei cantar, não sei dançar, não sei o que dizer. O que você quer comigo aqui?’ Ela falou ‘nem eu sei o que tô fazendo, mas você vai entender. Acredita em você, do jeito que você tá acreditando em mim’. Na hora que começou, a Anitta entrou e sentou na minha frente e falou ‘agora está entendendo, Macsuara?’.  Quando entrou a música, falei: ‘Caramba, entendi’”, contou o ator. 

O ator conta ter se encantado com o trabalho da diva brasileira e que, ao contrário do que muitos pensam, é uma manifestação artística com significados profundos. “Quando eu vi as críticas dizendo que a Anitta abriu o portão do inferno, eu falei: ‘agora sou satanás também? Quando eu coloquei a roupa, Anitta me falou que iríamos nos conectar e ganhar o Grammy”. 

Hoje, Macsuara está envolvido em projetos internacionais, que ainda não podem ser revelados por motivos contratuais, e participou do filme Makunaima XXI, um trabalho que ainda será lançado, estrelado por Bruno Gagliasso, e que reimagina o clássico de Mário de Andrade a partir de uma perspectiva dos povos originários contemporâneos.

Entre projetos, viagens e celebridades, o ator continua tocando a venda de plantas medicinais ao lado do Centro Municipal de Cultura.

Além de ator, Macsuara também foi uma importante liderança indígena no país e participou de grandes movimentos nacionais que protagonizaram a luta por direitos dos povos originários. De contato com Chico Mendes à amizade com Krenak, esta esfera da vida deste morador de Uberlândia fica para uma segunda reportagem. Interessado? Continue acompanhando o Portal Paranaíba Mais